Decorridas algumas semanas, o casamento de Casimiro Bettancourt com sua
prima carnal D. Christina de Nellas era validado pelo nuncio apostolico,
dispensando no parentesco, e saneando a ingnorada irregularidade. A
condessa perfilhava Casimiro para lhe segurar a successão de seus grandes
cabedaes. Casimiro, porém, com quanta delicadeza e respeito a ternura
filial lhe inspirou, disse que só acceitava a perfilhação para ser seu
filho, e não seu herdeiro. Ficou interdicta, e alheia da intenção da
resposta, a condessa. O filho esclareceu assim a propria demencia:
—Minha mãi herdou de seu marido: eu, filho de outro homem, que morreu
pobre, peço licença para ser estranho aos haveres do sr. conde de
Asinhoso. Eu sou filho de D. Eugenia de Nellas. Minha mãi ainda tem a sua
legitima n’esta casa de Pinhel. Essa acceito-a como dote para egualar o
patrimonio de minha mulher.
—Pois sim, filho, faça-se a tua vontade—disse a condessa.—Por minha
morte ficarás agricultando algumas geiras de terra em Pinhel, que valerão
doze mil cruzados. Ficarás sendo um lavrador dos menos abastados da
comarca. Minha sobrinha Guiomar virá senhorear-se do vinculo e da casa
que é vinculada. Tu com tua mulher e filhos irás viver no casal da
Rechousa, ou n’outro semelhante, que ameaçam ruina.
—As paredes abaladas especam-se, minha querida mãi; a dignidade aluida é
que nunca mais se repara. Eu amo a mediania, que é o refugio da paz. As
lições da vida deu-m’as o lavrador de Villa Cova. Minha mãi prometteu-me
ir ver de perto a casa de entre serras, aquelle abrigo de honrados e de
santos. Venha commigo alli estar uns dias, e v. ex.ª olhando d’alli para
o céu, dirá: «se ha paraizo na terra, se ha bem no mundo, é aqui».
—Iremos, filho: eu tambem o desejo. Já estou convidada para ser madrinha
do segundo filho de Ladislau. Bem vês que ando a cuidar-lhe do enxoval.
E, logo na semana seguinte, partiram todos para Villa Cova, e as meninas
solteiras de Pinhel tambem.
Quem é este homem de jaqueta de panno azul e colete encarnado, e chapeu
braguez que vai a pé, ao lado da egua em que monta a condessa?
É mestre Antonio—o carpinteiro.—Alli vai conversando em obras, que é
preciso fazer aqui e acolá, nas casas arruinadas do fidalgo. A condessa
trabalha por tirar este homem do officio: offerece-lhe dinheiro para
erguer casa, e comprar bens. Mestre Antonio responde:
—Fidalga, grande nau grande tormenta! Deixe-me cá com a minha vida que
vou bem assim. Meu filho brazileiro manda-me duzentos mil réis cada anno,
e eu, a fallar verdade a v. ex.ª, tenho-os alli para uma gaveta, sem
saber de que me servem. A minha alegria é o trabalho. Em pegando dous
dias-santos, ando como tolo sem saber em que hei de gastar o tempo.
—Mas gaste-o em trabalhar nos seus bens.
—Nos meus bens trabalho eu, sr.ª condessa. Logo que me pagam o serviço,
alguma cousa tenho dos bens em que trabalho.
* * * * *
Ficarás, por tanto, carpinteiro, honrado homem, mas homem honrado, toda a
tua vida!
* * * * *
Custa a caber tanta gente na casa de Villa Cova! Armam-se leitos de
bancos nos cazarões das tulhas. O quarto solemne dos padres é consignado
ao fidalgo. A condessa occupa o de Peregrina. Que feliz barafunda alli
vai! Os creados vem carregados de caça dos montes. O fidalgo quer ir á
cosinha fazer umas troixas de ovos, cuja receita lhe deram os anjos. A
condessa anda lá pelos campos a correr atraz da nétinha. As irmãs de
Christina sobem á lapa da Crasta e entram de lá a berrar que lhes acudam,
que as comem os lobos. O capellão da condessa, acertando de encontrar na
livraria dos padres Militões as cartas manuscriptas de fr. Bartholomeu
dos Martyres, persegue toda a gente para que lhe ouçam ler as cartas e os
commentarios soporiferos d’elle.
Quem mais o atura é Casimiro que foge do bulicio para a livraria defeza
ás corrimaças das cunhadas.
Chega o dia do baptisado, e n’esse dia apparece inesperado em Villa Cova
um tabellião de Pinhel, a rôgo da sr.ª condessa de Asinhoso. Lavra-se uma
escriptura. É uma doação que faz a mãe de Casimiro ao seu afilhado Ruy,
filho de Ladislau. Dôa-lhe quinze mil cruzados em inscripções nos Bancos
de Portugal, em virtude dos muitos e impagaveis favores que devia a seus
pais.
