E, para liquidar agravos duma vez,

Disponho-me esta noite a cear com vocês!

O REI, _despedindo o cronista_:

Cronista, vai dormir... boa noite... Deus queira

Que o sono te refresque um pouco a maluqueira...

O CRONISTA _sai, pensando_:

Na batalha da vida evidente se torna

Que ou havemos de ser martelo ou ser bigorna.

Conclusão natural do dilema singelo:

Evitar a bigorna triste... e ser martelo.

Monstruoso, feroz, horrível, mas em suma

Ponderemos que a vida é curta,--e que há só uma!

SCENA IX

O REI, _sentando-se cómodamente ao fogão_:

Ora do doido estou eu livre! Agasalhei-o,

Matei-lhe a fome, e agora quente, o ventre cheio,

Cama bem farta, vai dormir e repousar,

E não volta por certo esta noite a cantar...

Repotreando-se alegremente.

Uff! sinto-me bem! volto a mim...

Trincando um charuto e voltando-se para Ciganus:

Dá-me lume.

Ia perdendo o vício... É da regra... é o costume...

Em não fumando, mau negócio! ando esquisito...

Pois àmanhã caçada e toirada, 'stá dito!

Hei-de abater, e sem fazer lá grandes fôrças,

Dôze toiros, trezentas lebres e cem corças.

OPIPARUS, _àparte_:

Já mente... Vai melhor!

Tiros ao longe. Clamor distante. Os cães ululam.

O REI, _sobressaltado_:

Ouvi... ouvi!... ouvi!...

Tiros... detonações... é próximo daqui...

Fusilaria!... Ouvi... Que demónio se passa?!...

CIGANUS:

São os guardas d'El-Rei, que andam de noite à caça...

O REI:

De noite à caça!

CIGANUS:

Montaria aos lôbos, meu Senhor...

O REI:

Dei cabo dum aqui há tempos... Que vigor,

E que tamanho! Era de noite... foi na estrada...

Caíu logo no chão à primeira mòcada!

Tenho morto dúzias de lôbos e de lôbas,

Nenhum assim: pesava umas quarenta arrobas.

OPIPARUS, _àparte_:

Sim senhor, eis El-Rei já no estado normal!

Ouvem-se marteladas cavas e repetidas nos subterrâneos profundos do

palácio.

O REI:

Que barulho lá baixo!... Um estrondo infernal

De marteladas!... Santo Deus! nem trinta diabos juntos,

Pregando a toda a pressa esquifes de defuntos!

OPIPARUS, _rindo_:

Gente carpinteirando em tábuas e barrotes,

Não para esquifes, meu Senhor; para caixotes!

Mandei encaixotar (a providência é boa)

Os milhões do tesoiro e as baixelas da c'roa.

E em quanto à c'roa, Senhor meu,

Ninguêm lha roubará, ninguêm!, defendo-a eu.

O trono... o que é um trono? uma simples cadeira

De veludo já gasto e de vélha madeira.

É, pois, minha profunda e sábia opinião

Deixá-lo ir sem resistência... A c'roa, não!

A c'roa é d'oiro fino, esmeraldas, diamante,

Turquezas e rubins... (uns dois milhões cantantes!)

E portanto, Senhor, havemos de levá-la,

Há-de ir connosco, ao pé de nós, dentro da mala!

CIGANUS, _pensando e rindo_:

C'roa de procissão... rica para um andor:

Pedras falsas; troquei-lhas eu; vidros de côr.

OPIPARUS, _continuando_:

E comido o banquete e devorada a presa,

Bem nos importa a nós erguermo-nos da mesa!

Partiremos a rir, terminado o _dessert_,

Levando cada qual na algibeira o talher...

Com três milhões de renda, um pecúlio feliz,

Grande vida a dum rei destronado em Paris!...

O REI:

É cínico, mas tem pilhéria êste demónio!...

OPIPARUS:

Bom estômago e ventre livre: um património!

A vida é bôa ou má, faz rir ou faz chorar,

Conforme a digestão e conforme o jantar.

