A BARCA DE S. PEDRO

Na barca de S. Pedro ex-santo, hoje banqueiro,

São tantos os caixões com bulas da cruzada,

E tanto o oiro em barra, as joias, o dinheiro,

O navio é tão velho e a carga é tão pesada;

Os anneis, os setins, as purpuras, as rendas,

As mitras d'oiro fino, os bentos, as imagens,

As pratas, os cristaes, os vinhos, as of'rendas,

Os meninos do côro, os famulos, os pagens;

O macisso tropel de conegos vermelhos,

De sacristas, bedeis, archeiros, missionarios,

E o damasco, o velludo, os bronzes, os espelhos,

o silabus, a curia, as forcas, os rosarios;

As pipas e os toneis com aguas milagrosas,

Que ainda causam hoje o mais profundo assombro;

Dos velhos cardeaes as cortezãs formosas,

E o cura Santa Cruz de bacamarte ao hombro;

Esta orgia pagã, esta riqueza immensa

Atulham de tal forma a barca ultramontana,

É tão desenfreado o vento da descrença,

E o mar é tão revolto, a carga é tão mundana;

Que a barca do senhor, outr'ora dirigida

Por doze galileus descalços, quasi nus,

Ella que atravessava o grande mar da vida

Tendo só por farol os olhos de Jesus;

A barca que atravez do horror da tempestade,

Arvorando no mastro o pavilhão da Esp'rança,

Levava os corações de toda a cristandade

Ao grande porto ideal da Bemaventurança;

Hoje ao peso cruel d'este deboche hediondo

Essa barca da Egreja, esse colosso antigo

Sossobrará, o Deus, com pavoroso estrondo,

Indo dormir ao pé dos _galeões de Vigo_.

A Velhice do Padre Eterno · 第 26 / 66 题