Casimiro abraça sua mãi, e exclama:
—A virtude é engenhosa, minha querida amiga!
Os pais do menino beijam-lhe a mão, e Ladislau diz:
—Com a condição de que meu filho conservará o deposito como patrimonio
dos desgraçados: mande v. ex.ª escrever esta clausula na escriptura.
—Ladislau—disse a condessa—já lh’a deve ter escripta no coração.
* * * * *
Alli se detiveram trinta dias. De Pinhel, em cada semana, vinham cargas
de viveres. Ladislau sentia-se, e o fidalgo respondia:
—Isto é para o capellão da mana condessa, que lê muito as cartas do
fr. Bartholomeu; chora de enthusiasmo; mas não o imita na temperança.
Seria capaz de engulir o santo, o bom do egresso, se o pilhasse! Sem
este contrapeso de vitualhas, amigo Ladislau, eramos todos victimas
da gulodice do padre. Vamos lançando estes bocados ao Acheronte, que
promette, ao contrario do outro, levar-nos para o céu, se não adormecer
no meio do caminho.
A alegria dava graça ao velho, que, em geral, era semsaborão.
Na volta para Pinhel trouxeram comsigo a familia de Villa Cova, salvo o
vigario que voltou ao amor do seu rebanho.
Sahiu para Lisboa o capellão da condessa com ordens ao procurador para
vender o palacio, os trens, os primores da Asia, que opulentavam a triste
vivenda da viuva. Triste, sem um amigo, como ella dizia. Ao mesmo tempo,
o egresso cumpriu outras ordens com referencia ao ministro da justiça.
Ultimado tudo, voltou o padre a Pinhel: ia reloucado de prazer, porque,
á ultima hora, soubera que fôra nomeado conego da patriarchal. Beijou as
mãos á condessa.
—Vá—disse-lhe ella sorrindo—vá imitar na pobreza ecclesiastica o seu
predilecto Bartholomeu dos Martyres.
Na mesma data era nomeado conego da sé da Guarda o padre João Ferreira.
O vigario, avisado na sua pobre parochia, foi a Pinhel, depositou a mercê
nas mãos da condessa, e disse:
—Perdoe-me v. ex.ª a recusa: eu não posso separar-me de minha mãe e
cunhado. V. ex.ª não quer que eu me deixe alli viver á sombra das
virtudes dos padres de Villa Cova.
—Eis aqui um padre novo, que destôa das doutrinas do meu velho
capellão!—disse a condessa—Pois sim, padre João, vá para o seu
presbyterio, e venha ver-me muita vez, e tome á sua conta a minha velhice.
Christina contou a sua tia e sogra os menores incidentes do seu namôro, e
mostrou-lhe o José-pastor que tão util e leal lhe fôra.
Chamou a fidalga José-pastor e mandou-lhe que dissesse a razão por que
fizéra aquelles serviços ao sr. Casimiro e á menina.
O rapaz respondeu:
—Era toda a gente contra elles, e eu disse cá c’os meus botões: ora deixa
estar que eu vos dou nas ventas para traz.
—E nunca te deram nada?
—Elles que me haviam de dar, fidalga??
—Então fazias tudo sem interesse?
—O que eu queria era vel-os casados. A menina estava lá em cima fechada
a chorar, e o sr. Casimiro andava lá por longe escondido... fizeram-me
muita pena! Foi o que foi.
—Queres tu ser padre?—perguntou a condessa.
—Padre?!
—Sim.
—Não, senhora. Antes queria ser sargento.
—Sargento!... mas tu és muito rapaz ainda para assentar praça.
—Posso assentar praça de tambor, que os tambores são do meu tamanho.
—És tolo, rapaz! Queres tu estudar para depois ser official?
—Eu já sei ler, que me ensinou o sr. Casimiro.
—Pois sim; mas agora vais aprender outras coisas para Lisboa.
—E leva-se lá bordoada de cego?
—Não, patarata, ninguem lá te bate.
—Então, se a fidalga quer, e o fidalgo deixar, vou.
E foi para a Polytechnica de Lisboa, com recommendação da condessa.
D. Sueiro de Aguilar teve noticia d’estes successos estupendos. Sentiu
guinadas de fazer as pases com a familia de Villa-Cova, e por um cabello
se não descobre n’esta extrema de despejo. Guiomar ainda escreveu a sua
tia, cumprimentando-a pela sua chegada. A condessa respondeu: «agradeço o
cumprimento de minha sobrinha, e faço votos pela sua felicidade.»
