Da Eschola Franceza

A eschola Franceza, filha da Romana (segundo Pruneti) honra muito a sua

progenitora. Desde o seculo XVII as Italianas (seu modelo) declinavam

muito; ja se não viam Rafaelos, Corregios, nem Ticianos: parece que

a natureza, esgotada por tam grandes talentos, queria descançar.

E nesta mesma epocha (principios do seculo XVIII, e fins do XVII)

brilhavam em França Le Brun, Lesueur, Subleiras etc. Veio o seculo XIX

tam memorando pelas extraordinarias mudanças, que viu a Europa; e em

quanto a revolução Franceza, e suas consequencias aniquilavam em toda a

parte[25] as boas-artes; a França apresentava ao mundo o mais brilhante

espectaculo. Por entre o ruido das armas e o estrepito dos combates,

as margens do Sena,

_D’onde, arrancando omnipotencia aos fados, Impoz tropel d’heroes

silencio ao globo_

(BOCAGE)

se ornavam com todo o esplendor das sciencias e artes. A mesma

Theologia tam sêca, e enfadonha nas mãos de Santo Thomaz, tam immoral

nas de Mollina, e Sanches, muda de fórma, toma nova essencia, e na

milagrosa penna de Chateaubriand surge com uma belleza e magestade,

que jamais puderam dar-lhe o douto Agustinho, o eloquente Origenes.

Com bem justiça, em quanto a mim, se podem a si proprios applicar os

Francezes, a respeito das outras nações, aquella sentença de Seneca:

_Multum egerunt qui ante nos fuerunt, sed non peragerunt_.[26] Nesta

epocha brilhante e memoranda nos fastos da humanidade, das sciencias

e das artes, a pintura renova em París os seculos de Augusto, de Leão

X e de Luiz XIV. Os generaes victoriosos traziam de toda a parte os

monumentos mais preciosos das boas-artes. O Vaticano, o Belveder,

o Capitolio, Roma, toda a Italia foi exhaurida, e suas riquezas de

sculptura e pintura transportadas á nova capital do mundo. Então

appareceram em França David, Girodet, e muitos outros, que vão parelhas

com os mais famosos Italianos, se em parte os não excederam. Lavater

no seu ingenhoso livro das physionomias não se attreveu a caracterisar

os Francezes. Seus genios e maneiras tam incertos e incapazes de

classificação, como sua variada phisionomia, impedem affixar-lhes

com exactidão a caracteristica; e philologos por isso houve, que não

quizeram considerar na Franceza uma eschola; porem esta assersão é sem

critica, e pouco seguida. Pruneti no seu _Ensaio Pictorico_ accusa a

eschola Franceza de mau colorido, e ignorancia do _antigo_. Eu, sem me

attrever a contrastar este parecer, julgo que tal imputação não pode

ter lugar na moderna eschola franceza; mas somente se deve referir á

antiga. Pruneti todavia não conheceu a eschola de David; mas devia

conhece-la seu traductor Taborda; devêra estuda-la para emendar o

seu original, e exceder assim a mediocridade d’um traductor servil,

accrescentando-lhe novas ideias. O grande genero francez é geralmente o

historico. O chefe desta eschola, querem uns que seja Roux, ou Rosso,

outros que Leonardo da Vinci: Pruneti assevera que fôra Primaticio

Bolognese e o faz alumno da eschola Romana. Eu o classifiquei na

Lombarda; mas confesso que me enganei; porque o seu pintar, verdadeira

norma, é mais Romano, que Lombardo.

O retrato de Venus e estudos de historia litterária · 第 87 / 133 题