Pode crê-lo, Senhor, toda a filosofia,

Ou tristonha ou risonha ou alegre ou sombria,

Deriva em nós, tão orgulhosas criaturas,

De gastro-intestinais combinações obscuras.

O REI:

E a moral?

OPIPARUS:

Rica farça a moral! Não me ilude.

Examinem qualquer vendedor de virtude,

Casto como um carvão, magro como um asceta:

A abstinência é impotência, o jejum é dieta.

O diabo, meu Senhor, já vélho e desdentado,

Sifilítico, a abanar como um gato pingado,

O trazeiro sarnoso, em gangrena a medula,

Exaurido a chupões de luxúria e de gula,

Sentindo-se perdido e rabiando, afinal

Quis vingar-se do mundo... e inventou a moral!

O REI, _pensando_:

E, se eu ós pontapés desancasse esta corja,

Ia às malvas... adeus! tinha banzé na forja!...

Fundeou na praia uma galera de corsários. Desembarcam.

O DOIDO, _na escuridão_:

A lua morta bóia nas nuvens toda amarela...

Corvos marinhos, corvos daninhos poisam sôbre ela...

Tiram-lhe os olhos, comem-lhe a bôca, já com grangrena...

Astros errantes, agonizantes, choram de pena...

Choram de pena, tremem de mágoa, morrem de dôr...

Na noite escura canta a Loucura, grita o Pavor...

Lôbas tinhosas d'olhos d'enxofre saltam valados...

Pobres dos gados!... pobres dos gados pelos montados!...

O REI:

Olha o doido!... Lá torna o doido... Eu logo vi...

Canta p'raí até 'stoirar... canta p'raí!...

Bom telhudo! em pelote e com êste nordeste,

A ladrar cantochões à lua!... Que lhe preste!

CIGANUS:

Deixe lá! faz-lhe bem... faz-lhe bem... P'rá mania

Não há nada melhor do que o vento e água fria.

Rebenta, fora, um grande tumulto. O rei e os validos assomam-se ao

balcão. Vem debandando, clamorosa, a revolta vencida. Soldados,

prisioneiros, feridos, moribundos em macas. Ais de estertor, pragas,

vivas avinhados, gritos de mulheres, choros de crianças. Os cães,

truculentos, ululam na varanda.

O REI:

Que é isto?!... que estardalhaço!... que chinfrineira!...

Gritarias... um rodilhão... Temos asneira...

Temos coisa... não há que ver, temo-la armada...

CIGANUS, _rindo_:

É a guarda d'El-Rei, de volta da caçada.

Os monteiros são bons... a matilha é valente...

OS SOLDADOS, _em clamor_:

Viva El-Rei! viva El-Rei!

O REI:

Compreendo. Excelente!

Ora que espiga! por um triz, hãn! por um triz,

Não vou às malvas! Ando em sorte!... fui feliz!...

Iam-me empandeirando! um cheque e mate ao rei!

Ora a cáfila! ora a cambada!... Se eu o sei,

Com mil bombas! que os desfazia!... Eu lhes diria!

Oh, que porradaria! oh, que porradaria!

Rebentava-os! dava-lhes conta do bandulho

E dos cornos, mas à paulada! era a 'stadulho!

Quando o trono cair, sem lenha é que não cai...

Mostarda rija! O banazola de meu pai

Tinha-os em mau costume... Isto agora é p'rigoso...

Aqui há unhas p'ros coser... olá, se os coso!

Entra um cavaleiro, portador duma mensagem.

CIGANUS, _depois de a ler_:

Montaria real! Foi covil por covil:

Feras mortas oitenta e prisioneiras mil.

O REI:

Dois gajões duma cana! Obra de lei!... Entrego

Nas vossas mãos o meu destino, como um cego.

Marquês, faço-te duque; e ao ducado acrescento

Quinze milhões... Encaixa a história no orçamento...

Opiparus, a ti, reinadio e marau,

Pago-te os cães: trezentos contos...

