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«A inscripção está quasi apagada, como já se apagou tambem a vida das

pessoas a quem ella se referia.»

O modesto monumento, de que fiz mais larga menção no opusculo _Uma

visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de Seide_, Porto,

1885, falla-me saudosamente de seis pessoas, cuja memoria conservo muito

viva entre as mais gratas lembranças do passado.

D'essas seis pessoas, as ultimas a morrer foram Eugenio de Castilho,

fallecido a 8 de janeiro de 1900, e Thomaz Ribeiro, a 6 de fevereiro de

1901.

Embora tenha de fazer uma annotaçao talvez demasiadamente longa--o que

não sei se é proprio do teor das annotações--não posso ter mão em mim

que não complete, para o meu espirito, a historia do monumento de Seide

com as recordações que me são suggeridas pelos nomes de Eugenio de

Castilho e Thomaz Ribeiro.

* * * * *

Uma coisa vos confessarei eu, sr. Dom Leonardo...

Lembram-se? Vem nos _Logares selectos_, do padre Cardoso: é um excerpto

da _Côrte na aldeia_, de Rodrigues Lobo--dois livros bons, cada qual no

seu genero; bons como se faziam d'antes.

Pois, já que a phrase me lembrou, adopto-a, mas cito ao menos a origem,

o que nem sempre se faz agora.

Os tempos são outros; d'isso é que me queixo.

Uma coisa vos confessarei eu, srs. Dons Leonardos de hoje em dia, e é

que me vou ralando de saudades pelos homens que conheci outr'ora, com os

quaes convivi e troquei impressões, que os não ha melhores, nem tão

bons, como foram esses.

[Ilustração: A ACACIA DO JORGE]

Não quero dizer que todos agora sejam portuguezes de ruim panno; ha

excepções, mas tão raras, que pode a gente gritar quando as encontra--Lá

vem um!

Digo e redigo, porque d'isso estou convencido até á medula dos ossos,

que os homens que eu tratei na mocidade me parecem semideuses se os

comparo com os de hoje.

Doia-se quem doer, que me importam pouco essas coisas: até faz bem á

gente sentir morder-lhe uma pontinha de malquerença--é como o frio de

janeiro, que arripia, mas provoca a necessidade de reagir contra elle.

Eu venho de um tempo em que se dizia haver «elogio mutuo». Não era

elogio, mas justiça. As cotações, especialmente no mercado das letras,

andavam menos falsificadas. Ninguém chegava ao pé de um homem, de punhal

na mão, com o intuito de assassinal-o, para o glorificar depois de morto.

Garrett estava no tumulo. Herculano fizera-se solitario em Val-de-Lobos.

Castilho vivia em Lisboa e abria as suas portas a todos quantos

mostravam paixão pelas letras. D'aqui veio o dizer-se que tinha Castilho

uma côrte. Não a procurava elle; procuravam-n'o, sim, todos, velhos e

novos, que desejavam encontrar uma atmosphera literaria em que podessem

respirar á vontade.

Mas a differença do tempo estava principalmente n'isto, que não era

pouco: ninguem, em casa de Castilho, nem dos seus, nem dos extranhos, se

julgava maior que elle.

Por isso o respeitavam, medindo-lhe a grandeza, que fazia lembrar a das

estatuas, porque sendo vista de perto tomava ainda maior vulto.

Era deliciosa essa casa de Castilho, onde a boa conversação literaria

teve um templo, como não ha, nem póde haver outro. Não decorria ali uma

hora sem que se tivesse lucrado alguma coisa: aprendia-se sempre. Eram

tantos e tão bons os de casa e os de fóra, que nunca se apagava o lume

para as refeições do espirito. Mesa posta para os _gourmets_ da

intellectualidade; porta aberta para todos os que chegavam, fossem

gregos ou troyanos.

Conheci Castilho na rua do Sol ao Rato, onde recebia na sua enorme

bibliotheca, uma vasta sala, que os melhores auctores de todos os paizes

e de todos os seculos povoavam de alto a baixo. Fazia respeito aquillo:

era uma cidade, um emporio de celebridades consagradas.

