O fidalgo, que assim ameaçou brutalmente uma senhora, foi D. Carlos de
Noronha. Este sujeito havia sido estrenuo cortezão da côrte de Madrid, e
recompensado por Filippe III largamente; porém, como pedisse uma graça
que o rei lhe não concedeu, voltou aggravado para Portugal, e
inscreveu-se entre os conjurados com arrebatado patriotismo. Como a
cobiça fosse o estimulo mais energico dos seus actos, curou de se
enriquecer, litigando a posse dos bens a quem os tinha. Questionou a
casa de Linhares a D. Miguel de Noronha, e perdeu a demanda. (Veja-se a
_Historia Genealogica da Casa Real_, T. 5.º, pagina 270). Em seguida,
como o marquez de Villa Real fosse degolado, demandou a corôa sobre a
successão da casa do sentenciado: perdeu a demanda. (Veja-se a _Historia
Genealogica da Casa Real_, T. 2.º, livro 3.º pagina 521). Como lhe não
rendesse nada o vampirisar nos cadaveres dos justiçados, fez uns
_Estatutos da Ordem de Avis_ em que constituiu visitador geral das ordens
militares de Portugal o presidente da Mesa da Consciencia. Ora, como
elle foi toda a sua vida presidente da referida Mesa, e pelo conseguinte
visitador vitalicio, arranjou por este engenhoso meio traças de se
locupletar, pondo em almoeda as suas concessões. Eis aqui um dos noventa
heroes de 1640! Quem os quizer contar leia a _Historia da
Acclamação_ etc., por Roque Pereira Lobo.