OPIPARUS:

Não é mau;

Recebendo eu o bôlo e fazendo a partilha;

O meu grande credor sou eu. Quanto à matilha,

Que se esfalfe a ganir... Não me incomoda nada...

O REI, _voltando-se para os cães_:

Iago, aboca! Olha o petisco: uma embaixada!

Faço-te embaixador! hãn, que empanzinadelas!...

Que vidinha!... Um sultão num harem de cadelas!...

A êste Judas circunspecto que hei-de eu dar?

O Conselho d'Estado; é próprio e é bom logar.

Conselheiro, portanto. E o Veneno? O Veneno,

Conde e ministro. Um felizardo o meu pequeno!

Um catita!

Acendendo um charuto e indo à varanda:

Perfeitamente! Ora Deus queira

Que abichemos um dia bom p'ra pagodeira!

Um dia alegre! O tempo muda... ronda ao norte...

Magnífico! hão-de ver dôze toiros de morte,

Desembolados! Inauguro emfim a minha praça:

Vai o Botas, o Pintassilgo e o Calabaça.

O DOIDO, _na escuridão_:

Ao luzir d'alva semeei de flores

Uma encosta deserta ao pé do mar

Cravos, lírios, jasmins, goivos, amores,

Açucenas e rosas de toucar.

Ao redor vinha verde e trepadeiras,

Medronheiros, figueiras, romanzeiras...

Lindo jardim! Lindo pomar!

Como no monte não havia fonte,

Desatei a chorar para o regar...

Depois, oh meus feitiços!

Enchi de abelhas d'ouro cem cortiços

E dez pombais com pombas de luar...

Olha o lindo jardim!... olha o lindo pomar!...

E enxada ao ombro, já raiava a aurora,

Abalei a cantar!...

Foi há mil anos... Venho mesmo agora

De ver a linda encosta à beira mar...

Lindo jardim! lindo pomar!

As açucenas deram-me gangrenas

E os jasmins podridões a fermentar!...

Os cravos deram cravos... mas de cruzes!

E as roseiras espinhos de toucar...

Sôbre as ervas no chão crepitam luzes,

Fogos fátuos de larvas a bailar...

Só dos goivos, Senhor, brotaram goivos,

Destilando loucura e rosalgar...

Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!

Os figos das figueiras são caveiras

E os medronhos são balas de matar...

Oh, que lindas romãs nas romanzeiras!

Corações fusilados a sangrar!...

Inda bem, que em vez d'uvas nas videiras

Há rosários de dor para eu rezar...

Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!

De dentro dos cortiços, que feitiços!

Voam corvos e c'rujas pelo ar...

E dos pombais, aos centos,

Nuvens de abutres agoirentos,

Que sôbre as romanzeiras vão poisar!...

Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!

.........................................

.........................................

É de encantar a natureza!... ai que beleza!

Quantas florinhas para a minha mesa!...

Deus, quanta fruta para o meu jantar!...

Lindo jardim... lindo pomar!...

SCENA X

*Os mesmos e Magnus*, que entra majestoso e solene.

O REI:

Chega ao calhar... Então, meu duque, a trabuzana

Foi bôa... Por um triz, iam-nos à pavana!

MAGNUS, _grandioso_:

Valeu-lhe, meu Senhor, (dôa isto a quem dôa!)

Haver três homens, como nós, junto da C'roa,

Para a salvar dum grande abismo!... A situação...

O REI:

Ganhou hoje, meu duque, o Elefante e o Pavão.

MAGNUS:

Nem sei como exprimir a Vossa Majestade

A alegria que sinto!... É de mais! que bondade!

A grã-cruz do Pavão!... Nunca o julguei... Em suma,

Feliz!... morro feliz... Já não há mais nenhuma!

O REI, _a Ciganus_:

E agora?

CIGANUS:

Meu Senhor, é dormir sem cuidados!

Os mortos cemitério e os vivos...

OPIPARUS:

Enforcados.

CIGANUS:

Talvez que sim, talvez que não...