Castilho, coroado de cans, dava a impressão de ser um patriarcha das

letras. Cego como Homero, via tudo o que queria vêr; jámais houve um

cego que visse tanto. Até lia mentalmente os titulos dos livros que o

rodeiavam. Aqui está o meu Bernardes, dizia elle: ia á estante, punha o

dedo indicador n'um livro, e tirava a obra de Bernardes que desejava

citar. Parecia ter os olhos fechados para, concentrado, reforçar por um

momento a visão, que depois se tornava mais aguda e perspicaz.

Os seus olhos faziam lembrar os de D. João I: raça de escol, que já

vinha apurada de longe.

Julio foi sempre o braço direito do pai, a sua luneta, o seu bordão, o

seu _alter ego_. O pai adorava-o; elle adorava o pai. Não podiam viver

um sem o outro; eram como dois gemeos, duas existencias que se fundiam

n'uma só.

Augusto, official de marinha, andava quasi sempre embarcado por

longinquos mares. Raro apparecia em Lisboa; mas Castilho lembrava-o

muitas vezes n'um impeto de saudade paternal, que é a mais funda, a mais

incisiva, a mais cruel de todas as saudades.

Ida de Castilho, com os seus bellos olhos pretos que pareciam estrellas,

era a gracilidade da mulher franzina a sorrir por entre clarões de

intelligencia vivacissima.

Eugenio, o filho mais novo de Castilho, era, em razão da sua idade, o

que tinha menos auctoridade literaria na familia, mas nascera poeta ali,

n'aquella familia de escolhidos, como se nasce escocez na Escocia.

Foi este rapaz velho, porque a doença o envelheceu precocemente, que

morreu outro dia, em Sete Rios, mais longe do mundo que de Lisboa.

Poucos se lembravam d'elle já: tinha esquecido, tinha passado, era um

morto que vivia longe dos vivos.

O seu periodo de maior actividade foi de 1868 a 1869. Conheci-o então,

como conheci Antonio Feliciano e Julio de Castilho: por cartas que o

correio trazia e levava, do norte para o sul, do sul para o norte. Só

alguns annos depois nos avistámos, os Castilhos e eu, na rua do Sol ao

Rato. Mas eramos já amigos velhos, todos nós, quando nos encontrámos

frente a frente.

Aqui tenho eu uma prova d'isso, n'esta meia duzia de paginas publicadas

em 1868 por Eugenio de Castilho, e intituladas _Patria, contra a

Iberia_, poema em bons alexandrinos, que eram os da casa, a melhor

officina de alexandrinos que tem havido até hoje em Portugal.

Na dedicatoria, do punho do auctor, escreveu elle: «Ao seu

amicissimo...» Nunca nos tinhamos visto então, mas eramos já tão casados

na amisade, que nenhum de nós estranhou o superlativo.

Eugenio tinha n'esse tempo 21 annos, e desabrochavam n'elle os talentos

literarios, que são morgado de Castilhos. Eram flores que conheciam o

terreno e o clima em que nasciam: medravam á vontade.

Quanto á factura artistica, o poema _Patria_ trazia a marca da fabrica:

Castilho & Filhos. Não havia firma mais acreditada nem então, nem agora.

Passo hoje pela vista, devorado de saudades, aquelle poema de 1868, e

transplanto para aqui alguns casaes de alexandrinos, que me parecem

ainda casaes de rouxinoes a namorarem-se nos bosques umbrosos de Portugal:

Vês além um telhado ao pé d'aquelle olmeiro?

alli nasceu meu pae; alli amou primeiro.

Quando eu era pequeno, ia, ás vezes, sósinho

aos loireiros do val á busca de algum ninho.

Sob este parreiral tão verde e tão fragrante

beijei apaixonado a minha terna amante.

Costumava ir de tarde ao moinho da serra

vêr como o sol transpunha as montanhas da terra.

Quanta vez, ao voltar da caça, eu me sentava

ao pé d'essa cascata a ver-lhe a espuma brava.

Os troncos da azinhaga, as silvas e as paschoinhas

ouviram-me cantar ás vezes trovas minhas.

