Remechendo com infatigavel curiosidade o archivo das memorias que ha
vinte annos vamos collegindo ácêrca de filhas de bispos e outros coitos
damnados, encontramos um apontamento que dillucida a obscuridade do
manuscripto, e nos declara a ascendencia da menina regeitada por
Domingos Leite Pereira. É o seguinte caso, salva melhor interpretação:
O infante D. Fernando, pai de el-rei D. Manuel, teve uma filha bastarda
que se chamou Leonor. A rainha D. Leonor, mulher de D. João II, e meia
irmã d'aquella menina, levou-a para o paço, e educou-a com esmero e
carinho de irmã. Sahiu a dama muito namoradeira e desatinada, com
immenso dissabor da rainha, que a reprehendeu repetidas vezes
inutilmente. Até que um dia, estando a côrte em Santarem, a irmã colheu
a bastarda de sobresalto galanteando da janella para a rua um cavalleiro
que deu de esporas ao presentir a rainha. Travou-se altercação rija
entre as duas Leonores, rompendo a bastarda no excesso de reguingar que
havia de casar-se com quem muito lhe quadrasse. «Isso não!--replicou a
mulher de D. João II--hasde casar com quem eu muito bem quizer; e hade
ser com o primeiro homem que passar na rua, se fôr solteiro.» N'este
lance, apontou na extrema da rua um homem ordinario, de nome Alvaro
Fernandes, correeiro de officio. Chamou-o a rainha, deu-lhe um dote, e
ordenou ao capellão que os cazasse. Tiveram filhos. O padre Jeronymo
Fernandes, de Santarem, era bisneto da tal casquilha, filha do infante
D. Fernando, e irmã d'el-rei D. Manuel e tambem por tanto bisneto do tal
Fernandes correeiro. O padre allegou e provou a Filippe II que era
terceiro neto do infante D. Fernando, e obteve a mitra do Funchal. Este
devia ser avô da noiva regeitada.