OS NETOS DE CAMILLO

Fui hontem, 20 de agosto, a S. Miguel de Seide fazer uma romagem de

saudade.

Quando Camillo era vivo, sempre que eu vim a Santo Thyrso não deixei

nunca de visitar o grande romancista na sua melancolica Thebaida.

Agora que elle é morto e repousa longe, no cemiterio da Lapa, fui em

peregrinação devota contemplar o tumulo em que viveu e agonisou: a casa

solitaria de Seide, onde cada pedra parece ser um epitaphio que chora

resignadamente por elle no silencio e na mudez de uma aldea minhôta.

Esta casa, a que o proprio Camillo chamou «o albergue arruinado de S.

Miguel de Seide», é uma reliquia historica, um monumento nacional, como

a casa de Shakspeare em Stratford-sur-Avon ou como a casa de Goethe em

Francfort.

É ou deve ser.

Para mim tem o que quer que seja de venerando, como um castello

desmantelado, onde a nossa gente tivesse ganho outr'ora cem victorias

gloriosas, de que eu proprio houvesse sido testemunha...

Sahi de Santo Thyrso ao amanhecer e almocei em Landim.

Devo ao sr. Adriano Trêpa, meu presado amigo, a honra de acompanhar-me.

Vi de passagem a cêrca do antigo mosteiro de Landim, hoje propriedade da

familia Leal e Sousa.

Um filho do dono da casa, o sr. Manuel Vicente Leal, que ia a sahir

n'esse momento, retrocedeu de bom grado para nos servir amavelmente de

cicerone.

Eu, quando viajo, não gosto de fazer prevenções, nem aos outros, nem a

mim proprio. Sou o viajante mais despreoccupado que pode haver;

entrego-me inteiramente ao acaso, e sempre me tenho dado bem com isso.

A cêrca do mosteiro está transformada; poucos vestigios restam ainda do

tempo dos frades. Ha trechos de buxo em algumas ruas, e «o jogo da

bola», que era vulgar nos conventos do sexo masculino, subsiste menos

mal conservado.

As freiras, se cultivavam este jogo, era no plural...

Já posteriores á extincção das ordens religiosas, vi carvalheiras

enormes, medindo de circumferencia mais de quarenta palmos. Uma d'ellas

fôra lascada por um raio, de alto a baixo. Vi tambem, digna de menção,

uma rua de australias, arvores cujo cerne imita o pau preto e é, por

isso, madeira apreciada.

Conversando com o sr. Manuel Vicente, perguntei-lhe se Camillo teria

phantasiado muito a respeito do _Cego de Landim_.

--Nada, absolutamente. Camillo ainda não disse tudo. O «cego» era um

perverso homem.

--E onde morava aqui?

--N'uma casa por detraz d'aquella capella.

Indicou-me a capella de S. Braz, onde todos os annos se realiza uma

pomposa festa, com arraial e feira.

Tambem o sr. Manuel Vicente me indicou o antigo collegio de Landim, em

que foram educados muitos rapazes do Minho, que hoje são honra e brilho

da sua provincia.

O sr. Trêpa e eu fomos almoçar á estalagem do Rodrigues, n'uma varanda

envidraçada, que dava sobre campos emplumados de basto arvoredo.

Notei que Landim é uma terra abundante de alfaiates. Só á porta de uma

casa, vi sete trabalhando ao ar livre; fizeram-me lembrar a historia dos

sete alfaiates lendarios, que foram precisos para matar uma aranha.

Mal acabamos de almoçar, partimos para Seide, onde chegamos perto das

dez horas da manhã. O sol tinha já descoberto; a nevoa, que havia sido

intensa, dissipara-se completamente.

* * * * *

Os meus olhos esperavam avidamente o momento de avistar a casa que fôra

de Camillo.

Tomados de um instinctivo respeito, iamos ambos calados, o sr. Trêpa e eu.

De repente, surgiu-nos o portão ensombrado por duas grandes acácias, que

pendem sobre elle.

--É ali! disse eu.

--É ali! repetiu o sr. Adriano Trêpa.

E, passando respeitosamente por deante do portão, que dá para o largo da

egreja parochial, dirigimo-nos á casa onde actualmente residem os netos

de Camillo, a dois passos de distancia.

Toda a gente se lembra ainda da deploravel questão que, a meu pezar,

sustentei com o visconde de S. Miguel de Seide, segundo-genito de

Camillo, sobre a existencia de uma filha natural do grande romancista,

casada no Porto.

Tive receio de que a recordação d'essa acerba polemica estivesse ainda

muito viva no espirito da sr.ª D. Anna Rosa Corrêa.

Adoptei por isso a precaução de apresentar-me sob o nome que primeiro me

lembrou, ao solicitar o obsequio de ser recebido como admirador

fervoroso de Camillo.

