RESPOSTA AO SILLABUS

Fanaticos, ouvi as coisas que eu vos digo:

Dentro d'essa prisão cruel do dogma antigo

A consciencia não póde estar paralisada,

Como n'um velho catre uma velha entrevada.

Tudo se modifica e tudo se renova:

Da escura podridão nojenta de uma cova

Sae uma flôr vermelha a rir alegremente.

A ideia tambem muda a pel' como a serpente.

O que era hontem grão é hoje a seara immensa.

A Verdade sahiu d'esse casulo--a Crença,

Assim como sahiu do velho o mundo novo.

Recolher outra vez a aguia no seu ovo

É impossivel; quebrou o involucro ao nascer.

Como é que pòdes tu ó Egreja, pretender,

Cerrando na tua mão um box enorme--o inferno,

Levar aos encontrões o espirito moderno,

Leval-o para traz, para o passado escuro,

Como um bandido leva um homem contra um muro?!

A trajectoria immensa e fulva da verdade

Não se póde suster com a facilidade

Com que Jusué susteve o sol no firmamento.

Atirar a justiça, a ideia, o pensamento

Ás fogueiras da fé, ó bonzos, é impossivel:

Reduzirdes a cinza o que? O incombustivel!

Loucos! ide dizer ao velho Torquemada

Que queime se é capaz n'um forno uma alvorada!

.................................... Sacristas,

Ajuntae, reuni os balandraus papistas,

As fardas sepulcraes do exercito da fé,

A capa de Tartufo, a loba de Claret,

A cogula do monge, enfim, tudo que seja

Côr da nolte; arrancae o velho crepe á egreja,

Dos caixões descosei os panos funerarios,

Tisnae co'a vossa lingua as alvas e os sudarios,

E se inda precisaes mais sombras, mais farrapos,

Pedi ao corvo a aza, o ventre immundo aos sapos,

Fabricae d'isto tudo uma cortina immensa,

E tapando com ella o sol da nossa crença,

Nem mesmo assim fareis o eclipse da aurora!

A consciencia não é a besta d'uma nora.

Lembrai-vos que o Progresso é um carro sem travão,

E que apagar em nós o facho da razão

É o mesmo que apagar o sol quando flameja

Com um apagador de lata d'uma egreja.

Bonzos, podeis dizer á humanidade--Pára!--

Co'a foice excomunhão podeis ceifar a ceara

Da heresia; podeis, segundo as ordenanças,

Metter pedras de sal na boca das creanças,

Fazer do Deus do amor o Deus barbaridade,

Chamar á estupidez irmã da caridade

E jesuita a Jesus e Christo a Carlos sete;

Vós podeis discutir junto da campa o frete,

Recoveiros de Deus, o frete que é preciso

Para irdes levar lá cima ao paraiso

A alma d'um defunto; ó bonzos, vós podeis

Ir pedir emprestado um exercito aos reis

E defender com elle o papa, o vaticano,

Do cerco que lhe faz o pensamento humano,

Pondo adiante d'um dogma a boca d'um canhão;

Podeis encarcerar dentro da inquisição

Galileu; vós podeis, anões, contra os ciclopes

Roncar latim, zurrar sermões, brandir hyssopes,

Que não conseguireis que a Liberdade vista

A batina pingada e rota d'um sacrista,

Que o direito se ordene, e que a Justiça queira

Ir a Roma tomar, contricta, o véo de freira!

A Velhice do Padre Eterno · 第 19 / 66 题