_Rua d'Almada n.º 388._
1854.
BIOGRAPHIA
DO
PADRE JOSÉ AGOSTINHO DE MACEDO.
por
_Joaquim Lopes Carreira de Mello._
Hum acaso nos fez lançar mão da penna para traçar estes pequenos esboços
biographicos do Padre José Agostinho de Macedo.
José Agostinho de Macedo foi natural de Beja, onde nasceo no dia 11 de
Septembro de 1761, e recebeo a graça do baptismo na Parochial Igreja do
Salvador, no dia 1 de Outubro do mesmo anno, sendo o primogenito de
Francisco José Tegueira primeiro marido de Angelica dos Serafins Freire,
este filho de Pedro Nogueira Sobrinho, e Roza Maria, naturaes da cidade
de Beja, e aquella filha de Manoel Baptista Freire, e Anna Roza,
naturaes da cidade de Lisboa. Seu pai, que era ourives, desejava
aproveitar este filho, dando-lhe uma educação tal, que elle não
precizasse seguir a vida de seu pai, segundo a inveterada uzança, ou
mania em Portugal, e como descobrisse em seu filho uma extraordinaria
viveza, e signaes de engenho talentoso, procurou dar-lhe os primeiros
rudimentos da lingua materna, para o que o tomou debaixo de seu
patrocinio um amigo seu por appelido Mendes, tambem ourives, e isto
quando José Agostinho já contava onze annos de idade. Os progressos de
José Agostinho causaram assombro nos mestres, e nos condiscipulos
inveja, não deixando algumas vezes de excitar a indignação dos
primeiros, e o odio dos segundos com suas respostas, e ditos improprios
d'aquelles tenros annos, principalmente um dia, em que fazendo-se a
leitura do nosso immortal Camões, elle, cheio de ousadia, disse--_Camões
não presta_--Seu mestre o reprehendeu, e como elle insistisse, o
castigou, por tamanha blasphemia litteraria.
Como em outro tempo a clausura monastica era um seguro asylo, onde a
mocidade podia servir a Deos, a si, e aos outros, e facilmente subir ás
mais altas dignidades, fosse qual fosse o berço em que o homem nascesse;
ou, quando menos, um meio de fugir aos perigos, e incommodos da vida,
julgou seu pai, que tal vida convinha a seu filho, cujos talentos cada
dia se manifestavam por um modo extraordinario, e por isso, havendo
frequentado em Beja os estudos necessarios, para entrar em religião,
tomou o habito de Santo Agostinho, dos Eremitas calçados no convento de
Nossa Senhora da Graça, na cidade de Lisboa, na qual religião professou;
e foi sacerdote com o nome de Fr. José de Santo Agostinho. Alli fez
admirar os seus talentos, e algumas vezes tirou os padres de certos
embaraços, como foi na occasião da morte do conde de Villa Verde, que
sendo descendente do grande Affonso de Albuquerque, determinou ser
enterrado na mesma sepultura do seu immortal ascendente, que na Igreja
do mesmo convento jazia, mas que pela nova forma que se dera ao dito
Templo arruinado pelo terremoto do 1 de Novembro de 1755, se havia
perdido; declarando José Agostinho, onde elle se achava.
Prégava na sua religião com muito applauso dos religiosos, e admiração
de todos, mas, se se fazia admirar pelos seus talentos naturaes mais, do
que pelo seu estudo assiduo, tambem se fazia aborrecer pelo seu
desmedido orgulho, e pelas suas leviandades e travessuras, praticadas,
tanto no convento da Graça em Lisboa, como no collegio de Coimbra,
travessuras, a que o seu caracter dava facil accesso; e como em toda a
parte se encontra quem alimente o mal, Fr. José achou na sua ordem um
companheiro, que se não tinha o seu talento, tinha com tudo mais ideia
para formar os tumultos com que constantemente affligiam a communidade;
tão indigno confrade, foi Fr. Francisco, natural da Vacariça; porem,
como taes excessos não se poderiam tolerar n'huma casa particular quanto
mais n'huma corporação, o prelado, que tinha stricta obrigação de os
reprimir foi por isso obrigado por vezes a applicar a estes
perturbadores da communidade as penas consignadas no Estatuto da ordem;
mas taes castigos applicados a um caracter orgulhoso pelo talento como o
de Fr. José, levaram este mancebo ao extremo de não poder supportar o
suave jugo d'aquelle sagrado Instituto; infeliz, porque nem mesmo
aquellas cadeias, ainda que de ouro, tecidas pela caridade christã,
poderam prender o seu genio inquieto, que o levaram ao excesso de deixar
a sua Santa Communidade apostatando.
