Nos primeiros 2:080 metros de comprimento tem a largura de 9½ metros; de

Callao á Praça das Flôres, essa largura attinge 26 metros, que conserva

até final. A rua de Santa Fé, parallela á anterior, é comprida de 12:000

metros; a de Cordoba, de 10:500; a de Corrientes, de 9:000; as de Callao

e de Entre Rios, de 8:500 metros cada uma; a rua Independencia de 8:000

metros e muitas outras têm extensões immediatamente inferiores ás já

citadas.

A magnifica Avenida de Mayo, com 30 metros de largura e kilometro e

meio de comprimento, corre na direcção Este-Oeste e é, pelo movimento

civico, pela situação topographica e pelo esplendôr dos seus edificios, a

principal arteria publica da capital argentina.

Termina na amplissima e magestosa praça do mesmo nome, ladeada de

monumentos e palacios, como a Cathedral, o Banco da Nação Argentina, a

Camara Municipal e o Palacio do Governo. Na extremidade opposta da Praça

de Mayo, ergue-se o grandioso monumento do Congresso Nacional.

A praça do general Lavalle, com 25:000 metros quadrados, é decorada a

lindissimos jardins e, ao centro, pela estatua do general Lavalle.

As avenidas de Corrientes, de San Juan, de Belgrano, de Santa Fé e de

Callao, são as mais importantes, depois da de Mayo, e mais extensas do

que esta, se bem que o seu aspecto geral não seja tão bello e imponente.

A praça do general San Martin, profusamente ajardinada e ostentando

a estatua equestre do seu homonymo, é um dos mais bellos pontos do

centro da capital, assim como o passeio Alvear, ou da Recoleta e os

parques Lezama e 3 de Fevereiro, especialmente o ultimo, com uma

superficie de 3:677:464 metros quadrados, e que é o Bosque de Bologna de

Buenos-Aires, excepto na vegetação. É especialmente frequentado ás terças

e quintas-feiras, os dias da moda, por numerosas e ricas equipagens,

que imprimem a esta capital o cunho essencialmente europeu dos grandes

centros da aristocracia, da riqueza e da elegancia.

Quem chega a Buenos-Aires em dia de semana e nas horas de maior movimento

civico, tem a illusão de que está em Paris, por exemplo, tal é o feitio

caracteristico e eminentemente parisiense da metropole buonarense.

Os cafés installados nos amplos passeios lateraes; os kiosques de

jornaes e de tabaco, espalhados em profusão; a assombrosa quantidade

de carruagens e de vehiculos de toda a especie, e até os vendedores de

jornaes e de bugigangas, que como o _camelot_ dos _boulevards_, tanta

animação imprimem ás já animadissimas arterias da colossal cidade, tudo

nos faz sentir que estamos em um dos formidaveis laboratorios humanos,

onde se desenvolve a vida universal. Pena é que as arterias largas de

Buenos-Aires, ou avenidas, sejam poucas em relação aos arruados que

dividem as suas 3:500 _manzanas_, ou quadrados de casas, e que são

excessivamente estreitos, para o espantoso movimento que os anima.

É facillimo ao visitante orientar-se na famosa capital _porteña_, devido

á originalidade da sua topographia.

Effectivamente, o plano de Buenos-Aires é formado por quadrados de metros

130×130, que se cortam em angulo recto, formando como que taboleiros

de xadrez. A numeração começa na direcção do porto e segue até á rua

Rivadavia, que divide o municipio e onde principia a nomenclatura e a

numeração de outras ruas.

Os nomes d’estas estão escriptos, em todas as esquinas, em lettras

brancas sobre fundo azul e em chapas ou placas de ferro esmaltado. Cada

quadrado tem o maximo de cem unidades, com a numeração par á direita e a

impar á esquerda.

Todas as ruas e avenidas centraes são calcetadas a madeira e a asphalto,

e as mais afastadas a parallelipipedos. Só a abertura da Avenida de

Mayo custou dez milhões de pesos argentinos, e sommas fabulosas gastam

actualmente o governo e a municipalidade na expropriação para alargamento

de novas ruas, praças e avenidas, bem como na construcção de magnificos

edificios publicos, que são verdadeiros monumentos.

Trinta e quatro mercados publicos abastecem a maravilhosa cidade e

mais de 25:000 candieiros de electricidade, gaz e petroleo a illuminam

profusamente. Todas as praças, avenidas e ruas principaes são realçadas,

durante a noite, por poderosos fócos electricos.