Era-me gosto á noite o rouxinol saudoso

dizendo á beira d'agua o seu canto amoroso.

Sentado n'uma penha occulto entre o salgueiro

poetava a ouvir do rio o murmurar palreiro.

Ao canto do quintal da casa onde eu morava

uma anágua plantara, e flores que eu regava.

Conheço a minha terra; e cada pedra ou planta

me saúda ao passar. Toda a Patria me encanta.

Não são, de certo, estes os soberbos alexandrinos do pae Castilho, tão

cheios, tão sonoros, tão variados na riqueza das vogaes, como elle,

legislador maximo em versificação, praticava e recommendava; mas téem o

ar de familia, o cunho da officina, que nos entremostram o artifice mais

novo da casa posto a trabalhar, por desenfado, com a ferramenta do mestre.

Junte-se a tudo isto, que é já sobeja valia, o perfume ingenuo e nobre

da mocidade, o pulsar de um coração candido e fidalgo, que se educava

entre lyras de poetas e brazões de aristocracia literaria.

Tudo então fazia suppor que teria uma larga carreira esse moço tão bem

estreado, e tanto se sumiu elle depois nas trevas que as contrariedades

da vida adensaram--a doença principalmente.

Foi tambem por 1868 que Eugenio de Castilho tentou a publicação da

_Folha dos curiosos_, um dos quaes curiosos fui eu.

N'essa tentativa ia ainda um exemplo paterno, porque não deve esquecer a

ninguem que Antonio Feliciano de Castilho redigiu por algum tempo, com

inexcedivel brilho, a _Revista universal lisbonense_.

Digo inexcedivel brilho, e fico pesaroso de não encontrar melhor

locução. Não me satisfaz esta, que é deficiente. Tudo quanto Castilho

ali deixou, é primoroso--até o noticiario.

Se vingar algum dia a ideia de fundar uma escola de jornalistas, o

professor, sabendo do seu officio, tem que ensinar a fazer noticiario

pelo teor de Castilho.

Que adoraveis locaes, que gentileza e graça no dizer, que malicia, que

ironia e que pureza castiça de linguagem!

Os senhores conhecem Castilho poeta, prosador, traductor e pedagogo?

Pois não conhecem Castilho todo, acreditem. Falta-lhes ainda conhecer

Castilho jornalista a brincar com a penna sobre assumptos de reportagem,

a enramilhetar locaes que parecem _bouquets_; Castilho a sorrir de si

mesmo por ter descido áquella futilidade e a tornal-a grandiosa para não

ter que envergonhar-se de vêr n'um espelho o pretor a curar de coisas

minimas.

Pois, srs. Dons Leonardos, em verdade vos digo que foram grandes homens

esses que eu conheci n'outro tempo, que conheci e amei, e que vós sois

muito mais pequenos que elles.

Este mesmo Eugenio de Castilho, fallecido ha quasi um anno, não chegou a

ser grande, porque lhe faltou apenas a validez; o talento, não.

Mas, no breve momento em que se demorou nas letras, honrou, como

vergontea, a arvore gloriosa dos Castilhos, florindo como poeta, que

promettia futuro.

Hoje dorme o somno eterno na terra da _Patria_, que elle amava tanto, e

se os mortos pensassem, julgar-se-ia certamente feliz por ter encontrado

descanso aos seus tormentos na mesma terra em que o pae nasceu e amou

primeiro.

* * * * *

Tinha eu treze annos, quando um quintanista de direito, Manuel do

Nascimento de Azevedo Coutinho, natural de Sinfães, passando pelo Porto,

recitou em casa de meu pai trechos de um poema que, segundo a sua

propria informação, estava causando o maior enthusiasmo em Coimbra.

Os estudantes sabiam-n'o de cór, e até o doutor Férrer, dando descanço

ás Ordenações e ao Digesto, repetia estrophes aos rapazes quando os

encontrava á tarde no Penedo da Saudade.

Era o cumulo do enthusiasmo coimbrão.

O quintanista Nascimento, um duriense de olhos pretos, vendo-se

comprehendido por um grupo de senhoras que o escutavam, ia procurando na

memoria excerptos do poema e recitava-os contente de espalhar em torno

de si, como um perfume de rosas, a inspiração delicada do poeta que toda

a academia já tinha sagrado em Coimbra com a agua lustral do Mondego.