É conforme: o rigor, a clemência, o perdão,

Tudo às vezes convêm, tudo tem seu logar...

Enforco-os, claro está, se os puder enforcar.

Não podendo, enxovia; e, se a nação revôlta

Clama contra a prisão... deixá-los hei à solta.

Enforcados, melhor. Eu, gente que deteste,

Quero em vez de canhões a guardá-la um cipreste.

Mas, se matando arrisco a própria vida, não:

Converto-me, de algoz furioso em bom cristão...

Reinar, eis o importante; o modo é secundário.

É conforme se pode; é dia a dia; vário.

Fica melhor um rei num corcel de batalha,

O chicote na mão, contemplando a canalha.

Inspira assim terror, incute mêdo e fé.

Não há, porêm, cavalo? É governar a pé.

E, se ainda precisa atitudes mais chatas,

É governar de toda a forma,--até de gatas!

O caso é governar, seja lá como fôr:

Com manhas de toupeira ou vôos de condor,

Por caminho sinuoso ou caminho direito...

Eu, para governar, a tudo me sujeito,

Indo de cara alegre até ao sacrifício

De ser exemplarmente honesto... por ofício!

Continua a tormenta. Prosseguem os vivas. Os cães ladrando sempre.

MAGNUS, _sentencioso_:

Nas vistas do marquês há pontos em que abundo,

Pontos em que discordo. O mal é mais profundo!

Talhemos com firmeza o mal pela raíz!

Nas circunstâncias desastrosas do país,

Quando um vento de insánia brava nos arrasta,

Quando abusos de toda a ordem, toda a casta,

Andam impunes; quando a moral e o direito

Já não levam sequer à noção de respeito,

Á noção do dever, urge com brevidade

Dar fôrça à C'roa e dar prestígio à autoridade!

Eu com rude franqueza o digo: o caso é sério!

Nós vivemos (se isto é viver!) num baixo império!

Olhem bem ao redor: uma orgia! um entrudo!

Abocanha-se tudo, emporcalha-se tudo,

Nem o sacrário da família se venera,

Não há reputação, ainda a mais austera,

Que a não manchem... um lodaçal, um tremedal de escombros,

E nós a vermos isto e a encolhermos os ombros!

É de mais! é de mais! Vamos todos a pique!

É necessário um termo! é necessário um dique!

Sursum corda! Que El-Rei leve a bandeira em punho!

E inda há gente... inda há gente! inda há homens de cunho!

Inda há muita aptidão, muita capacidade

E muita honra!... O que é mister é uma vontade!

Obre El-Rei com firmeza! obre El-Rei sem demora!

Qual o cancro que dia a dia nos devora?

Toda a gente que vê, toda a gente que pensa

Põe o dedo na chaga e conclue: a descrença!

Se o mal vem da descrença, ataque-se a questão!

Religião, Senhor e mais religião!

Deus e mais Deus! tendo nós Deus e a fôrça armada,

Não há receio algum; dormirá descansada

A monarquia. Deus, embora neste meio,

Queiram ou não, é sempre Deus!... é ainda um freio!

OPIPARUS, _galhofeiro_:

E o profeta, que nos censura e nos fulmina,

Tem palácio, grande estadão, mesa divina,

É _joisseur_ como dez banqueiros elegantes,

E, facto escandaloso! a respeito de amantes

Cultiva sobretudo (às vezes com seus p'rigos...)

Esta especialidade: a mulher dos amigos!

MAGNUS, _furioso_:

Safa! que língua! que veneno!...

O REI:

E o duque atomatado!

Como se não pudesse um ministro d'estado

Regalar-se com vinhos bons ou fêmea alheia!

Deixe-os morder de raiva. É tudo inveja, creia.

Gosto dum vélho assim, danado e atiradiço...

Um vélho folgazão... Simpatiso com isso.

É cá dos meus... é cá dos meus...

MAGNUS, _risonho e vaidoso_:

Na juventude,

Rapaz... como rapaz... vamos! fiz o que pude!...