As condições climatericas são excellentes, graças á situação topographica

e geographica da localidade e já pelo cuidado e esmero das repartições

competentes, em tudo o que diz respeito á salubridade e hygiene publicas.

Até 1890, a mortalidade de Buenos-Aires era de 29 a 30 por 1:000

habitantes. Depois das obras de saneamento, terminadas n’esse anno e nas

quaes foram gastos 33 milhões de pesos em ouro, as defuncções baixaram a

15 e 16 por 1:000.

Tambem contribúe para esse resultado satisfactorio a amenidade da

temperatura, cuja média, no mez mais frio do anno, o de Junho, é de 7.°

centigrados e em Dezembro, o mez mais quente, é de 26.°

Sob o ponto de vista artistico, e especialmente architectonico, a

perspectiva geral da cidade é bizarra e variadissima. Da povoação

colonial pouco resta e a nova capital foi edificada, até bem pouco tempo,

ao capricho dos proprietarios e de architectos na maioria incompetentes.

N’estes ultimos vinte annos, todavia, verdadeiras obras de arte teem

apparecido a engrandecer a cidade, tanto particulares como publicas,

especialmente nas novas e centraes avenidas.

Buenos-Aires é não só metropole assombrosamente commercial, mas tambem

centro importantissimo de gôso, de luxo e de prazer. Na estação

invernosa, de Maio a Outubro, funccionam tres ou quatro companhias

lyricas, com os melhores elementos de reputação universal, assim como

numerosas emprezas e celebridades artisticas na zarzuella, na declamação

e no genero variado. Os seus grandiosos theatros são o assombro e o

encanto dos forasteiros, que tambem sentem a impressão do bello e do

supremo gosto ao contemplarem defronte de esplendidas vitrinas, nos

passeios e em ricas equipagens, formosas damas, elegantemente vestidas, e

irradiando das suas gentilissimas pessôas, a graça que seduz o espirito e

incendeia os corações.

Historia

O nome de Buenos-Aires tem duas versões, adoptadas ambas por

historiadores da famosa capital argentina. Segundo uns, Sancho del

Campo, official do _adelantado_, especie de vice-rei, D. Pedro

de Mendoza, primeiro fundador da povoação, ao saltar em terra

exclamára:—buenos-aires!—referindo-se aos ares agradaveis que circulavam

na atmosphera. Outros escriptores sustentam que o nome provem do de Santa

Maria de Buenos-Aires, muito da devoção dos mencionados expedicionarios.

Effectivamente, o primeiro nome dado á localidade, foi o de cidade de

Santa Maria.

D. Pedro de Mendoza partiu de Sevilha em 24 de Agosto de 1535, com

quatorze navios e 220 homens de equipagem, entre officiaes e soldados. O

almirante da armada era D. Diogo de Mendoza, irmão de D. Pedro.

A causa d’esta expedição foi a descoberta e exploração das minas de ouro

e de prata, que o navegador Gaboto affirmára, em Hespanha, ter visto

nas margens do Rio da Prata. Como o informador tambem se referisse á

extraordinaria fertilidade e belleza das terras platinas, o espirito

aventureiro d’aquellas épocas, acabou por decidir a organisação da frota,

na qual o _adelantado_ foi acompanhado por muitas pessôas gradas, umas

que tinham de transportar-se ao Paraguay, e outras desejosas de riquezas

e de aventuras.

Na altura das Ilhas Canarias, a expedição foi surprehendida por grande

temporal, que a forçou a arribar ao Rio de Janeiro, onde, por vingança,

Mendoza mandou matar o mestre de campo João de Osorio. Como a crueldade

d’este acto provocasse a indignação da maioria da equipagem, o chefe

mandou levantar ferro para impedir as deserções e nos primeiros dias do

anno de 1536, ignorando-se a data exacta, fundeou a armada na embocadura

do Rio da Prata. Seguiu-se o desembarque e a fundação da cidade, ao

mesmo tempo que de um forte para defeza da nova povoação contra os

ataques dos naturaes. Estes, os indios _querandies_, tentaram impedir

o estabelecimento dos hespanhoes, conseguindo surprehender e matar dez

d’entre elles, que haviam-se internado á procura de lenha. No intuito

de vingar esta affronta, D. Diogo de Mendoza, á frente de uma expedição

militar, partiu á procura da tribu, que o esperou nas margens de uma

lagôa e em numero de alguns milhares de guerreiros.

