«_Como é dado aos mortaes bellezas tuas._»
Platão, fallando da musica, diz: (_De republ._) que se não deve
conceituar pelo prazer, nem preferir a que não tem outro objecto, senão
o prazer; mas a que em si contiver a similhança da _bella natureza_.
Esta sentença é perfeitamente applicavel á pintura. E tal é d’ha
muito a opinião de todos os rhetoricos e philologos. (Vid. Aristot.,
Le Batteux, Laharpe, Lemercier, etc.) Não nos enganemos porém com
esta--_natureza bella_.--Nem só aquillo que tem _bellas_ e lindas
fórmas, é _bello_; e nem tudo aquillo, que as tem, o é. Boileau o
declara manifestamente, e o prova:
Il n’est point de serpent, ni de monstre odieux,
Qui, par l’art imité, ne puisse plaire aux yeux.
D’un pinceau délicat l’artifice agréable
Du plus affreux objet fait un objet aimable.
BOILEAU: _Art. Poet._ Chant 3.
«_A mestra, a sabia antiguidade o diga._»
Quid virtus, et quid sapientia possint
Utile proposuit nobis exemplar.
HORAT. _Ep._ II, L. I.
......... Fabularum cur sit inventum genus,
Brevi docebo. Servitus obnoxia... etc.
PHOEDR. Lib. III, prolog.
«_Não: fabula gentil, volve a meus versos._»
......... Et, s’il est vrai, que la fable autrefois
Sut á tes fiers accents mêler sa douce voix;
Si sa main délicate orna ta tête altière;
Si son ombre embellit les traits de ta lumière,
Avec moi sur tes pas permets-lui de marcher.
Pour orner tes attraits, et non pour les cacher.
VOLTAIRE: _Henr._ Chant I.
Cosia egro fanciul porgiamo aspersi
Di soave licor gl’orli del vaso, etc.
TASSO: _Gerusalem_ Canto I, stanz. 3.
«_....... O Cyprio moço, o Teucro._»
Adonis, filho de Cyniras, rei do Chypre (_Cyprum_) Anchises, Troiano
etc.
Achises conjugio Veneris dignate superbo.
VIRG. _A En._ Lib. 2.
«_Em quanto nas lidadas officinas.M_»
Retumbam nas _lidadas officinas_
Echos gostosos das nascentes almas,
Que novos corpos a habitar caminham.
FILINT. ELYS. _Ode a Venus_ (Tom. 5).
«_C’o estremecido arrulho a dona imitam._»
Presentem ja no _estremecido arrulho_
Os propinquos prazeres.
FILINT. ELYS. ibid.
«_Porque mesquinhas leis nos vedam barbaras
Tam suave pecar......_»
Si il peccar è si dolce,
E’l non peccar si necessario; ò troppo
Imperfetta natura,
Che repugni ala legge!
O troppo dura legge,
Che la natura offendi!
GUARINI: _past fld._
Se este crime é tam doce,
Se tanto fugir delle é necessario;
Imperfeita parece a natureza,
Que fraca á lei repugna,
Ou lei muito severa,
Que a natureza offende.
_Traducç. de_ THOM. JOAQ. GONZAGA.
«_E do amado na dor, sua dor recresce._»
Che l’esempio del dolore
È un stimolo maggiore,
Che richiama a sospirar.
METASTAZ: _Artass._ atto I.
«_Dos antigos errores esquecido._»
Errores é usado por Camões no sentido de--_longas, e desvairadas
viagens_--; Ferreira porem, e outros classicos de igual nota o tomaram
na mesma accepção, em que aqui se toma.
«_Com o amante fugir, morrer com elle?_»
Uma deusa não póde morrer: me diz ja algum critico, muito contente do
quinau. Assim é, Sr. critico; mas no delirio das paixões quem se lembra
da sua natureza?--Uma deusa com paixões!--Os deuses da mythologia, os
numes dos Gregos, e Romanos não são o mesmo que o deus do philosopho
(digno de tal nome) que, satisfeito de reconhecer a existencia d’um
ente supremo, pára, onde se lhe acabam as forças, nem prosegue em
investigações, onde se lhe apaga a luz da fraca razão; nem empresta
á desconhecida causa das causas os habitos, as paixões, a fórma, e
toda a natureza da fragil e apoucada humanidade. O orgulho de se
occultar a si proprio a sua fraqueza, e de abaixar até á sua mesquinhez
a idea de deus, por não poder subir até á altura d’ella, nasce da
nossa vaidade, da nossa ignorancia e da nossa miseria. Por isso os
theologos desbocadamente nos pintam, e nos querem fazer crer em um deus
vingativo, irado, e capaz em fim de todos os crimes e vicios, que elles
em sua alma alimentam e nos querem vender por virtudes.
«_..... Comsigo ao carro o sobe._»
Subir é um verbo neutro; mas é este um idiotismo bem notavel da nossa
lingua, usar de taes verbos com força activa, como o fazem os nossos
classicos a cada passo.
«_Que lhe spira dos labios, das pupillas._»
Aquelle não sei que,
Que _spira_ não sei como,
Que invisivel sahindo, a vista o vê.
CAMÕES: _Ode 6_.
_Spirem_ suaves cheiros
De que se encha este ar todo.
FERR. _Castr._ act.
«_Arde voltar ao suspirado asylo._»
... Jamdudum errumpere nubem
_Ardebant_.
VIRGIL. _AEneid._ L. I. v. 580.
«_Disenhos volve..........._»
Esta palavra mui portugueza e antiga (embora de origem estrangeira)
não é gallicismo; exprime bem o--_dessein_--francez, e tem por si a
auctoridade d’um escriptor bem notavel e bem antigo, qual é Damião de
Goes. (v. Chron. de D. Man. part. I, cap. 4, e _passim_).
«_Que tam suave rege a natureza._»
......... Omnis natura animantium
Te sequitur cupide.
LUCRET. Lib. I. v. 15.
«_Mal disse; e o raio mais veloz não rue._»
Este verbo muito adoptado por Filinto Elysio, e pelo erudito traductor
da lyrica de Horacio, Antonio Ribeiro dos Santos; e cujos compostos,
e derivados ja tinhamos (_correr_, _decorrer_ etc.) tem todas as
qualidades necessarias para a sua naturalisação.
«_Da rubra dextra do Tonante irado._»
........ _Et rubente_
Dextra sacras jaculatus arces
Terruit urbem.
HORAT. _Od_. 2, Lib. I.
«_Á voz da deusa fende os ares liquidos._»
......... Per liquidum aethera:
VIRG. _AEn._ Lib. I.
«_Quaes ao paiz do mysterioso Etrusco._»
Florença na Toscana, ou antiga Etruria, dita _mysteriosa_ em razão dos
seus áugures.
«_Á formosa Bolonha..._»
De Bolonha conta Ganganeli (ou antes Carracioli) nas suas cartas,
que um Portuguez, encantado de sua belleza, exclamara: «Não se devia
mostrar senão ao domingo.»
«_E fitando no ceo audazes vistas._»