Acolheu-me gentilmente a dona da casa, que immediatamente chamou alguns

de seus filhos, não todos, porque dois d'elles, Camillo e Manuel, tinham

sahido pela manhã.

Notei que por vezes a sr.ª D. Anna Corrêa, mãe d'aquellas creanças

herdeiras de um nome glorioso e de pouco mais, me observava com certa

curiosidade.

Soube comtudo manter-se n'uma discreta reserva, não arriscando duvida

alguma sobre a minha identidade.

Fingiu acreditar que eu era «um Araujo» admirador de Camillo, desejoso

de conhecer os netos do grande romancista e de visitar a casa onde elle

morreu.

Apresentou-me Flora, sua filha mais velha, quinze annos de idade, alta e

elegante como um pinheiro novo, de uma simplicidade de maneiras ao mesmo

passo graciosa e senhoril; e Rachel, quatro annos mais nova, cujo vago

olhar revela morbidez e melancolia.

--Esta menina, disse-me a sr.ª D. Anna Corrêa, era a predilecta da avó.

--Aventuro-me a conjecturar, respondi eu, que o nome de Rachel foi

escolhido por Camillo.

--Isso mesmo... confirmou a minha amavel interlocutora esboçando um

sorriso. Nós queriamos que se chamasse Anna, como a sr.ª viscondessa,

mas o sr. visconde (Camillo) oppoz-se, dizendo que esse nome era infeliz

na familia. Referia-se á sr.ª viscondessa e a mim...

--Rachel, observei eu, exprimia na vida de Camillo a saudade do passado.

Com esse nome foi designada a sr.ª D. Anna Placido em muitos dos versos

amorosos que ella lhe inspirou.

--Exactamente. É verdade.

Apresentou-me depois os restantes filhos que estavam em casa: Nuno e

Simão, em cujas physionomias, doces e intelligentes, prevalece um

accentuado typo de familia.

--Simão, observei eu, tambem foi um nome intencionalmente escolhido.

A sr.ª D. Anna confirmou com um gesto.

--É o do protogonista do _Amôr de perdição_, acrescentei. Oxalá que este

menino seja mais feliz.

* * * * *

Como eu tivesse insistido no desejo de vêr o pequeno Camillo, por saber

que era o neto querido do avô, foram procural-o emquanto conversavamos a

respeito de seus irmãos.

E iamos já a sahir em visita á casa onde o grande Camillo morreu, quando

appareceu o joven Camillo, denunciando um certo ar de extranheza no

olhar suavemente penetrante e perspicaz.

--Este menino, disse-me a sr.ª D. Anna, nasceu a 16 de maio de 1888, no

mesmo dia em que o avô fazia annos. Nos _Amores de Camillo_ vem esta

observação, que é exacta.

Procurei mostrar-me indifferente á citação do meu livro, comquanto me

fosse agradavel a certeza de que a sr.ª D. Anna Corrêa o conhecia e

indicava como fonte auctorisada em minudencias biographicas.

A physionomia do pequeno Camillo é, em verdade, a mais expressiva entre

todos os netos do grande romancista.

Essa creança revela uma luminosa precocidade de intelligencia. Não sendo

robusto, como nenhum dos seus irmãos o é tambem, parece mais debil e

menos expansivo que elles. Tem o que quer que seja de gravidade

prematura quando escuta enconchando a mão sobre a orelha direita, porque

padece de dureza de ouvido, como seu irmão Nuno. Tudo faz esperar que

elle seja o continuador da gloria literaria do avô. Esta convicção

parece estar arreigada no espirito de toda a familia, que a recebeu do

grande romancista, o qual dizia muitas vezes ao pequeno Camillo:

--Se eu tornar a vêr, vou comtigo para Coimbra.

Apezar dos escassos recursos de que a sr.ª D. Anna Corrêa dispõe, julgou

seu dever não se poupar aos maiores sacrificios para iniciar

convenientemente a educação d'este filho.

O pequeno Camillo estuda em Braga, onde vae cursar agora o terceiro anno

do curso geral dos lyceus.

* * * * *

As terras de Seide não podem abastar ao sustento e educação de tão

numerosa prole. Dariam regular passadio para uma ou duas pessoas,

apenas. Mas para educar tantas creanças não chegam. De mais a mais estão

oneradas com um pezado fôro de setenta razas de milho alvo e centeio,

pago annualmente ao abbade, e com os juros de uma hypotheca á

Misericórdia de Villa Nova de Famalicão. São terras sêccas e por isso

pouco fecundas: apenas alli tem maior valor a casa de habitação, que foi

mandada construir pelo visconde de S. Miguel de Seide, e que é muito

superior em capacidade e aspecto áquella em que o grande romancista

viveu e morreu.