Os invasores succumbiram ao numero, e o proprio D. Diogo foi morto,

o que profundamente desanimou o fundador de Buenos-Aires. D. Pedro

caiu gravemente enfermo e á derrota seguiu-se a falta de viveres, que

degenerou em fome, a ponto dos vivos alimentarem-se com a carne dos

companheiros mortos. O governador resolveu retirar-se para o Brasil,

mas quando ia a partir, appareceu-lhe, com algumas provisões, o capitão

Oyolas, que elle mandára ao interior, em busca de viveres. Este successo

reanimou um pouco os hespanhoes, porém os indios, tendo-se reunido em

numero superior a 20:000, atacaram a nova povoação, ao mesmo tempo que

incendiavam os seus tectos de palha, arremessando-lhes flechas ardentes.

Os habitantes foram obrigados a refugiar-se, com D. Pedro de Mendoza, nos

navios que os indios não puderam queimar, e partiram, em numero de 400,

na direcção do Paraguay, ficando no porto de Buenos-Aires e a bordo de 4

navios, 160 homens, ao mando de Juan Romero. Do meio da viagem, D. Pedro

de Mendoza, voltou a Buenos-Aires, onde encontrou reinstallada a gente de

Romero, pela retirada dos indios.

O _adelantado_ nomeou capitão do porto e da povoação a Francisco Ruiz

Galán, e partiu para Hespanha, morrendo em viagem e a bordo do navio

«Magdalena», em 23 do Junho de 1537. Privações de toda a especie

continuaram a flagellar a pequena população de Buenos-Aires, até que em

Abril de 1538, chegou de Hespanha uma caravella de soccorro, carregada

de provisões. Em Outubro d’esse anno appareceu uma expedição auxiliar

composta de dois navios e 200 tripulantes, com viveres para dois annos,

sob o commando de Alonso Cabrera.

Com estes reforços começou-se a reconstrucção das casas incendiadas,

pelos indios, e da egreja.

A Ayolas, capitão de Mendoza, que foi assassinado pelos indios do

Chaco, succedeu no commando Domingo Martinez de Irala. Este reuniu, em

Assumpção, os homens que Mendoza tinha deixado nas margens do Paraná, e

dirigindo-se a Buenos-Aires, ahi fez proclamar a despovoação, levada a

effeito em 10 de Maio de 1541, queimando-se os navios emprestaveis para

navegar; e partindo Irala com toda a população para o Paraguay.

Da expedição e tentativa de D. Pedro de Mendoza ficou, como recordação

indelével, o rebanho de 75 cavallos e eguas que elle trouxera de Hespanha

e que solto nas immensas planicies regadas pelas aguas dos rios Riachuelo

e da Prata, foi a origem da actual riqueza animal das regiões platenses.

D. Juan de Garay, nascido em 1528, em Villalba de Lora, provincia de

Burgos, aos 16 annos de edade embarcou para Lima, no Perú, em companhia

de seu tio, o licenciado Pedro Ortiz de Zárate, ouvidor n’aquella cidade

sul-americana. Em 1549 acompanhou o general Juan Nuñez del Prado ás

provincias de Tucuman.

Tendo estado em Charcas e tomado parte em varias expedições contra os

indios, em 1561 foi nomeado alguazil-mór do governo do Rio da Prata, pelo

que estabeleceu-se na cidade de Santa Cruz da Serra, fundada por Nuflo de

Chaves. Commissionado pelo governo do Paraguay para fundar uma povoação

nas margens do Paraná, para alli partiu em uma caravella, a 14 de Abril

de 1573, fundando a cidade de Santa Fé, em 15 de Novembro do mesmo anno.

Depois de voltar ao Perú, para tratar um assumpto de familia e de

derrotar, no Paraguay, o cacique Oberá, Juan de Garay, um dos maiores

e mais celebres aventureiros do seculo XVI, organisou uma expedição e

dirigiu-se ao Rio da Prata, em cuja foz lançou ferro. Desembarcando, com

os seus companheiros, em 11 de Junho de 1580, depois de meia hora de

marcha, fez alto em uma planura que lhe pareceu apropriada, e ahi traçou

o local da praça principal de uma nova povoação, a que pomposamente deu

o titulo de _Ciudad de la Trinidad de Buenos-Aires_. O fundador estava a

pequena distancia do povoado fundado, 44 annos antes, por D. Pedro de

Mendoza, e o espaço traçado pela sua espada é a actual praça 25 de Mayo.

