ADVERTENCIA

_Fui sempre muito pouco amigo de dar satisfações. Porém ésta minha

repugnancia não é filha de presumpção, nem de orgulho. De todo o

meu coração o digo, e todos os que me conhecem, o sabem. Nascem da

persuasão, em que estou, de que a justificação d’uma cousa está na

maneira por que essa cousa se faz. E applicando ésta generalidade ás

composições litterarias, cada vez me convenço mais que os prologos,

prefacios, avisos a leitores, etc. nada fazem, nem fizeram, nem farão

nunca ao conceito que da obra se fórma.

E principio foi este, por que na faxada do meu poema não puz tal

ceremonia. Revendo-o porem agora, examinando este_ ENSAIO, _e

conhecendo-lhe infindos defeitos, que me tinham escapado; sendo-me

impossivel emenda-los; resolvo-me a dar =satisfação=; não para

pretender justifica-los, e salvar-me da crítica com subtilezas, e

argucias; mas para fazer confissão pública d’elles.

Se me é licito porem dizer duas palavras em meu abono, direi que tanto

o poema, como as notas, e ensaio são da minha infancia poetica; são

compostos na idade de dezasette annos. Isto não é impostura: sobejas

pessoas ha hi, que m’o viram começar, e acabar então. É certo que desde

esse tempo ategora, em que conto quasi vinte e dous, por tres vezes o

tenho corrigido; e até submettido á censura de pessoas doutas, e de

conhecida philologia, como foi o Excellentissimo Senhor =S. Luiz=, que

me honrou a mim, e a este opusculo com suas correcções. Mas todos estes

cuidados não puderam (emquanto a mim) tirar-lhe o vicio do nascimento.

Eis aqui a minha confissão geral. Os que me absolverem ficar-lhes-hei

muito obrigado; os que não quizerem, paciencia; não me mato por

isso. Comecei esta obrinha por desenfado: acabei-a por divertimento:

publico-a por amor das artes: se me criticarem, rio-me, e não fico mal

com ninguem._

O retrato de Venus e estudos de historia litterária · 第 22 / 133 题