CANTO SEGUNDO

Mas eis, distinctos esquadrões formando,

As escholas assomam; reina entre ellas

Vivaz emulação, que gera os sabios:

Vão-lhe na frente os affamados chefes,

Que a patria honraram c’o pincel divino.

No bello antigo modelando as graças,

Que em mais sabio pincel, mais bellas surgem,

A frente airosa sobre erguendo ás outras,

Vem tribu excelsa dos Romãos pintores.

Deram-lhe o grau supremo ardua sciencia

Das attitudes, d’expressão, verdade,

De audaz composição, nobre elegancia,

O correcto desenho, e puro, e grave,

E quanto inspira Apollo ás almas grandes,

Em extasi sublime altas ideias.

É filho seu (que mais sobeja glória!)

Raphael, o divino, o mestre, o numen

Da moderna pintura, eterno brilho,

Que os Apelles offusca, e Roma, e Grecia;

Que, as barreiras transpondo á natureza,

Olhou de face a face a divindade,

E as glórias do Thabôr fez ver ao Tybre,

E aos d’arte amantes desejar com Pedro

Junto ao prodigio habitação ditosa.[1]

Julio o mestre imitou, foi digno d’elle:

Forte, ardida expressão lhe anima os traços,

Que ás proficuas lições dão glória e lustre.

Em cêrca aos muros da gentil Parthénope,

Onde aprimora a natureza os mimos,

E a voz do creador soou mais bella,

Onde, entre montes de sulphureas cinzas,

Umas sobre outras, as cidades jazem,

E a rôdo os d’atro fogo horridos rios

A poeticas ficções dão ser terrivel;

Alli, silencio eterno ergueu severo

Religiosa mansão; firmou-lhe as bases

Austera, descarnada penitencia.

Sobre as azas do ingenho, á voz d’um numen,

Vigoroso, expressivo Spanholeto,

Lá foste, e a assomos do pincel terrivel

Em longas vestes surgem, pulam, vivem

Fatidicos anciãos; ás portas velam

Da estancia outr’ora silenciosa, e sancta.

E quando atroz, hypocrita veneno,

Lavrando a furto sob o sacco, e cinza,

Os muros profanou, que ergueu virtude,

Inda no mesto panno afflictos suam;

E a gloria do pintor fulge entre o crime.[2]

Fostes, como elle, heroes da arte divina,

Polidoro gentil, vivaz Fattore,

Saliente Caravaggio, que exprimiste,

Senão bella, fiel a natureza.

Nobre, altivo Cortona, quanto vivem

Scenas famosas da nascente Roma!

Nas mães trementes, pallidas filhinhas,

Ve como a mesma dôr redobra encantos!

E o fero aspeito dos Quirinos Martes,

Onde a furto da glória amor scintilla!

Ah! proximo o prazer vai dar ao mundo

Prodigios de valor, extremos d’honra,

Prole Romana... Eis o universo em ferros.[3]

Amavel, terno Sacchi, a ti surriram

Do mago cinto de Erycina as graças;

Meigos, suaves dons te esparzem n’alma,

Que nos quadros gentis reflectem doces.

Belligero Cerquozzi avulta aos olhos

Brandir no panno, lampejar mil ferros,

E aos roucos sons da sanguinosa guerra,

Entre as phalanges baralhadas rôtas,

Entre abysmos d’horror alçar-se a morte.[4]

Quam magos fulgem divinaes, sublimes,

Maratti encantador, facil Giordano,

Mimoso Dolce, e vós, que á nova Roma

Ingenhos tantos, insondaveis, grandes,

Por guerreiros tropheos, suberbos róstros,

Triumphos cem do ovante Capitolio,

Dais, se menos viril, menos heroico,

Ornamento gentil, belleza, encantos.

Ja de acurvados reis não brilha o fasto

Da escravidão contentes; não se antolha

Em cada senador um nume, um Jove.

Ja nas praças, nos templos não campeiam

Os despojos do mundo; o Circo, o Fóro,

Prodigios d’arte, da opulencia, e luxo,

Da barbara ignorancia ás mãos cederam.

Cheio de Livio o viajante absorto

Não ve do Capitolio a frente erguida

Torreada avultar com ferros cento,

Não ve povo d’heroes girar-lhe entôrno;

Da inesp’rada mudança pasma, e geme,

E no centro de Roma a Roma busca.

Porem, se amiga mão lhe guia os passos,

Se o Vaticano e mil prodigios nota,

Que do antigo explendor moderam fama;

Então Roma conhece, então venera

Nobres resquicios de gloriosos évos.

Taes da moderna Roma os filhos iam

Por travesso menino conduzidos;

E d’altiva belleza ornada a frente,

A magestosa, Florentina eschola

De perto os segue: no atrevido ensejo

Parece disputar-lhe o grau supremo.

Co’a sublime expressão, desenho ardido,

Gigantesca maneira, audaz, mas bella,

Se antolha ennobrecer a natureza.

Brandas graças d’amor, ternura, encantos

Feroz desdenha; só lhe avulta á mente

O nobre, a pompa da ideal grandeza.

Não foi sobre o Synai mais formidavel,

Que d’Angelo entre as mãos, Moysés terrivel;

Nem lá no extremo, derradeiro dia

Julgamento final será mais horrido.

