II

Mas passado algum tempo a humanidade inteira

De tal modo gostou d'esse licor sublime,

Que o extasis christão tornou-se em bebedeira,

E o sonho em pezadello, e o pezadello em crime.

Nas solidões do claustro as virgens inflamadas

Co'as fortes atracções da mistica ambrozia

Torciam-se febris, convulsas, desvairadas,

Meretrizes de Deus n'uma piedosa orgia.

É que no vinho antigo ia á noite o demonio

Lançar co'a garra adunca uma infernal mistura

De mandragora e opio e helleboro e stramonio,

Verdenegro e viscoso extracto de loucura.

Quando uivava de noite o vento nas campinas

Via-se pela sombra, obliquo, Satanaz,

Colhendo aos pés da forca ou buscando entre as ruinas

Hervas, vegetações, prenhes de essencias más.

Era o filtro subtil d'essas plantas de morte

Que fazia da alma um derviche incoherente,

Uma bussola doida á procura do norte

Uma céga a tatear no vacuo, anciosamente!...

E a taça do veneno estonteador e amargo

No funebre banquete ia de mão em mão,

Produzindo o delirio, a syncope, o lethargo

E em cada olhar sinistro uma cruel visão.

Uns viam a espectral sarabanda frenetica

De esqueletos a rir e a dançar com furor

Em torno á Morte podre, impudente, epileptica,

Com dois ossos em cruz rufando n'um tambor.

Outros viam chegado o pavoroso instante

Em que um monstro do fogo, um dragão areolito,

Dava na terra um nó c'oa cauda flammejante,

Arrebatando-a, a arder, atravez do infinito.

E então para fugir ao desespero e ao panico

Bebiam com mais ancia o filtro singular.

Até á epilepsia, ao turbilhão tetanico

Do sabat desgrenhado e erotico, a espumar!

E á força de beber o tragico veneno

Tombou por terra exhausta a humanidade emfim,

Como em Londres, de noite, ao pé d'um antro obsceno

Cáe sob a lama inerte um bebado de gim.

A Velhice do Padre Eterno · 第 13 / 66 题