É notavel este facto omittido pelos historiadores, esquecido na
tradição, e consignado nas _Memorias_ colligidas por _Diogo de Paiva de
Andrade_. «D. Rodrigo da Camara, terceiro conde de Villa Franca, foi
preso por culpas de sedomia na inquisição de Lisboa, sendo inquisidor
geral o bispo da Guarda D. Francisco de Castro. Não faltou quem dissesse
que a soberba de um ministro d'aquelle tribunal o culpára ao conde sem
causa; porque tratando o conde de amores uma parenta do dito ministro,
este o avisára que cazasse com ella; e, tendo em resposta que só para
amiga lhe podia servir, lhe castigára o dito com um testemunho. Houve
votos de que sahisse publicamente na procissão do _Auto da fé_; porém, o
principe D. Theodosio embaraçou isto dizendo a D. Francisco de Castro
que, se não mudasse de proposito, deitaria fogo á Inquisição; do que,
sentido o bispo, se travaram de razões, e estas se atearam por maneira
que o principe lhe deu de bofetadas. O certo é que o conde não veiu a
publico, e sahiu em acto particular na sala da Inquisição. Disse-se que
o principe era muito avesso ás baixas manhas do inquisidor, e não
aprovava que el-rei seu pae honrasse com a prelazia o denunciador dos
máus portuguezes que padeceram em 1641.»
D'este principe D. Theodosio que dava bofetadas no Inquisidor-geral
formou o nosso amigo Pinheiro Chagas, na sua valiosissima _Historia de
Portugal_ (tomo VI, pagina 110) conceito muito mais ameno, quando
escreveu: «mancebo ascetico, melancolico e fanatico... dirigindo os seus
estudos em sentido mystico, etc.». Se Diogo de Paiva não desfazia no
genio pacifico do primogenito de D. João IV, a cara do inquisidor-geral,
bispo da Guarda, protesta contra o ascetico fanatismo do principe; e já
o arcebispo de Lisboa protestaria tambem quando o futuro rei lhe fez
chacota da magreza, dizendo-lhe que _só um embalsamado podia trazer-lhe
a noticia de que elle seria principe do outro mundo_, referindo-se ao
Brazil. Era mais _calemburista_ que asceta o irmão de Affonso VI,
quer-nos parecer.