Quatro mezes mais tarde, procedeu-se á repartição das terras fóra do

perimetro da cidade. Esta occupava um espaço de 16 quadras de frente por

9 de fundo, limitado pelas actuaes ruas 25 de Mayo, Balcarce, Viamonte,

Libertad, Salta e Estados Unidos.

Em 1762 já Buenos-Aires tinha 24 quadras de frente por doze de fundo.

Cada quadra comprehende 140 varas de comprimento. As casas que, em 1650,

não passavam de 400, eram algumas cobertas de telha, porém a maior parte

tinha os tectos de palha, e eram muito baixas, de madeira e pedra. N’essa

época e mesmo até ao fim do seculo XVII, nenhuma habitação attingia a

altura de cinco metros.

Assegurada a fundação e garantido o sustento da cidade, aquella por

uma derrota inflingida aos indios _querandies_, e este pelas numerosas

tropas de gado que povoavam as campinas circumvisinhas, partiu o fundador

Juan de Geray para Assumpção, no Paraguay, com escala pelas colonias do

rio Paraná, algumas tambem de sua fundação. Em uma d’estas excursões,

tendo pernoitado em terras dos indios _miunanes_, ainda selvagens, foi

traiçoeiramente morto por estes, bem como os da sua comitiva. Sabida,

em Buenos-Aires, a noticia do desastre, assumiu o mando um sobrinho do

_adelantado_ Vera, até á chegada d’este, em 1587.

Já em 1585, a cidade tinha sido atacada pelo corsario inglez Eduardo

Fontano, que foi repellido, renovando a tentativa dois annos mais tarde

e com egual resultado, o famoso pirata, da mesma nacionalidade, Thomaz

Cavendish.

Os heroicos habitantes da povoação, todos soldados, tambem repelliram,

victoriosamente, um ataque dos hollandezes, então estabelecidos no

Brasil, em 1618.

Um seculo depois da fundação, Buenos-Aires passou por longo periodo de

decadencia, em consequencia do abandono da metropole, das hostilidades

dos indigenas e da falta de navegação e de commercio, o que provocou

a carestia dos generos de primeira necessidade. A primeira Audiencia,

estabelecida por decreto de 6 de Abril de 1661, representou a situação da

colonia ao rei de Hespanha, Filippe IV, recebendo resposta, sete annos

mais tarde, firmada por D. Marianna d’Austria, viuva d’aquelle monarcha

e regente do reino, durante a menoridade de Carlos II. Esse documento

apenas recommendava ao mestre de campo, D. José Martinez de Salazar,

que _empregasse todos os esforços para debellar a crise que affligia a

colonia_. N’essa época a população de Buenos-Aires era de 4:000 pessôas,

das quaes apenas uns 250 europeus.

Já então a cidade começava a reanimar-se, devido á expansão commercial,

maritima e do interior, a ponto que, em 1730, o jesuita Cattaneo, que a

visitou, calculou os seus habitantes em 16:000.

D. Juan José de Vertiz, governador que succedera a Zeballos, iniciou,

em 1778, una série de melhoramentos que deram novo aspecto á cidade.

Deve-se-lhe a illuminação publica, o empedramento das ruas, a introducção

do primeiro prélo e a fundação da Casa dos Expostos e do Collegio de S.

Carlos. Em fins do seculo XVIII, fôram construidos o primeiro theatro e a

primeira praça de touros.

Em 24 de Junho de 1806 e quando assistia a um espectaculo, com a sua

familia, o vice-rei marquez de Sobremonte, recebeu a noticia de que

acabára de ancorar, no porto, uma esquadra ingleza em attitude hostil.

Immediatamente aquelle funccionario fugiu para Cordova, sem, ao menos,

dar as providencias que requeriam a urgencia e a gravidade do caso. A

26 desembarcaram os inglezes e no dia seguinte, ao mando do general

Beresford, entraram na cidade, quasi sem combate.

No interior e na visinha Montevideu, principiou a organisar-se a

resistencia contra os invasores, e depois de um fracasso, em Perdriel,

os naturaes tendo-se reforçado pela juncção dos generaes Pueyrredon e

Liniers, marcharam sobre Buenos-Aires, que retomaram em 12 de Agosto,

depois de sangrentos combates que custaram, aos dois exercitos, mais de

quinhentas vidas.