Esta sequidão irritou D. Sueiro, que se desentranhou em apostrophes
contra a canalha de Pinhel. A tia de sua mulher foi exposta á irrisão dos
seus hospedes, na presença da sobrinha. Repetiram-se os vilipendiosos
amores que deram o filho natural, sobrinho do carpinteiro. Desde este
facto, D. Guiomar odiou o marido, cuja hediondez de caracter só podia ser
avantajada por D. Alexandre.
Tratou a condessa de casar suas sobrinhas, com auxilio dos seus haveres.
Accorreram pretendentes das duas provincias contiguas, e casaram
todas com morgados, homens de bem, vaidosos de seus appellidos, mas
inoffensivos, e virtuosos mesmo por vaidade de imitarem seus avoengos.
As senhoras dispersas por aquelles palacetes solarengos reuniam-se em
casa de seu pai, nas festas do anno, nos natalicios, e no anniversario do
casamento de Casimiro. Esta clausula fôra instituida pela condessa.
A tiro de peça de Pinhel, existiam uns casebres derrocados, onde nascera,
segundo informações de mestre Antonio, seu cunhado Duarte Bettancourt,
filho de um soldado da ilha de S. Miguel, que ficára na metropole, e
alli estabelecera uma tenda. Comprou a condessa estes pardieiros aos
possuidores, e mandou-os arrazar, e sobre elles edificar um obelisco
cintado por grossa cantaria, com portas de ferro. Ia todos os dias ver a
obra, que durou um anno, com os melhores alveneis da provincia. Concluido
o obelisco, foi entalhada na base uma lamina de ferro com esta legenda:
Á MEMORIA
DE
DUARTE BETTANCOURT
MORTO NO SEU POSTO DE HONRA
EM 1834
MANDOU ERIGIR SEU FILHO
CASIMIRO BETTANCOURT
EM 1843
Ruy de Nellas, lá muito no seu interior, não gostou da lembrança. Era a
natureza a puchar por elle.
N’este tempo, teve a condessa uma hora de muitas lagrimas.
Casimiro, de proposito e por veneração, nunca lhe mostrára duas cartas,
que conservava entre os papeis de seu pai, assignadas pela inicial _E._
N’uma tarde, como estivessem sentados na base da columna, Casimiro tirou
da carteira dous papeis dobrados e amarellecidos.
—Que é isso, filho?
—Veja, minha mãi:
Abriu ella, e exclamou:
—É minha a letra! Como possues isto?!
—Minha mãi já deve saber como as possuo.
A condessa leu soluçante, e beijou aquelle papel, que estivera nas mãos
de Duarte. Leu a segunda, e, em meio da pagina, susteve-se afogada de
ancias e lagrimas.
Casimiro arrependeu-se da indiscripção, e acariciou-a, pedindo-lhe, pela
memoria de seu pai, que vencesse a sua dor.
Era este o contheudo da primeira carta:
«Não soffras, D.—Conta com o meu valor. Parece-me que vou ser arrebatada
para uma quinta do tio. Não sei qual. Eu te avisarei a preço de tudo. O
mais que podem é matar-me meus irmãos. A minha alma irá identificar-se
á tua: viverei sempre comtigo na terra, e amando-te de um mundo melhor.
Socega, meu amigo. Se Deus vê a nossa innocente paixão, elle nos
protegerá. Se não ha Deus para nós, seremos um para o outro. Tua, _E._»
Esta carta devia ter sido escripta antes da ida para Camarate.
A segunda dizia:
«É horrivel esta oppressão! Tenho medo de morrer abafada pela angustia.
Vem, approxima-te, dá-me alentos, se não prefiro antecipar a morte. Ai!
que soledade! que abandono n’esta hora! Vem, vem, D., que eu queria
ver-te antes de morrer! _E._»
Presume-se que esta ultima carta foi escripta de Recaldim para Torres
Novas, quando Duarte desceu de Bragança, a receber das mãos de Brites
aquella creança, que alli está agora, homem, com o rosto de sua mãi
apertado ao seio.
Em seguida áquelle trance, a condessa acamou, e teve febre por longos
dias. A presença do filho, magro, livido, triste como quem pede a
primasia na morte ao lado de um enfermo em perigo, abrazou-a em supplicas
ferverosas a Deus, pedindo a vida. Declinaram as febres, volveram
esperanças e saude, e continuou o hymno de graças ao Senhor, entoado por
aquellas duas familias que rodeavam o leito de Eugenia.
Segura a convalescença, a condessa, prevendo que, por morte de seu irmão,
a casa de Pinhel passaria á successora do vinculo, cuidou em construir um
palacete em nome de Christina.
Casimiro objectou que d’aquelle modo passava a seus filhos a casa do
conde de Asinhoso.
A mãi respondeu:
—Quererás tu privar-me que eu beneficie minha sobrinha? Isto não tem
nada que ver comtigo, Casimiro! As demazias da dignidade são uma
impertinencia.