A crónica inda o lembra... Hoje o caso é diverso...

Aos sessenta já custa a endireitar um verso!

O REI:

Maganão!

MAGNUS:

Hoje não!... Só em pequenas dozes...

Falta o melhor... São mais as vozes do que as nozes...

O REI, _gracejando_:

Mas o que a mim me espanta, e não entra na bola,

É sair-nos o duque um perfeito carola!

Se a raínha estivesse, inda d'acôrdo, admito...

Mas entre homens prègar sermões acho esquisito,

Meu caro duque... Estou a vê-lo qualquer ano,

Entrapado em burel, frade varatojano!

MAGNUS, _solene_:

Distingo, meu Senhor, distingo: sou cristão,

Co'as rédeas do govêrno e do poder na mão.

Católico e de lei, sob o ponto de vista

Administrativo, e nada mais. Como estadista,

Eu considero a Igreja uma pedra angular

Da ordem! Quero o trono achegado ao altar!

A Igreja tem prestígio! a Igreja é um sustentáculo!

Convêm ao scetro ainda a amizade do báculo!

O homem público em mim, o defensor da C'roa,

É desta opinião. Sustento-a e julgo-a bôa.

Mas cá dentro, no fôro interno, a sós comigo,

Eu, o particular e o filósofo, digo-o

Alto e bom som, digo-o de cara e sem temor:

Não há ninguêm! ninguêm! mais livre pensador!

Eu admiro Voltaire!... Eu encontro-me em dia

Com a marcha do globo e da filosofia.

O REI, _galhofando_:

Se a Raínha lhe sente ideas desordeiras...

MAGNUS:

Leio Voltaire, mas quero os frades!...

OPIPARUS:

E eu as freiras...

CIGANUS:

Por mim desejo tropa, em logar de irmandades.

Mas, se a raínha quer os frades, venham frades.

Com certo geito e condições, inda afinal

Se atamanca de Deus um bom guarda rural...

Trovão retumbante. A caverna da noite incendeia-se de oiro, abrasada

a relâmpagos. Ais e lamentos. Gritos ferozes de soldados. Uivam os

cães. Sente-se ao longe um rumor imenso de multidões que debandam.

MAGNUS, _meditando_:

Que demónio!... cheira a chamusco... Volta a dança...

Olha que brincadeira!... Isto, se a coisa avança,

Vai tudo raso, vai tudo em cacos pelo ar!

Não me sinto aqui bem... Nada! ponho-me a andar!...

Uma história qualquer...

Ao rei:

Meu Senhor, a duquesa...

(Foi dêste abalo repentino, esta surpresa...)

Achou-se mal, deu-lhe um febrão... em tal estado,

Que não gosto... não gosto... inspira-me cuidado...

E se El-Rei o permite...

O REI:

Ignorava... Ora essa,

Meu caro duque! Ande ligeiro, vá depressa...

Boa noite... Dormir um pouco, e às cinco e meia

Na toirada. Curro catita! É de mão cheia!

O rumor longínquo, de maré humana, avança, trágico, na escuridão

profunda. Surge na praia uma nau gigante, embandeirada de negro.

Uivam os cães.

SCENA XI

O REI:

Ouvi!

OPIPARUS:

O mar.

CIGANUS:

Não é o mar; a ventania.

O REI:

Tambêm não... Escutai... escutai...

OPIPARUS:

Dir-se-ia

O confuso estridor, desordenado e vário

Dum exército louco, em tropel tumultuário...

O rei com os validos assoma-se ao balcão. Hordas inúmeras de

esfarrapados, multidões de mendigos, turbas espectrais, homens e

mulheres, vélhos e crianças, ululando, gritando, praguejando, baixam

a montanha em direcção à praia, numa torrente caudalosa, numa levada

contínua de sofrimento e de miséria. E o porão tenebroso do

navio-fantasma engulindo, aos cardumes, vertiginosamente, aquela

humanidade enlouquecida. E a enxurrada sinistra, avolumando,

alastrando, cada vez mais tumultuária e bramidora. Dir-se-ia um povo

de malditos, debandando a um cataclismo inexorável! Povo imenso, não

tem fim, mas o navio não tem fundo. Cabe tudo lá dentro. Os cães, na

varanda, rosnam, sombrios e provocantes.