Os inglezes retiraram-se para voltar, no anno seguinte, 1807, no mez de

Junho, commandados, o exercito, pelo general Whiteloeke, e a esquadra

pelo almirante Murray. O inimigo desembarcou em numero de 11:000 homens,

das tres armas, principiando a assaltar a cidade em 2 de Julho.

Defendiam-n’a Liniers e 8:500 soldados regulares, conseguindo no dia

5, em uma batalha geral, derrotar completamente os inglezes, que, a 7,

assignaram uma convenção, compromettendo-se a abandonar as cidades de

Buenos-Aires e Montevideu e todas as regiões banhadas pelo Rio da Prata,

assim como as proprias aguas platenses.

O governo da metropole galardoou a cidade com o titulo de _Excellencia_,

e os seus vereadores com o de _Senhoria_. Em signal de regosijo, a

Municipalidade, ou Cabido, libertou trinta escravos.

Em 25 de Maio de 1810, rebentou a revolução pela independencia, que é não

só o principal acontecimento historico de Buenos-Aires como de toda a

nacionalidade argentina.

Aos vivos desejos de autonomia politica e administrativa, manifestados

pela população creoula e mestiça, principalmente, juntaram-se as noticias

da invasão napoleonica da metropole e da independencia dos Estados Unidos

da America do Norte. Além d’isso, o espirito bellico e auctoritario dos

naturaes tinha sido animado pelas recentissimas luctas e victorias contra

os inglezes.

Quando o vice-rei Cisneros, em 18 de Maio de 1810, publicou, em nome

de Fernando VII, uma proclamação dando conta dos successos passados

na peninsula iberica e exhortando a população a unir-se em volta da

auctoridade e do throno, o povo de Buenos-Aires começou a agitar-se e foi

para a praça da Victoria manifestar-se, em altos brados, pela reunião

de um Congresso Geral, ou Cabido Pleno, no qual o povo tivesse directa

representação e resolvêsse sobre a proclamação do vice-rei. Em face

d’essa attitude dos habitantes, reuniu-se o Cabido ordinario, no dia 21

e resolveu, de accôrdo com os desejos do povo, convocar um congresso

geral dos habitantes para o dia seguinte, ás 9 horas da manhã. Foram

convocadas 450 pessôas gradas, que nada resolveram no mesmo dia, que foi

passado em calorosas discussões, combinando-se voltar a reunir a 23, ás

3 horas da tarde. A pluralidade de votos decidiu que o vice-rei Cisneros

deveria depositar o seu mandato nas mãos do Cabido, até que fôsse eleita

uma junta governativa. O vice-rei acatou e cumpriu as resoluções do povo,

mas no dia seguinte o proprio Cabido convidou-o a reassumir o governo,

auxiliado por 4 das pessôas mais gradas da cidade, formando uma especie

de Junta, presidida por Cisneros.

Finalmente, no dia seguinte, 25 de Maio, o povo da cidade, descontente

com a solução da crise, sublevou-se de novo, e invadindo a praça

Victoria, delegou uma deputação ao Cabido e á Junta, intimando-os a

depôrem o mando nas seguintes mãos:

D. Cornelio Saavedra, commandante geral das armas, presidente, e vogaes

Juan José Castelli, Manuel Belgrano, Miguel Azcuénaga, Manuel Alberti,

Domingo Matheu, Juan Larrea, Juan José Paso e Mariano Moreno, os dois

ultimos como secretarios.

Este triumpho popular e nacional deu em resultado o Congresso de Tucuman,

reunido na cidade d’este nome, que em 9 de Julho de 1816 proclamou a

independencia da Republica Argentina. No anno seguinte fôram as reuniões

do Congresso Nacional transferidas para Buenos-Aires.

Em 24 de Setembro de 1812, o general Belgrano derrotou as tropas

hespanholas do commando do general Pio Tristán, no campo de Carreras,

suburbios de Tucuman.

Nos annos de 1817 e 1818, o mesmo general Belgrano e o seu collega

San Martin, ganharam as batalhas de Chacabuco e de Maipú, que não só

confirmaram e consolidaram a independencia nacional-argentina, como deram

em resultado a proclamação da Republica do Chile.

Depois do da revolução de Maio, o facto historico mais importante da

capital e da Republica, foi a dictadura tyrannica de Juan Manuel Rozas,

a quem o Congresso Nacional concedêra o poder supremo. Em 1851, o

general Urquiza, governador da provincia de Entre Rios, collocou-se á

frente dos patriotas, que propunham-se derrubar o tyranno, e auxiliado

por brasileiros e orientaes, deu a Rozas, em 3 de Fevereiro de 1852,

a batalha de Caseros, derrotando-o com 24:000 homens contra 30:000, e

obrigando-o a fugir para a Europa. Rozas governára por espaço de vinte

annos.