Esse poema era o _D. Jayme_, de Thomaz Ribeiro.

A cada novo trecho cresciam os applausos; a impressão tornava-se geral

no auditorio.

E o quintanista Nascimento, com a vivaz reminiscencia de todos os moços,

saltava de um canto a outro do poema recordando estrophes:

Um dia... quando, não sei;

fui vêr as gastas ruinas

d'um velhissimo castello

que ao desamparo encontrei,

mas que, apesar de esquecido

na solidão, era bello.

Achei-o todo vestido

de tenaz era viçosa;

e ornado de verde brilho,

lembrou-me um velho casquilho

que espera noiva formosa.

De vez em quando, os parceiros do voltarete de meu pai poisavam as

cartas, e escutavam attentos:

Que triste vida na choça,

que funda melancolia,

que rostos tão macerados,

que suspiros abafados

cada noite e cada dia!

noites de eterna vigilia,

dias curtos para a lida,

recordações da opulencia,

amarguras da indigencia...

que vida, Jesus! que vida!

Eu recolhia todos os trechos n'um enlevo d'alma, que foi o primeiro goso

literario da minha vida e, quando n'essa noite me deitei, reconstituia

mentalmente versos, estrophes inteiras, ancioso de poder lêr todo o

poema, para decoral-o todo.

No dia seguinte, meu pae, recolhendo de ver os seus doentes, trazia

debaxo do braço um livro de capa amarella.

Tinha comprado o poema, suggestionado pela recitação da vespera.

Então, como um faminto que se lança vorazmente sobre um manjar

inesperado, eu, quando os outros acabavam de lêr, devorava pagina a

pagina, canto a canto, lendo e decorando, com a mesma facilidade com que

hoje vou esquecendo...

Annos depois--não foram muitos--quando Castilho protegeu as minhas

estreas literarias com o prestigio do seu nome, Thomaz Ribeiro

escreveu-me algumas cartas que religiosamente conservo entre montões de

outras suas escriptas de toda a parte.

Depois, em Lisboa, muitas vezes Thomaz Ribeiro me disse que possuia um

retrato meu aos dezeseis annos.

Certamente lh'o offereci, mas não me lembro quando, e não conservo hoje

nenhum exemplar d'essa photographia.

Quando foi que eu vi pela primeira vez o auctor do _D. Jayme_? D'isso me

lembro muito bem. Foi no Porto, no escriptorio do _Primeiro de Janeiro_,

cuja redacção permanente era então apenas constituida por duas pessoas,

Francisco Gomes Moniz e eu.

Nós dois faziamos tudo, menos o artigo de fundo, que ia de Lisboa, e era

escripto por Latino Coelho.

Thomaz Ribeiro, tendo chegado ao Porto e entrado na casa Moré, disse ao

gerente da casa, o illustre José Gomes Monteiro, que me queria visitar.

Monteiro, que me estremecia, ficou contentissimo, poz logo o seu chapeu

e subiu, apesar de velho e doente, a rua de Santo Antonio, depois a

ingreme escada da redacção, para me levar Thomaz Ribeiro.

Foi um dos dias felizes da minha vida literaria.

Desde então mantive com Thomaz Ribeiro as mais cordeaes relações de

mutua estima.

As amizades velhas são como o cimento solidificado: não quebram facilmente.

[Ilustração: Retrato de THEOPHILE GAUTIER que pertenceu a Camillo]

Quando elle partiu para o Brasil, a _Mala da Europa_ quiz dar um numero

commemorativo, que chegasse ao Rio de Janeiro no mesmo paquete que o

auctor do _D. Jayme_. Por doença de um dos seus redactores effectivos, o

proprietario do periodico, Delfim Monteiro Guimarães, já hoje fallecido,

precisava de quem lhe fizesse rapidissimamente a maior parte d'esse

numero. Procurou-me, e pediu-me que me encarregasse eu d'essa ardua

tarefa--ardua pela estreiteza do tempo.