A hypotheca abrange tambem este ultimo predio.

A pensão que foi votada pelo parlamento a Camillo Castello Branco,

cessou com a morte de seu filho Jorge.

Portanto os descendentes de Camillo, se lhes não acudir o Estado, como

deve, terão de luctar com as maiores difficuldades para receber educação

condigna do nome illustre que representam.

--Ver-me-hei na necessidade, dizia-me a sr.ª D. Anna, de mandar este

menino (Camillo) para o commercio no Porto ou em Braga, bem como os outros.

E o seu rosto, macerado pelos desgostos e trabalhos da vida, que a

envelheceram prematuramente, cobria-se de uma espessa nuvem de

melancolicas apprehensões.

[Ilustração: FLORA]

--Tenho feito quanto tenho podido, continuou a sr.ª D. Anna, a bem

d'estes meninos, mas não poderei aguentar por muito mais tempo tão

difficil esforço. Flora fez exame de instrucção primaria. Nenhum dos

outros irmãos é analphabeto. Manuel, que não lhe posso apresentar, está

em Landim a dar lição; só recolhe á noite. Nenhum dos meus filhos tem

repugnancia pela instrucção, nem é preciso chamal-os para irem á escola,

sendo Camillo o mais madrugador e estudioso de todos. Triste de mim, se

tiver de lhes dar um destino que não seja o das letras. Mas não posso...

não posso.

Não foi como consolação banal que lhe respondi:

--Não desespere, minha senhora. Portugal é prodigo em conceder pensões,

e este acho eu que será o menor defeito de toda a nossa administração

publica, porque mais vale evitar que alguns portuguezes morram á fome,

do que dar um triste exemplo de ingratidão nacional. Todos nós sabemos

que esta ou aquella pensão é, entre muitas outras, mais explicavel pela

generosidade do que pela justiça. Mas a que se conceder á memoria de

Camillo, na pessoa de seus netos, pelo menos até á maioridade d'elles,

alem de poder ser a mais parcimoniosa de todas, será a mais justa entre

as que a si mesmas se justificam plenamente. Camillo é um d'estes

escriptores que representam uma nacionalidade: a sua obra é a alma de um

povo.

A sr.ª D. Anna enxugou uma lagrima nos seus olhos de um azul muito

claro, tão quebrados pelo soffrimento como o poderiam ser por uma longa

vigilia.

Quantas noites, em verdade, não desvelará esta boa creatura a pensar no

incerto futuro de seis filhos, entregues ao seu heroismo maternal, unica

força que parece vitalisar-lhe o corpo depauperado pela anemia e

envelhecido prematuramente por uma vasta serie de inconfessaveis desgostos!

Depositária de um nome illustre, e de uma das mais solidas glorias

literarias do nosso tempo, que deverá restituir intacta a seus filhos

depois de os ter preparado de modo a saberem continual-a dignamente, a

sua missão é espinhosa e agra, sobretudo se a patria a desamparar, o que

seria um crime affrontoso, e uma ingratidão odiosa.

Os netos de Camillo, vivendo n'um affastado rincão do Minho, entre dois

campos hypothecados, não téem a espreital-os a _reportagem_ dos jornaes,

a vigilancia dos Argus de botequim, nem a attenção dos centros

literarios e aristocraticos. Os montes que os rodeiam, não deixam vel-os

de longe; especialmente de Lisboa. É preciso lembral-os, pol-os deante

dos olhos da patria, e esse é o unico intuito que inspirou a publicação

d'este opusculo.

Dilemma inilludivel: Deixar ao abandono seis creanças, que hão de

perpetuar uma geração illustre, ou protegel-as com uma exigua mealha,

que abastará ás modestas necessidades de pessoas educadas na vida aldeã,

no trato simples de camponezes, e sobriamente habituadas ao caldo verde

do Minho.

Quem deixará sossobrar em tão fragil batel seis creanças desprotegidas,

podendo facilmente salval-as, e com ellas uma das mais authenticas e

genuinas glorias nacionaes?

Ninguem. A consciencia publica é o ultimo alento que morre nos povos que

se deixaram enfermar de leviandades e desacertos continuados. Nós somos

um povo doente d'essa pécha. Mas a consciencia ainda reage por vezes,

brada, impõe-se, faz-se ouvir e attender.

Entreguemos, pois, esta demanda á consciencia publica.

O unico dos netos de Camillo que eu não pude vêr em S. Miguel de Seide,

foi Manuel, o mais novo, nascido em 1893.

O seu nome tambem obedeceu a uma propositada escolha: era o do pae do

grande romancista.

A julgar pelo retrato, parece ser o mais alegre de todos elles,

privilegio que a sua edade, aliás, explica.

