O julgamento

Ao cabo de cincoenta dias estava o processo prompto para entrar em

julgamento. Dominava em Coimbra a opinião de ser inevitavelmente

condemnado Casimiro de Bettancourt. A innocencia que algumas pessoas

apregoavam, era em geral recebida, a riso, como um paradoxo.

A alma de Christina confrangia-se, e os labios sorriam ainda. Era ella

só quem ainda simulava esperanças; mas que supplicios surdos lhe custava

dissimulação!

Ladislau e o vigario em vão queriam imital-a. A sua tristeza era como

as trevas do cego que não se allumiam ao tremor convulso da palpebra.

Queriam esperançar-se e de toda a parte lhes soava como irremediavel

a sentença. Rosnava-se em compra de jurados: não era preciso arguir

ao suborno a condemnação. Casimiro estava sem defeza: o seu silencio

impressionava favoravelmente as almas distinctas; o vulgacho, porém,

que havia de julgar das provas, daria importancia nulla á mudez do

réu. Os protectores de D. Alexandre eram os mais graudos fidalgos de

Coimbra e cercanias. Por Casimiro Bettancourt ninguem pedia. O padre e o

cunhado, reduziam-se a promover o andamento rapido do processo, pagando

liberalmente as despezas e actividade do procurador. Isto era bastante;

mas faltava muito.

Ruy de Nellas affligia-se a cada nova carta desanimadora que recebia;

entretanto, a solução favoravel em Lisboa era um respiradouro para elle e

para os poucos amigos do preso.

Designado o dia do julgamento, o pai de Christina escreveu a sua irmã,

contando-lhe os pormenores do casamento da filha, as desventuras do

genro, a sua innocencia no crime assacado, a indefeza pertinaz em que se

pozera, o mysterio do homicidio, a certeza de que o silencio de Casimiro

Bettancourt era um heroismo de honra, talvez novo. Rematava pedindo á

condessa de Asinhoso, que patrocinasse em Lisboa sua sobrinha, que era

mãe e esposa extremosa.

Na ante-vespera da audiencia, travaram desordem uma malta de academicos

richosos com as patrulhas nocturnas. Alguns estudantes retiraram feridos,

e invocaram Guilherme Lira, em nome da honra academica. O chefe da

Sociedade da Manta respondeu que n’uma das proximas noutes, seria vingada

a academia.

No dia immediato entrou Guilherme no escriptorio de um tabellião, e pediu

meia folha de papel sellado. Assignou-se no fundo da lauda, e fez que o

notario lhe reconhecesse a assignatura.

Recolheu a casa, e deteve-se algum espaço, escrevendo no branco da

folha assignada e reconhecida. Fechou em fórma de officio, lacrou, e

escreveu algumas palavras no involucro. Depois fez algumas cartas: uma

subscriptada a D. Joaquina Soares de Lira, sua mãi, residente em Evora;

outra a sua irmã, casada em Extremoz; e ainda uma terceira brevissima,

dirigida a uma senhora, que tinha o segredo da ferocidade d’aquelle

homem. Terminava assim: «Não te cito para o céu nem para o inferno.

Chamo-te diante do teu proprio remorso. Viste-me um anjo aos dezoito

annos; e fizeste de mim isto que sou. Não te accuso: lá tens dentro

d’alma o teu algoz. É tempo de acabar.»

Deitou a carta na caixa postal, e foi á cadeia, segundo o seu costume

quotidiano, vêr Casimiro. Eram quatro horas da tarde. Estava o jantar na

meza. Guilherme sentou-se ao lado de Christina, e comeu com appetencia.

De uma vez inclinou-se ao ouvido da senhora e disse-lhe:

—Ámanhã já v. ex.ª janta em sua casa com seu marido...

Christina soltou um brado de alegria.

—Que é?!—inquiriram todos.

Guilherme fitou-a e descahiu as palpebras.

Era impôr-lhe silencio, e ella abafou a revelação, que lhe crispava

nervosamente os labios, e arquejava o seio.

Esperaram, brevemente a resposta com anciedade. Christina fitou os olhos

supplicantes no academico, e elle, erguendo-se, disse:

—Póde fallar, minha senhora, d’aqui a instantes.

E abraçou Casimiro, beijando-o nas faces ambas; abraçou Christina

osculando-lhe a fronte; apertou affectuosamente as mãos de Peregrina,

Ladislau e padre João; affagou as duas creancinhas, e sahiu de golpe.

Casimiro chamou-o com vehemencia, e elle não voltou.

Referiu Christina o que lhe ouvira. Casimiro concentrou-se, pensou alguns

minutos, e disse:

—Não mentiu. Ámanhã jantaremos em liberdade.

Pediram-lhe o sentido das palavras do academico.

Bettancourt respondeu:

—Ámanhã.

Notaram todos que a tarde e noute d’aquelle dia foram as mais tristes

horas de Casimiro na sua prisão de dous mezes. E, comtudo, Christina

escondia o seu contentamento.

Eram dez horas da noute, quando Casimiro ouviu grande grita e o estrondo

de alguns tiros. Estava já sósinho, passeando febrilmente na saleta, e

disse entre si:

—É agora.

O alarido e o tiroteio continuaram.

Collou o ouvido ás portadas da janella, e ouviu dizer na rua:

—Mataram o Lira.

Meia hora depois recahiu tudo em silencio quebrado pelas passadas

das patrulhas em tresdobro. E o carcereiro bateu de manso á porta de

Casimiro, e disse:

—Dorme?

—Não. Póde entrar.