A apostasia não podia livrar Fr. José d'uma justa perseguição dos seus
confrades, a quem faltava um irmão que era preciso conduzir ao seio da
familia pelos laços da religião, e que poderia ainda corrigir-se, e
assim aproveitarem-se os talentos superiores d'um mancebo, que poderia
ser um dia o ornamento da ordem, e o da patria; mas talvez melhores
conselhos, ou pelo menos mais prudentes, prevaleceram nos conselhos da
communidade, e deixando de perseguir Fr. José de Santo Agostinho lhe
passaram sentença de expulsão perpetua da Sagrada Ordem dos Eremitas de
Santo Agostinho. Em quanto a Fr. Francisco não sabemos se foi tambem
expulso, é porem certo que appareceo secularisado e que até o fim da sua
vida (ainda temos bem presente a occasião do seu enterro na Igreja de
São Vicente da Vacariça), foi um homem d'uma vida muito desregrada.
Lançado no seculo Fr. José de Santo Agostinho, elle se appelidou Padre
José Agostinho de Macedo. Macedo já não soffria a justa perseguição que
se fazia ao apostata, mas soffria a perseguição da indigencia, com que
lutava, indigencia que emanava do desprezo publico. Tão severa lição,
dada pela Providencia a um individuo que conhecia o seu talento, mas que
acabava de ser assim levado á humilhação, fel-o pensar, e mudar de vida;
para assim poder entrar na sociabilidade dos homens. Macedo,
effectivamente mudou de systema, e começou a ser mais considerado.
Durante a sua grande miseria tiveram d'elle muito dó as religiosas
Trinas do Rato, que quasi exclusivamente foram, quem lhe mataram a fome,
e eis-aqui explicada a causa porque Macedo tinha tanta affeição por
aquella casa; era em dever de gratidão, e a que só uma alma totalmente
pervertida poderia faltar.
Mais comedido, Macedo começou a ser admittido á communhão dos homens de
letras, e como era dotado de muita finura, e via que para não voltar á
indigencia, não tinha remedio se não aproveitar o seu engenho, devorou
quantos Santoraes, e Sermonarios encontrou, leo os Escriptores
Ecclesiasticos, os concilios, Historia Ecclesiastica, Santos Padres,
Escriptura etc., e em fim tudo o que pode constituir um bom prégador.
Mas sobre tudo o meio mais efficaz que empregou para adquirir os
conhecimentos solidos com que enriqueceu sua alma, foi o da amisade, e
relações com os muitos e distinctos oradores, com os poetas, sabios, e
litteratos do seu tempo, que eram muitos em numero, e muito grandes em
merecimentos porque bem sabia que vale mais uma conferencia com taes
homens; do que muitos annos de estudo; e como tinha grande memoria nada
lhe escapava do que elles diziam, e consultava os auctores que elles
citavam, correndo todas as bibliothecas de Lisboa; ouvia os grandes
oradores com muita attenção, e com mais desejo de os exceder do que de
os imitar, louvavel emulação, quando não degenera em soberba.
D'esta sorte ajudado o seu engenho pela arte, e despido de todo o
acanhamento em publico começou a subir ao pulpito com tanta promptidão,
e fallar com tanto applauso do auditorio, que em breve se tornou celebre
pelos seus discursos Sagrados, que causavão mais admiração por serem
improvisados, do que muitos pelo desempenho. Houve dia na Quaresma, em
que prégava seis, sete, e oito, differentes inteiramente, ás vezes sobre
o mesmo assumpto. Quando o elogiavam em alguma Igreja, costumava dizer
ás vezes--_são fornadas_--; como taes se podem chamar os sermões que lhe
sahiram em 1820, e depois em 1823 e seguintes.
Hum orador de tão subido merito não podia ficar no esquecimento dos
homens protectores dos genios transcendentes, e Monsenhor Rebello lhe
alcançou do Principe Regente a nomeação de pregador regio, por carta de
8 de Novembro de 1802, tendo no espaço de vinte e nove annos, muitas
vezes tido a honra de prégar diante de Suas Magestades, e Altezas. Foi
tambem nomeado censor regio do Patriarchado, logar tambem de grande
consideração e respeito. A ultima graça regia que teve foi a de
substituto do Chronista mor do Reino por decreto de 21 de Junho de 1830,
como se vê do seguinte documento.