* * * * *

Acompanhados pela sr.ª D. Anna Corrêa, dirigimo-nos, o sr. Adriano Trêpa

e eu, para a casa onde morreu Camillo, a qual está actualmente

deshabitada, com excepção do pavimento terreo, que é residencia do caseiro.

Aberto o portão, entramos na sombra de uma latada de alvaroco, cujos

cachos brancos pendiam vagamente doirados por tenues raios de sol, que

as folhas verdes coavam.

Olhei logo para um recanto, á esquerda, onde eu sabia existir o

monumento commemorativo da visita de Castilho, «o principe da lyra

portugueza», a S. Miguel de Seide, em julho de 1866.

Castilho, que partira de Lisboa acompanhado por seu filho Eugenio, tinha

alli, n'aquelle torrão do Minho, uma côrte de letrados, verdadeira

_côrte n'aldeia_, a render-lhe homenagem: compunham-n'a Camillo, Anna

Placido, Thomaz Ribeiro e Vieira de Castro.

A inscripção está quasi apagada, como já se apagou tambem a vida das

pessoas a quem ella se referia. Cresceram hervagens e ramos que

sombriamente afogaram o monumentosinho. Parece um tumulo esquecido na

solidão de um cemiterio.

Recordei então a dedicatoria da _Maria Moysés_ a Thomaz Ribeiro.

Quando eu estava olhando para aquella pedra triste, visinha silenciosa

de uma casa não menos triste, assomou ao portão um individuo, que

desconheci, um velho rijo, de physionomia agradavel, cujo trajo me

denunciou logo o camponez polido.

A sr.ª D. Anna Corrêa apresentou-m'o, pois que o sr. Trêpa já o

conhecia: era o sr. Francisco Corrêa de Carvalho, dedicado amigo de

Camillo, quasi familiar na casa de Seide, e proximo visinho.

Como notasse que eu estava olhando para o monumento, o sr. Carvalho,

muito expansivo, contou logo que um dia, nos ultimos annos da vida de

Camillo, parára um trem ao portão, o que deu rebate de uma visita

inesperada, facto que de longe a longe acontecia.

Camillo preparou-se para receber algum amigo; mas não apparecia ninguem.

Sahiram varias pessoas, entre ellas o sr. Carvalho, a averiguar o

extraordinario caso da carruagem, que parecia ter vindo vasia e parado

ali sem destino.

Então descobriram o vulto de um homem junto ao monumento, e voltado para

elle. Aproximando-se cautelosamente, pé ante pé, reconheceram n'esse

extranho visitante, Thomaz Ribeiro, que chorava, abraçando-se com a pedra.

Chorava memorias do passado, memorias de si mesmo, da sua mocidade

longinqua, de Castilho morto, de Vieira de Castro duas vezes morto,

primeiro no tribunal, depois no tumulo; do filho de Castilho, apodrecido

n'um leito, e de Camillo, ali tão proximo, crucificado no Calvario de

todas as dores reaes e imaginarias que lhe attribularam incessantemente

a existencia.

Fiz reparo em que o sr. Carvalho, chamando de parte o sr. Trêpa, trocára

com elle algumas palavras.

Tive depois a explicação d'este incidente; e o leitor tel-a-ha tambem, a

seu tempo.

Mas, rapidamente, o sr. Carvalho voltou a falar comigo ácerca do

monumento, e do facto que elle memorava: a visita de Castilho a Seide.

--Fez-se aqui, dizia-me o sr. Carvalho, uma linda illuminação. Vieram

cantadores, entre os quaes se distinguiram o _Gallego_ e a _Rosa

Cantadeira_. Castilho mostrou-se admirado com os improvisos do

_Gallego_, sempre espontâneos e, por via de regra, muito maliciosos.

«Quero, dizia Castilho, que me descrevam a cara d'este homem; que pena

tenho de o não vêr! Mas calculo que a sua physionomia ha de ter tanta

expressão como a de um actor comico. Por força!» Nunca mais, concluia o

sr. Carvalho, poderei esquecer essa noite de festa, que foi talvez a

unica noite feliz n'esta casa.

Emquanto o sr. Carvalho discursava com a verbosidade ardente de um

rapaz, poisei os olhos sobre a _acacia do Jorge_, de cujas amplas

frondes cahia uma sombra profunda e saudosa.

E fui repetindo, irreflectidamente, os versos de Camillo:

Quando a acacia do Jorge ainda outra vez inflore,

Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei.

A sr.ª D. Anna Corrêa, encostada n'esse momento ao mainel da escada, que

iamos subir, disse com maviosa expressão de tristeza:

--Tantas vezes tem já florido, depois que elle morreu!

Os netos de Camillo · 第 4 / 23 题