O REI:

Que quer isto dizer?! que chinfrineira é esta?!...

Que balbúrdia!... que multidões sombrias!... temos festa!...

Oh, com mil raios! temos festa... Há banzé novo...

Que 'stardalhaço... Um mar de gente!... um mar de povo,

A correr, a crescer... Gritos, uivos, bramidos...

Era uma vez, marquês!... Pronto! estamos perdidos!...

CIGANUS, _fleumático, acendendo um charuto_:

Coisa vulgar, Senhor: emigrantes, miséria...

O REI:

Cuidei que era chinfrim de novo... Ora a pilhéria!

Cuidei que era chinfrim... E antes o fôsse! Ao cabo,

Zurzia-os duma vez a pontapés no rabo!

Punha-os de môlho! A garotada jacobina

Hei-de-lhe eu amolgar as trombas numa esquina!

Chegando-me ó nariz os vinagres, cautela!

Dá-me a fúria... e caramba! é d'alto lá com ela!

Em Évora uma vez, há coisa de dois anos,

Salta-me num caminho um bando de ciganos,

Era de noite, mais escuro do que um prego,

Atiro-me, arremeto às doidas como um cego,

E esbandulhei quarenta e quatro!... Um bom chinfrim!...

OPIPARUS:

A canhão Krup?

O REI, _sacando, da algibeira, um navalhão

de ponta e mola_:

A naifa!

Com um gesto esfaqueante:

Eu cá é isto: assim!

O DOIDO, _na escuridão_:

A fome e a Dor escaveiradas

Ululam roucas nas estradas,

Irmãs sinistras de mãos dadas...

Misericórdia! Misericórdia!

Na escuridão, entre lufadas,

Que pavorosas debandadas

De multidões desordenadas...

Misericórdia! Misericórdia!

Turbas gemendo esfarrapadas,

Por ventanias e nevadas,

Filhos ao colo, ao ombro enxadas,

Sem luz, sem pão e sem moradas!...

Misericórdia! Misericórdia!

E em salas d'oiro, iluminadas,

Há beijos, risos, gargalhadas...

Misericórdia! Misericórdia!

E, por outeiros e quebradas,

Tombam choupanas arruìnadas...

Mortas... desfeitas em ossadas...

Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia!

OPIPARUS:

Que bela voz! Dava um barítono estrondoso

O diabo do maluco!...

O REI:

A mim faz-me nervoso,

Não sei porque... Faz-me nervoso... Embirro, é doença...

Mas quanto poviléu! que turbamulta imensa

De esfaimados, de miseráveis no abandôno,

Rafeiros a latir, sem albergue e sem dono!

Vejam isto...

CIGANUS:

A miséria é lama, é sangue, e é pranto,

A fermentar em crime e em veneno. Portanto

Precisa esgôto; quer-se um esgôto e despejá-la

Contínuamente num porão ou numa vala.

Emigrar ou morrer; degrêdo ou cemitério.

O hálito da pobreza imunda é deletério.

De trapos de mendigo e lençóis de vilão

Faz a anarquia flamejante o seu pendão.

Curta distância vai da indigência à rapina,

Da mão que implora à que estrangula e que assassina.

Dorme em cada esfaimado um tigre. Há que evitar

Na rua aglomerações de ventres sem jantar.

A miséria despeja-a Deus, a Providência,

Do seu vaso nocturno ao saguão da existência.

Que fazer contra a lei de Deus, contra o Destino?

Arredar para longe o excremente divino,

Para bem longe, de maneira que a infecção

Não nos perturbe a nós, Senhor, a digestão...

O REI:

É triste, mas emfim que remédio lhe dar?!

OPIPARUS:

Comer, beber, dormir, jogar, caçar, dançar!