Eu El-Rei. Faço saber aos que este Alvará de assentamento virem que por
parte do Padre José Agostinho de Macedo Me foi apresentado um Alvará
passado pela Meza do Dezembargo do Paço em 14 de Junho do corrente anno,
pelo qual Fui servido Nomeal-o Substituto Chronista do Reino com o
ordenado de 300$000, o qual Alvará lhe foi dado pela dita Meza em vista
do Decreto de 21 de Junho do anno proximo passado. E pedindo-Me o
sobredito agraciado lhe mandasse passar o presente a fim de poder haver
aquelle vencimento pela estação competente: Em consideração, pois, e
Attendendo ao que Me foi presente em informação do Escrivão da minha
Fazenda, sobre o que respondeo o Conselheiro Procurador da mesma; Hei
por bem que o sobre-mencionado Padre José Agostinho de Macedo tenha e
haja, com o logar de Substituto Chronista do Reino, de seu assentamento
em cada um anno 300$000, assentados e pagos pela Folha dos ordenados da
Alfandega Grande d'esta cidade, com o vencimento do dia da mercê em
diante. Pelo que mando aos Ministros Conselheiros do Conselho da Fazenda
lhe façam assentar nos competentes Livros a referida addição, para
annualmente hir na respectiva Folha, e ser-lhe pago como dito fica. Por
quanto pagou de Novos Direitos 30 reis que foram carregados ao
Thesoureiro d'elles a fl. 61 do livro 4.º da sua Receita, como constou
d'um Conhecimento em forma registado a fl. 136 V.º do Livro 104 do
Registo geral dos mesmos direitos, que se rompeo ao assignar d'este que
valerá posto que seu effeito haja de durar mais d'um anno, sem embargo
da ordenação em contrario e se cumprirá, indo por Mim assignada, tendo
passado pela Minha Chancellaria, e sendo registada nos livros d'ella,
Mercês e Fazenda. Lisboa 18 de Agosto de 1831.--REI--Doutor Diogo Vieira
de Tovar e Albuquerque--João Manoel Guerreiro d'Amorim. Manoel Xavier da
Gama Lobo o fiz escrever.--Domingos Antonio Barboza Torres a fez. De
feitio e registo 800 reis. Passou-se por Despacho do Tribunal do
Conselho da Fazenda de 11 de Agosto de 1831. Antonio Gonçalves Ribeiro.
Gratis. Pagou 30 reis e aos officiaes nada por quitarem. Lisboa 10 de
Setembro de 1831. Como Vedor José Bravo Pereira.
Se o Padre Macedo bastante figurou no mundo, melhor figura poderia ter
feito se nunca tivera sahido da sua ordem, onde tinha todos os elementos
para a elevação, que no seculo, apesar de todos os seus exforços sempre
se lhe mostrou avessa. Os monarchas tiveram-no em toda a consideração, e
premiaram o seu talento até onde a moral permittia se fosse, mas nunca o
propozeram para o episcopado, que eram todos os desejos de José
Agostinho.
Como o caracter moral do escriptor é pelo mesmo escriptor desenhado, e
gravado em suas obras, por ellas conhecerá o leitor o Padre José
Agostinho de Macedo: todavia faremos menção da _Meditação_ da qual me
disse o nosso eruditissimo desembargador João da Cunha Neves e Carvalho
Portugal, que, quando estivera em França, ouvira dizer ao cura de S.
Thomaz d'Aquino (que aprendeo o portuguez para ler as obras do bispo D.
Jeronimo Osorio), que o _Poema Philosophico_ a _Meditação_ era obra
acabada, e que isto mesmo ouvira a muitos outros Litteratos francezes.
Esta obra não foi uma produção de momento, como aquellas tão
frequentemente sahidas dos bicos da penna de José Agostinho, e assim o
parece por que o masso original do dito poema, que existe na Torre do
Tombo, tem no fim a seguinte nota pela mesma letra do dito masso, e que
é a do auctor. "Foi começado este poema em 2 de Dezembro de 1793, e
concluido n'este estado de possivel perfeição em que aparece a 5 de
Janeiro de 1810"--Dedicado á Universidade de Coimbra com a data de 13 de
Janeiro de 1810. O elogio necrologico de Ricardo Raimundo Nogueira, é um
modelo de estilo, e sizudeza. Ricardo Raimundo havia sido o censor das
obras de José Agostinho.
Assim deixamos esboçada a vida do padre Macedo, e cuja morte lhe
sobreveio em Pedroiços, depois de longa enfermidade de bexiga, ás 11
horas da manha do dia 2 de Outubro de 1831, tendo sido assistido do
padre Manoel Barreiros, prior de S. Domingos de Bemfica. Jaz na capella
de S. Nicoláo de Tolentino, da Igreja do convento de Nossa Senhora dos
Remedios das religiosas Trinitarias, no sitio do Rato, em Lisboa.