C’o deus, que o peito vos perturba, anceia,

Mais pavorosas não rugís, Sibylas.

Da mão nervosa cada traço é raio,

Que espanta os olhos, que deslumbra a mente;

Que enxofrado clarão, medonhas larvas

Em todo o horror do Averno ostenta horrivel;

Que, se um deus pinta, é do castigo o numen,

Que em longa geração pune um só crime,

O deus, que no deserto, entre os relampagos,

Entre o rouco estampido das trombetas,

Pela voz do trovão legisla ao mundo.

Eis, desdobrando hydraulicos segredos,

E as mechanicas leis com sabia dextra

Movendo a seu sabor, á glória sua,

Vinci tam caro aos reis, de o ser tam digno,

Seu correcto, purissimo desenho,

Engenhoso compor o eleva aos astros,

Aos astros, onde fôra em vôo ardido

Os pinceis escolher, buscar as tintas,

Com que d’ultima ceia debuxára

Amor, transportes, mysteriosas scenas.

Ah! gire o teu prodigio o mundo inteiro;

E de grado a razão cede ao mysterio.

Côres roubando á natureza, e mimos,

Bello como ella, o inimitavel Porta

Ao gelado silencio de ermo claustro

Chamou das nove irmans o chôro arguto.

Urbino o conheceu; e o sceptro augusto

Curvou ante elle; e, confundindo os raios,

Os dous d’alma pintura astros brilhantes,

Sem negro eclypse, scintillaram juntos.

Vens, ó Sarto, apoz elle, ameno, e brando;

Vens, Peruzzi gentil, fertil Pantorma,

Que ao nobre assômo do pincel nervoso,

C’o doce encanto das mimosas tintas

Fizeste a Raphael, a Buonarrotti

D’arte a coroa estremecer na frente.

Sec’los famosos d’Alexandre, e Augusto

Na Italia renovou macio Allori;

E as meigas cores do pincel Lombardo

Quasi Ciogli usurpára ao grão Corregio.

Ah! veda a musa, e pequenez do ingenho

Seguir-vos todos, divinaes pintores:

Segura a fama vossa alteia a frente,

E o vate ao longe vos contempla os vôos.

Gentil Bolonha, que na Europa barbara

O faxo das sciencias accendeste,

Que o Gothico stupor tiraste ás artes,

E as cinzas da virtude apesinhadas

Por sanctos crimes de sagrados monstros

C’um Benedicto consolaste em Roma,

Eis vem dignos de ti, teus sabios filhos,

Numerosa familia, antiga e nobre,

Que o mel das graças delibando férvida

Em quantas flores produzíra Apollo,

Nobre desenho modelou no antigo,

Á natura usurpou vivaz belleza,

E o mago, o puro dos gentis contornos,

A verdade, a expressão, o rico d’ordem,

E o colorido inimitavel, bello,

Que emparelha com a arte a natureza.

Assim brilhou divino o gran Corregio,

Assim Francia gentil, assim Mantegna,

E Bolognese vigoroso, e forte;

E tu, que o terno amor, e seus encantos,

Simplices graças da natura virgem,

Da innocencia infantil o mimo, os jogos,

As singelas beldades exprimiste

No mavioso pincel, mavioso Albano.

Nem deslembre de Guido a fertil mente,

Talento universal, vago, mas bello...

C’a expressão de Zampieri ordem, nobreza,

Ve d’Agnese gentil a ardua constancia

Como os p’rigos desdenha, e ve risonha

Ja do ferro do algoz pender-lhe a morte.

Ferino aspeito dos ministros barbaros,

Da augusta religião viril triumpho

Aos engolfados olhos se apresenta,

E, arrebatando o esp’rito a deus, ao vate,

Um prodigio a prodigios amontoa.

Ve Guerccino tambem, que ora nervoso,

Ora sombrio, e fero, e terno outr’ora,

Mas sempre encantador, em cada rasgo

C’um portento de mais a arte enriquece.

Qual vira a Palestina o pae dos crentes[5]

De fe, de submissão dar nobre exemplo;

Tal vive no pincel, tal inda avulta

Co’as veneraveis cans, e honrado aspeito.

Misero velho! desgraçado infante!

Que! tu mesmo, infeliz! co’a mão paterna

Hasde cortar-lhe o fio á tenra vida,

Unica esp’rança de cançados annos,

De mui doces promessas? Como... ai triste!

Oh! como voltará sem elle á tenda?

Com que olhos fitará maternos olhos?

Com que voz lhe dirá?... Mas parte: e a dextra

Ja, ja quasi... Suspende: um deus o ordena;

Um deus é pae tambem: suspende o crime:

São leis da natureza as leis divinas;

Em premio da tua fe recebe o filho.

Ah! se ao nome Lombardo é pouco tanto;

Eis triplice ornamento á patria, ao mundo,

Doutos Caraccis, que o divino ingenho,

Ou co’a dextra gentil ornando a Italia,

Ou dando á juventude almos preceitos

Da arte formosa, perpetuando-a aos évos,

Nova, estremada lhe augmentáram glória.

O retrato de Venus e estudos de historia litterária · 第 27 / 133 题