«_Em cêrca aos muros da gentil Parthénope._»
Napoles, assim ditta antigamente de Parthénope, uma das sereias, que se
enchêram de desesperação por não poder vencer Ulysses com o seu canto.
Junto ao tumulo desta simideusa ou nympha se edificou uma cidade,
que della tomou nome. Destruida ésta, se tornou em seu mesmo logar a
edificar outra nova, dita Napoles (_Neapolis_--Νεαπὸλις--cidade nova)
nome que inda hoje conserva.
«_Umas sobre outras as cidades jazem._»
Pelos fins do seculo passado se descubriram nas visinhanças do Vesuvio
as antigas cidades de Herculano e Pompeia. A cidade de Portici está
quasi situada sobre a antiga Pompeia, que, assim como o Herculano, fôra
submergida em uma explosão do Vesuvio.
«_E a rôdo os d’atro fogo horridos rios._»
Nas grandes irrupções do Vesuvio corre do alto da montanha um, como
rio, de fogo, que dá uma imagem das fingidas torrentes do sonhado
Averno.--Virgilio, que de certo dos volcões de Napoles houve a idea
do seu _Phlegetonte_, situou por aquelles logares os seus--_Plutonia
regna_.--(Vid. Stael na _Corin_.)
«_Inda no mesto panno afflictos súam._»
....... Sudant in marmore mœsto.
SILI. _Ial._ Lib. I.
«_Saliente Caravaggio, que exprimiste._»
_Saliente_; porque as figuras de seus quadros tem um ar de relêvo,
que engana. É necessaria metonymia, de que uso muitas vezes para
caracterizar os pintores, segundo suas mais distinctas qualidades.
«_Ja de accurvados reis não brilha o fasto._»
O simples nome de Roma basta para fazer nascer uma infinidade de ideias
grandes e de magestade. Todos os pensamentos sublimes, que a imaginação
póde crear, todas as sérias reflexões, que póde suscitar a razão,
todas as memorias augustas, que a virtude e a humanidade podem fazer
nascer, occorrem e borbulham associadamente na alma do homem pensador
com a simples ideia de Roma. O exfôrço dos Horacios, a castidade das
Lucrecias, a integridade dos Brutos e Catões, o patriotismo dos Fabios
e Scevolas, a magnanimidade e valor dos Scipiões, a eloquencia dos
Ciceros, o saber dos Plinios, a liberalidade dos Augustos, a grandeza
dos Trajannos, a humanidade dos Titos, tudo se recorda com a memoria
illustre da cidade por excellencia.
Imagine-se um homem cheio de toda a magnificencia destas ideias,
possuido de respeito e veneração, ao entrar em Roma.--Ruinas,
sepulcros, templos derrocados, estradas solitarias, ruas desertas...
são os miseraveis objectos, que lhe ferem os olhos, mui de longe
preparados para admirar a senhora do universo. De espaço a espaço
descobre (é verdade) um templo magnifico, um grande palacio; mas breve
se desvanece este vislumbre de grandeza, e subito se esvai a nascente
esperança de encontrar a Roma de Augusto. Estes palacios, estes
templos, que se elevam do meio das choupanas (habitação da indigencia
e da fome) carregados d’ornatos, de sobejo embellezados, serão acaso
aquelles esmeros de architetura grande e magestosa, suberba e varonil
dos edificios Latinos? Poderá algum d’elles similhar-se ao _Fóro_, ao
_Palacio_, ao _Amphitheatro_? Descubrir-se-ha n’alguma d’estas modernas
praças o menor vestigio dos _Rostros_? O Capitolio, o terrivel, o
venerando Capitolio, onde se julgava dos destinos das nações, onde os
reis curvavam os sceptros, e depunham os diademas; d’onde sahiam os
irrevogaveis e tremendos decretos, que dispunham da sorte dos povos, e
legislavam ao universo, que é feito d’elle?--O solicito viajante ainda
o descobre; o seu _cicerone_ (guia) ainda lhe mostra o logar d’elle.--E
será este?--Differente estrada conduz ao cimo do monte; o palacio do
_senador_, alguns restos de quebradas estatuas, de desfigurados relevos
são todas as riquezas, todos os tropheos, todos os despojos, que ornam
o antigo alcaçar do mundo.
Confuso, humilhado, o viajante não se atreve ja a encarar nenhum
edificio.--«Os habitantes ao menos (diz elle) talvez conservem
alguma cousa ainda de Romanos. Tantas virtudes, tanta grandeza não
podiam extinguir-se de todo.»--Um bando de miseraveis, uma plebe
indigente, vil e sem costumes, são os successores do povo rei; uma
côrte effeminada, e entregue aos deleites do ocio occupa o logar dos
Brutos e Catões; declamadores sem gôsto, com affectadas e guindadas
phrases (que ou não entendem ou não crem) fazem retenir aquelle
mesmo ar, que ouviu os eloquentes e numerosos sons de Cicero e Marco
Antonio; assucarados trovadores infectam com os seus--_concetti_--a
degradada lyra de Virgilio e Horacio; os Scipiões, os Emilios, os
grandes generaes, as invenciveis tropas da triumphante republica são
substituidas por um bando de assoldados Suissos, cujas grandes proesas
e valor, cujos guerreiros exforços são o fazer a guarda do papa. Em
vez do augusto e venerando senado, um ajuntamento d’homens ambiciosos,
insaciaveis d’ouro, regem despoticamente; não os direitos das nações,
e deveres dos reis e povos pelas invariaveis leis da justiça, como
os antigos _conscriptos_; mas o corpo invalido da igreja por elles
arruinada e depravada, levando simplesmente o fito em pescar para a
barca do humilde S. Pedro as riquezas das nações com o sagrado anzol
das indulgencias, reliquias e breves.--«Roma! oh Roma! (exclamará o
contristado viajante) tu ja não existes; a tua liberdade expirou em
Catão, e tu com ella! A liberdade te conservava as virtudes, que, mais
que tuas façanhas, te constituiram no imperio do orbe. Perdeste-a;
e desde então caminhaste sempre com gigantescos passos ao abysmo
de miseria e vileza, em que jazes sepultada para eterno exemplo do
universo.
E com effeito, tal é a sorte de quasi todas as nações! Florecem, reinam
em quanto a liberdade, ou a larva della subsiste; apenas se eleva a
tyrannia, cai de rôjo com a liberdade o amor das virtudes; a servidão
embrutece o homem; a sociedade se muda em um rebanho de escravos; e
a miseria succede á opulencia. Assim cahiu Roma, assim Sparta, assim
Hollanda, assim tantas outras. Que exemplos para os tyrannos, e que
terrivel escarmento para os povos! Miseraveis despotas, embreve
estendereis o sceptro de ferro sobre montões de ruinas. Os Vandalos,
os Godos, os Arabes não se acabaram ainda; e vós os chamais com tanta
ancia![15]