Festas, Senhor! Muitas e vãs, loucas e várias!

Não há jantar? Função. Não há pão? Luminárias.

A pobreza anda rôta, a canalha anda nua?

Girândolas ao ar e músicas na rua.

A fome e a dor bramem de noite, uivam nas eiras?

Matinadas, clarins, vivas ao rei, bandeiras.

Alegria! gozar! folgar! nada de luto!

Bombas! Salvem canhões de minuto a minuto!

E a cada grito de miséria ou de estertor

O cantar dum Te-Deum e o rufar dum tambor.

Dê-se à plebe faminta uma estrondosa orgia,

Um banquete real, monstro,--em scenografia!

Que bela idéa! Armar de improviso um galeão,

--Tábuas, cinábrio, gêsso, andrinopla e cartão,--

Pô-lo em rodas, tirado a parelhas d'Alter,

A côrte dentro, o patriarca, o chanceler,

El-rei de c'roa d'oiro, a raínha taful,

Asas novas de arcanjo, uma branca outra azul,

Eu ao leme, pendões, músicas, auriflamas,

Bispos e generais, o núncio, arautos, damas,

Com brilhantes a arder em veludo e em brocado,

--Tripulação emfim de baixel encantado,

A navegar de rua em rua, e praça em praça,

Atirando à miséria, à nudez, à desgraça,

A carga inteira a plenas mãos: lôdo em confeitos,

Gargalhadas, sermões de entrudo (alguns perfeitos!)

Drogas de charlatães, ditos de saltimbanco,

Cinza, areia, impudor, fome... e notas de banco!

................................................

E por último a rir sentamo-nos à mesa,

A despejar champagne em favor da pobreza!

O REI:

Despovoa-se tudo!

CIGANUS:

Um êxodo...

OPIPARUS:

Senhor,

Grande mimo de Deus para um rei caçador!

Terra despovoada e morta, sem ninguêm,

É terra inculta. Bem, perfeitamente bem.

Ora uma terra inculta, (é, meu Senhor, um facto)

Não dá vinho, nem pão, nem meloais,--dá mato.

E o mato bravo e as brenhas virgens dão a caça

Com mais fartura, variedade e doutra raça.

Pelos jardins d'agora, em dez anos talvez,

Andaremos ao lôbo e ao cabrito montês.

Olivedos, vergeis, campos, lezírias, prados

Criarão a raposa, aninharão veados.

E onde hoje há couves e maçãs, El-Rei, feliz,

Galopando a primor, monteará javalis!

Trovão formidando. Um relâmpago lívido abrasa as profundidades cavas

do horizonte. As árvores, de súbito, aparecem nuas e hirtas, sem uma

fôlha. Dos ramos, batidos do vento, pendem enforcados. Dir-se-iam

esqueletos de árvores gente. Nuvens de abutres pairam em volta,

crucitando.

O REI:

Pavoroso!

OPIPARUS:

Ora adeus! nada mais natural:

A fome trás a morte, os mortos cheiram mal,

E o cheirete dum morto, assim dependurado,

Para um corvo é melhor que o dum faisão trufado.

O DOIDO, _na escuridão_:

Olha as macieiras que maçãs que dão:

Gangrena por fora, dentro podridão!

Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro,

As maçãs escusam de ir ao madureiro...

Oh, que estranhos figos que há nos figueirais:

Mordidos d'abutres!... Figos que dão ais!...

Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro,

Colhe-me essas bebras que já teem mau cheiro...

Se é fruta de embarque, vai pelo caminho

Desfazer-se toda nos caixões de pinho...

Fruta de tal raça, cavador lunar,

Só a quer a Morte para o seu jantar!...

O REI:

Dou às vezes razão ao tonto do cronista...

Que lhe querem! não é agradável à vista,

Por noite negra uma bandada de milhafres,

Grasnando e devorando, à maneira de cafres,

Uma ceia de carne podre...

CIGANUS:

Pátria · 第 2 / 8 段