Como se tratava de Thomaz Ribeiro, não tive animo de recusar e, durante

quarenta e oito horas, trabalhei afanosamente, tomando café para

espertar-me, conseguindo não faltar ao encargo que acceitei e á palavra

que tinha dado.

Eu sou a pessoa menos competente para escrever um artigo de critica

literaria a respeito da obra de Thomaz Ribeiro.

Vejo-o sempre, apaixonadamente, através de agradaveis recordações da

minha mocidade.

Não sei, não posso vel-o de outro modo.

Dou-me, portanto, como suspeito.

Mas creio que, para a apreciação de um escriptor ou de um artista, os

criticos téem menos auctoridade do que o publico.

Se esse escriptor ou esse artista conquistou a opinião geral, se recebeu

uma consagração nacional, a sua reputação é inabalavel, a despeito do

voto adverso dos criticos.

Ora Thomaz Ribeiro, cujos poemas foram discutidos, tornou-se o mais

popular poeta do seu tempo. Teve a opinião publica fechada na mão;

dominou-a completamente. E, ainda ultimamente, os que queriam ser-lhe

desagradaveis repetindo versos seus, justificavam, sem querer, a sua

popularidade e, sem querer, a propagavam.

Portugal ficará sendo eternamente o--jardim da Europa á beira mar

plantado--verso que tem servido para todos e para tudo que, em bem e

mal, se escreve a respeito do nosso paiz.

A «Conversação preambular» do _D. Jayme_, escripta por Castilho, foi

tida como exageradamente encomiastica para o auctor do poema, e é

realmente discutivel em algumas das suas affirmações.

Mas o enthusiasmo que alvoroçou o espirito reflectido de Castilho adduz

mais uma prova da enorme sensação causada pelo _D. Jayme_, até nos

julgadores de maior competencia profissional.

Apparecia um poema verdadeiramente nacional, portuguez pelo assumpto,

pelos affectos, pela paisagem, pela dicção, pondo de mais a mais em

evidencia a riqueza de metros, de harmonia, de malleabilidade e de côr

que possuia a lingua portugueza.

Sahia inteiramente dos moldes dos poemas antigos, fugindo á oitava-rima,

e dos moldes da revolução romantica, fugindo ao verso branco.

Era o poema lyrico moderno, o romance metrificado, escripto ao sabor

portuguez sobre a vida portugueza, com matiz popular de tradições e

costumes nossos, com vocabulos colhidos no diccionario da

provincia--_fogaça, campeiro, velleiro_--com toda a alma de um povo a

cantar á flôr dos versos e o caracter nacional sobresaindo em alto

relevo no caracter do protogonista:

Entrei, raivando vinganças,

Sahi, jurando perdão.

Comprehende-se que este poema causasse enthusiasmo em todas as regiões

do mundo onde palpitava o sangue e o sentimento portuguez: assim

aconteceu, não só em Portugal, mas tambem no Brazil e na India.

Do _D. Jayme_ nasceram logo outros poemas: Em Lisboa, _Roberto ou a

dominação dos agiotas_, por Manuel Roussado, uma parodia; no Brazil,

_Leonor_, imitação flagrante.

Trinta annos depois, quando Thomaz Ribeiro foi ao Brazil como ministro

de Portugal, ainda lá encontrou o rescaldo do antigo enthusiasmo; e a

sua escolha foi julgada a mais opportuna para reatar as relações que um

ligeiro conflicto tinha interrompido entre os dois paizes irmãos.

Na India portugueza, onde anteriormente estivera como secreterio geral

do governo da provincia, Thomaz Ribeiro foi encontrar admiradores por

toda a parte.

Tenho deante de mim um romance indiano, _Beatriz ou os mysterios da

ultima revolta em Goa_, escripto por Fernando de Goa (certamente

pseudonymo) e publicado em Lisboa no anno de 1885.