Com a quéda da tyrannia foi promulgada nova constituição e Buenos-Aires

entrou em phase de decidido desenvolvimento material.

Ao cair Rozas, em 1852, contava a cidade 76:000 habitantes, em 1864,

140:000, 404:000 em 1867, 800:000 em 1900 e 1:150:000 em 1908.

N’estes ultimos cincoenta annos, de muitos acontecimentos historicos teem

sido theatro as ruas de Buenos-Aires, e ainda não ha muito tempo que

ellas foram regadas com o sangue de irmãos, em feroz disputa do supremo

poder. E por isso que ainda vivem muitos dos protagonistas d’esses

infaustos successos, é de justiça lançar, sobre homens e factos, o véo

do esquecimento e deixar á geração vindoura a tarefa de, serenamente,

apreciar uns e outros e preparar o julgamento severo e perenne da

Historia.

O primeiro escudo de armas da cidade de Buenos-Aires, foi fixado em

reunião do Cabido, presidido por D. Juan de Garay, quatro mezes depois

da fundação da cidade, em 20 de Outubro de 1580. A dita assembleia,

depois de eleger patrono da cidade a _San Martin de Tours_ deliberou que

as armas e brazões de Buenos-Aires seriam formados por _un águila preta

pintada al natural, con su corona en la cabeza, con cuatro hijos debajo

demostrando que los cria, con una cruz colorada sangrienta que salga de

la mano derecha y suba más alta que la corona, que semeje la cruz á la de

Calatrava y la qual esté sobre campo blanco_.

A aguia e seus filhos representavam as fundações effectuadas em nome

dos _adelantados_ Juan Ortiz de Zárate y Torres de Vera y Aragon, que

ostentavam nos seus respectivos escudos uma aguia corôada. Quanto á cruz

de Calatrava e á corôa, explica o auto de Garay:

—_La razón es haber venido á este puerto con fin y propósito firme de

ensalzar la Santa Fé Catholica y servir á la corona real de Castilla y de

Leon._

Um dos casos mais extraordinarios da historia de Buenos-Aires, é que 69

annos depois da decretação d’este escudo, o Cabido da cidade reuniu-se

para crear um escudo «_atento á no haberse hallado en el Archivo de

este Cabildo y sus libros que haya tenido ni tenga hasta ahora armas

ningunas_».

Pelo que, foi creado um escudo com uma grande aguia, ao centro e no alto,

a esvoaçar sobre uma ancora, e em volta uma legenda.—Em 1744 adoptou-se

outro escudo, e em 1905 o que actualmente vigóra e que consta de dois

navios entre duas aves.

Monumentos

_Cathedral_—Entre os novos e monumentaes palacios da praça de Mayo,

eleva-se a pesada e triste frontaria d’este templo, edificado na segunda

metade do seculo XVIII. É em estylo grego, com 12 columnas jonicas, de

granito, a sustentarem o frontão, em alto relevo.

O interior, em tres naves, é amplissimo, porém sombrio. Os pilares,

demasiadamente grossos, tiram toda a elegancia ao edificio.

Ha 12 capellas lateraes e 2 ao lado do altar-mór.

Um arco-cruzeiro, precede a capella-mór, que encerra seis arcos lateraes,

os dois ultimos com tribuna e um pequeno orgão. No altar principal ha 4

columnas douradas e á esquerda está o sólio archiepiscopal. As paredes

são revestidas de marmore mesclado, com seis janellas, que transmittem

escassa luz ao recinto.

No tecto da capella-mór ha tres pinturas e outras tantas no do corpo

principal do santuario.

Precede o arco-cruzeiro um alto zimborio, com 4 janellas a vitraes

coloridos.

Na terceira capella da nave direita está o tumulo, eminentemente

artistico, do general San Martin, e na quinta capella o do arcebispo

Aneiros, primeiro prelado de Buenos-Aires. O arcebispo está representado

em estatua de marmore branco, ajoelhada. É trabalho do esculptor V. de

Pol. A arcaria de todo o templo é ornamentada a meias columnas de marmore

mesclado, com capiteis dourados.

Tres capitaes · 第 14 / 24 段