O Senhor D. Miguel, que então occupava o Throno Portuguez, lhe mandou
fazer o enterro, para o que ordenou, que fosse em coche da Casa Real. Ao
mesmo Augusto Senhor se entregou a chave do caixão do padre Macedo, e
por Sua ordem se tirou a cêra o seu retrato, para se lhe levantar um
busto.
O retrato de José Agostinho de perfil inteiro, é tão exacto, segundo o
testemunho das pessoas que o conheceram, que ninguem deixará de o
reconhecer á primeira vista; o de meio perfil não lhe é inferior; são
obras de mão de mestre.
O Catalogo das obras de José Agostinho nunca é possivel publicar-se
completo, porque muitas obras escreveu, que não viram, nem podiam
imprimir-se por sua materia e forma: muitas parecia incrivel tivessem
licença para se imprimirem. De uma sabemos nós, a que se negou licença,
intitulada--_Os traques da Besta_. Todavia, nós terminaremos esta
biographia com o Catalogo publicado pelo Dr. Rego Abranches, a que
faremos um supplemento porque d'algumas sabemos nós que não se acham no
dito Catalogo.
Temos pois feito uma biographia d'um homem que morreo quando nós já
contavamos quinze annos, mas que apenas conhecemos por tradicção, e
pelas suas obras. Bem sabemos que diversamente tem sido avaliado o
merecimento litterario d'este portuguez illustre pelo talento, e mesmo
pelo nascimento, porque Macedo era parente pela parte materna do nosso
distincto escriptor Jacinto Freire.
Muito de proposito fugimos de fallar das eternas questões litterarias (e
não litterarias) travadas em vida do padre Macedo entre elle e os
litteratos do seu tempo, porque não queremos ser taxados de ousados
apresentando-nos a fazer juizo entre José Agostinho, Pato Moniz, Bocage,
Silva, Loureiro, Couto etc. etc.; todavia não podemos deixar de censurar
ao referido Antonio Maria do Couto professor de grego, que não tendo
melhor vida, nem tendo os seus talentos, se apresentasse dez annos
depois da morte de Macedo, a abocanhar o seo merecimento litterario e
moral, na biographia, que serve de introducção a segunda edicção do
Motim Litterario. Censurar José Agostinho em costumes, não podia ser por
um homem que não lhe foi inferior nas leviandades da mocidade, e que
talvez o excedeo na velhice. Em nosso humilde modo de pensar andou ainda
n'este negocio o odio politico, porque Couto e Macedo tambem n'esta
parte divergião.
Tal fraqueza de espirito não só se devisou em Couto e outros, mas ainda
em alguns individuos que professaram o mesmo principio dynastico que
Macedo tambem professara, mas que estiveram muito distantes em quanto a
principios governamentaes. Entre estes citaremos Fr. Matheus da
Assumpção Brandão, que ainda perseguio Macedo depois de morto.
Mas se por um lado homens de pequeno espirito, tem querido deprimir o
homem que pertence á historia, mas não para ser insultado, tambem tem
apparecido quem faça justiça ao homem morto; entre estes citaremos o Dr.
Antonio Manoel do Rego Abranches, homem, que em politica foi opposto a
Macedo, mas que na pequena biographia que serve de introducção ao
Catalogo das obras do padre diz:
"Hum sentimento de patriotismo em fazer conhecer as muitas obras
impressas de José Agostinho de Macedo nos incitou a imprimir o presente
Catalogo por não haver impressa alguma noticia exacta das suas
producções litterarias, nem ao menos Catalogo das que correm impressas,
de que o titulo mesmo de muitas d'ellas he ignorado existindo apenas
essa diminuta resenha publicada na nova edicção do Motim Litterario pelo
auctor da Biographia historica e Litteraria, que não quiz dar-se a
trabalho pensando talvez não tornar elle o Traductor da
Batrachomyomachia alguma cousa mais em Philologia nem mais lhe
auctorisou o vislumbre de renome, e d'aura popular.[1] Com o nome de Fr.
José de Santo Agostinho foi sacerdote professo da Ordem dos Eremitas de
Santo Agostinho calçados, da qual secularisando-se voltou ao seculo. Foi
Prégador Regio, Censor do Ordinario, Academico da Arcadia de Roma com o
nome entre os seus Alumnos de Elmiro Tagideo, homem de talento, grande
memoria, e vasta erudição, em fim um sabio, de que seus escriptos são o
elogio."
[1] Veja-se o preliminar da traducção de Batrachomyomachia, feita
por Antonio Maria do Couto, em 1835.