No 2.º volume, encontro, entre outras referencias a Thomaz Ribeiro, este

periodo:

«O secretario, aproveitando este ensejo, affastou-se d'ali, metteu-se na

machila e fez-se transportar a Caranzalem, a fim de fazer as suas

visitas ás familias das suas relações que ali se achavam a banhos, e

entreter parte da noite n'uma ou n'outra casa, onde suspiravam pela sua

chegada, para terem o prazer de ouvir uma conversação animada, cheia de

atticismo, de poesia, e ao mesmo tempo recamada das mais brilhantes e

conceituosas phrases.»

A praia de Caranzalem, proxima do Mandovi, n'uma linda enseada a quatro

kilometros da capital, é o balneario aristocratico da India portugueza,

é Cascaes do Oriente.

Em todo o reino de Portugal, na India, no Brazil, em toda a parte onde

se falla a lingua portugueza, Thomaz Ribeiro, por ser o auctor do _D.

Jayme_, encontrava um fervoroso culto de enthusiasmo e adoração.

Era uma justa retribuição da consciencia publica aos sentimentos

patrioticos do poeta, que dedicadamente amou o seu paiz, cantando-lhe as

bellezas e as glorias, no Occidente e no Oriente, e que, no territorio

portuguez, se algum rincão distinguiu com especial affecto, foi o seu

districto natal, Vizeu, e em Vizeu a aldeia garrida onde nascêra, Parada

de Gonta:

Que fresca aldeia formosa

Nas margens do meu Pavia!

Morreu na terra da patria, e n'isso lhe fez Deus a vontade:

meu vergado pomar d'um rico outomno,

sê meu berço final no ultimo somno.

O romantismo, vocabulo que eu apenas acceito convencionalmente como

expressão chronologica para designar determinada época literaria, e não

como caracterisação psychologica d'um estado d'alma, que é commum a

todas as gerações, e, portanto, eterno; o «periodo romantico», ia

dizendo, teve ao menos de grande e nobre o seu amor ao paiz, affirmado

solemnemente na celebração das glorias e das tradições portuguezas,

desde Alexandre Herculano até Thomaz Ribeiro.

Hoje é moda rir de tudo, em prosa e verso, especialmente do paiz.

Literariamente, ainda falta encarar o auctor do _D. Jayme_ sob outro

ponto de vista: como recitador.

Trez homens conheci eu incomparaveis no primor com que sabiam dizer

versos: Castilho, Thomaz Ribeiro e Gonçalves Crespo.

Quanto a Thomaz Ribeiro, sempre me ha de lembrar o que se passou uma

vez, sendo elle ministro do reino, na commissão de instrucção secundaria

da camara dos deputados.

Discutia-se um projecto de reforma do respectivo ensino.

Apenas dois membros da commissão se oppunham tenazmente á resurreiçao do

exame de madureza: eram o sr. José Borges de Faria e eu.

N'essa reunião nocturna, que se effectuou no edificio do governo civil

para maior commodidade de todos, a discussão corrêra violenta e azeda.

Nada se tinha resolvido ainda, quando foi servido o chá, que veiu da

casa Ferrari.

Então, durante essa pausa obrigada, não sei quem se lembrou de pedir a

Thomaz Ribeiro que recitasse _O tear da rainha_.

Elle annuiu promptamente, e tanta impressão causou em todos nós, que

fomos pedindo mais versos.

Assim acabou n'uma doce calma aquella reunião, que tinha corrido agitada.

O projecto chegou a ir ao parlamento, fazendo os dois dissidentes

declaração de voto, mas a reforma não teve execução.

Tambem a titulo de simples recordação lembrarei que sendo Thomaz Ribeiro

ministro da marinha--primeira pasta que geriu--fui eu que, a seu pedido,

entabolei negociações com a livraria Chardron, do Porto, para a

acquisição da propriedade das suas obras.

Quando se escreve de um amigo não ha meio de coordenar as memorias

agradaveis que elle nos deixou; os factos acodem em tropel amontoando-se

numa agglomeração confusa, que exigeria longo tempo e grande esforço de

serenidade para ser dominada.

Não é, poucos mezes depois da morte d'esse amigo, que semelhante

tentativa pode fazer-se para conseguir restabelecer a ordem onde tudo é

ainda desordem da saudade.

Por isso não o consegui eu, nem sequer o tentei.

Os netos de Camillo · 第 15 / 23 题