«o monumento commemorativo da visita de Castilho, «principe da lyra
portugueza», a S. Miguel de Seide, em julho de 1866.»
As relações de amizade entre Camillo e Castilho começaram em 1854, no
Porto. Foi nesse anno e n'aquella cidade que pela primeira vez se
encontraram os dois em casa do Sr. Antonio Bernardo Ferreira, que então
morava na rua da Boavista (casa da familia Garrett) e que organisou em
honra de Castilho um sarau literario. Camillo recitou versos de _Um Livro_.
N'uma carta particular, enviada para Lisboa, dizia Castilho, relatando o
que se passára naquelle sarau: «Camillo Castello-Branco, poeta e
prosador de elevado merito, etc.»
Julio de Castilho, publicando trechos d'esta carta, commenta a
referencia a Camillo dizendo que _essa amizade_, então começada no
Porto, ficou cimentada para sempre. (_O Instituto_, de Coimbra, n.º 9,
vol. 48.º)
Foi Camillo, guia dos meus primeiros passos na vida literaria, quem me
ensinou a amar Castilho.
Costumavam outr'ora as criadas velhas contar ás creanças da casa lindas
historias de reis e principes encantados.
Camillo, que foi de algum modo o meu _niñero_ espiritual, falava-me
muitas vezes de um grande principe das letras, rei das canções lhe
chamou Herculano, protector de poetas, amador da natureza, acariciador
das creanças e propugnador da felicidade do povo pela instrucção e pela
agricultura.
Era Castilho, rei das canções, principe das letras, cego como OEdipo,
o famoso rei de Thebas.
E assim como OEdipo encontrava o braço de sua filha Antigone para
guial-o carinhosamente na cegueira, Castilho tinha nos braços de seus
filhos outros tantos bordões amorosos que o ajudavam a firmar os passos
incertos e vacillantes.
Recebi, pois, de Camillo o amor a Castilho, e de quanto elle o amava dá
eterno testemunho esta encantadora dedicatoria do romance _Agulha em
palheiro_:
_Ao poeta das creanças, das flores, do amor,
da melancholia e dos desgraçados,
ao illustrissimo e excellentissimo senhor
Antonio Feliciano de Castilho,
honra da patria
honra dos que o prezam, e amam a patria
offerece
o amigo, o respeitador, o discipulo mais devedor
Camillo Castello Branco_
Em outro livro, _No Bom Jesus do Monte_, cita Castilho a par de
Lamartine e Victor Hugo, como sendo um nome que dá «á humanidade orgulho
de o proferir».
Durante a _Questão Coimbrã_, nas _Vaidades irritadas e irritantes_ vem á
estacada quebrar lanças pela gloria de Castilho, e escreve: «... o mais
enthusiasta admirador de Castilho, se algum houve que mais que eu lhe
devesse e o amasse...»
Foi assim que Camillo amou Castilho; foi assim que eu aprendi com
Camillo a amar Castilho.