Origem de nossa lingua e poesia

A lingua e a poesia portugueza (bem como as outras todas) nasceram

gemeas, e se criaram ao mesmo tempo. Erro é commum, e geral mesmo entre

nacionaes, pela maior parte pouco versados em nossas cousas, o pensar

que a lingua portugueza é um dialecto da castelhana, ou hespanhola

segundo hoje inexactamente se diz.

Das variadas combinações das primitivas linguagens das Hespanhas com o

Grego, o Latim, com os barbaros idiomas dos invasores do norte, e alfim

com o Arabigo, nasceram em diversas partes da Peninsula diversissimas

linguas que nem dialectos se podem chamar geralmente, porque, além de

não haver uma commum, de muitos d’elles é tam distincta a indole e tam

opposta que se lhes não colhe similhança.

Ninguem ignora hoje que o Proençal foi a primeira que entre as linguas

modernas se cultivou, mas que por sua breve dura não chegou nunca á

perfeição. Das nações da Hespanha, as mais vizinhas áquelle crepusculo

de civilização primeiro melhoraram sua linguagem: mas tambem lhes

coube igual sorte; nunca de todo se puliram. O Castelhano e Portuguez,

que mais tarde se cultivaram, permaneceram pelo sabido motivo da

conservação da independencia nacional, e vieram a completo estado

de perfeição e caracter cabal de linguas cultas e civilizadas. O

Biscaínho, Catalão, Gallego, Aragonez, Castelhano, Portuguez e outras

mais foram e são ainda alguns distinctos idiomas: porém so os dous

ultimos tiveram litteratura propria e perfeita, linguagem commum e

scientifica, tudo emfim quanto constitue e caracteriza (se é licita a

expressão) a _independencia_ de uma lingua.

Grande similhança ha entre o Portuguez e Castelhano; nem podia ser

menos quando suas capitaes origens são as mesmas e communs: porém tam

parecidas como são pelas raizes de derivação; no modo, no systhema

d’essas mesmas derivações, na combinação e amalgama de identicas

substancias e principios se vê todavia que diversos agentes entraram,

e que mui variado foi o resultado que a cada uma proveio. Filhas dos

mesmos paes, diversamente educadas, distinctas feições, vario genio,

porte e ademan tiveram: ha comtudo nas feições de ambas aquelle _ar de

familia_ que á prima vista se colhe.

Este ar de familia enganou os estrangeiros, que sem mais profundar,

decidiram logo, que o Portuguez não era lingua propria. Esse achaque

de decidir afoitamente de tudo é velho, sobre tudo entre francezes,

que são o povo do mundo entre o qual (por philaucia de certo) menos

conhecimento ha das alheias cousas.

Sem dúvida é que a lingua portugueza começou com seus trovadores,

unicos no meio do estrepido das armas que algum tal qual cultivo lhe

podiam dar; e provavel é que assim fosse com pouco melhoramento até os

tempos d’el-rei D. Diniz, que no remanso da paz de seu reinado protegeu

e animou as lettras, que elle proprio cultivou tambem.

O retrato de Venus e estudos de historia litterária · 第 115 / 133 题