—Vou contar-lhe o que vai. O seu amigo Lira espancou as patrulhas, que

encontrou desde o bairro alto até á rua do Coruche. A Sociedade da Manta

appareceu em armas, atacou reforço, que sahiu do quartel. Quando ia

retirando para o Monte Arroio a estudantada debaixo de fogo, o Lira ficou

atraz, sem arma nenhuma, a não ser o varapau de choupa que mettia a peito

dos soldados. Tinha elle recuado até ás grades de Santa Cruz, quando

cahiu morto com uma bala atravessada de fonte a fonte. Meu filho vem

de observar. Faz dó ver um homem tão valente assim morto como se mata

qualquer poltrão!...

—Obrigado á sua noticia.

—O sr. ficou triste devéras!—tornou o carcereiro—Tem razão, que elle era

seu amigo d’uma vez!... Boas noites, sr. Bettancourt. Ámanhã é o dia da

grande batalha, espero em Deus que...

O carcereiro tão certo estava da condemnação, que não ousou concluir a

phrase da esperança em Deus.

Mal se abriram as portas da cadeia, entraram Christina e os amigos a

contarem o successo. A justiça ia tomar conta do espolio do morto.

Coimbra estava agitada de terror. Esperava-se grande lucta da academia

com a tropa no acto do enterro de Guilherme. Suppunha o padre que se não

abrisse o tribunal, para obviar o azo da desordem. Contou Ladislau que

o estudante, na vespera, tinha ido reconhecer a sua assignatura a um

tabellião. Christina, que tudo sabia, esperava que seu marido fosse salvo

por uma declaração de Guilherme. Eram, porém, nove horas, e não apparecia

alvará de soltura, nem contra ordem de julgamento.

Ás dez horas chegou o official de juizo para acompanhar o réu ao tribunal.

Logo á sahida do carcere, ouviu Casimiro dizer:

—É preciso ir acabando com os assassinos. Um já lá vai: este não tarda;

os outros hão de ir quando lhes chegar a vez.

Quem tão sisudamente discreteava era o cidadão honesto da Couraça dos

Apostolos, em cuja cabeça Guilherme deixára um signal inutil para a

morigeração da pessoa.

Sentou-se Casimiro no banco dos réus. Christina, Peregrina, o padre e

Ladislau ficaram fóra da teia. D. Alexandre de Aguilar, como parte,

sentára-se entre o seu advogado e o representante do ministerio publico.

Na acareação de author e réu, perguntado o primeiro se reconhecia em

Casimiro Bettancourt o sujeito que espancára, o fidalgo respondeu:

—Não podia ser outro.

—Pergunto a v. ex.ª se é aquelle e não se podia ser outro—replicou o juiz.

—É aquelle.

Sahiram a depor as testemunhas de accusação. Eram concordes em dizer que

viram entrar na casa do réo o sujeito que matára um homem, e deixára

outro estendido. Recordaram todas as precedentes aggressões que o réu

fizera contra o author, já no botequim da rua Larga, já na ponte. O

cidadão honesto sobreexcedeu a má vontade das demais testemunhas, dizendo

que o réu era sujeito de tão máus costumes que roubára uma filha a um

fidalgo seu bemfeitor, e com a filha roubára as joias da familia.

—Esse infame está a mentir!—exclamou Christina.

Casimiro voltou-se para o lado onde estava sua mulher, e encarou-a fito,

com severo olhar.

O juiz disse:

—A senhora não pode aqui fallar.

—O que ella diz não se escreve—accrescentou a faceta testemunha, sorrindo

do alto da sua probidade.

—Querello da testemunha—disse o advogado do réu.

—Eu não querello da testemunha—emendou Casimiro.

—Em tempo competente resolverão—admoestou o juiz.

Convergiram todos os olhares sobre Casimiro.

Um dos jurados disse:

—Eu já não condemno aquelle homem!

—Porquê?!—perguntou o visinho.

—Aquelle homem está innocente ou é doudo.

—Qual doudo? aquillo é um grande farcista! Elle não querella da

testemunha, porque sabe que roubou as joias.

Terminou o depoimento de accusação por parte do author e do ministerio

publico.

Esperava-se por testemunhas de defeza: o escrivão disse que não estavam

inscriptas nenhumas.

—É doudo ou não?—disse o jurado bem intencionado.

—Qual doudo? replicou o outro.—É tão patife que não tem quem o defenda.

Ia levantar-se o patrono de D. Alexandre, quando o administrador do

concelho entrou na sala do tribunal, e entregou ao advogado do réo uma

carta em fórma de officio.

O orador, que já tinha dito: «Srs. jurados!» suspendeu-se.

O patrono do réo leu uma meia folha de papel, e disse, em pé, com os

cabellos hirtos:

—Sr. doutor juiz de direito, v. ex.ª me dirá se o debate deve continuar,

depois de ler a declaração que remetto á consideração de v. ex.ª.

Machinalmente ergueram-se todos, auditorio, e jurados.

O juiz leu mentalmente, e passou o papel ao delegado. Trocaram breves

palavras, e deram ao official de justiça o papel.

—Leia o sr. advogado do réo—disse o juiz.—Eu por mim intendo que terminou

o debate.

—Sou de egual parecer!—ajuntou o ministerio publico.

O advogado de Casimiro, limpando as camarinhas do suor, leu com voz

tremente de alegria e commoção d’alma:

«Declaro eu Guilherme de Noronha e Lira, estudante do 5.º anno

de direito, que fui eu quem matou, na noute de 16 de janeiro do

corrente anno de 1840, um creado de D. Alexandre de Aguilar,

e empreguei os meios de matar tambem o amo. Não tinha contra

algum d’elles motivo de odio pessoal; mas, como inimigo jurado

de poltrões covardes, e sabendo eu que elles espreitavam

ensejo de matar Casimiro de Bettancourt, mancebo tão honrado

como valente, protestei livral-o de tão miseraveis inimigos,

atacando-os sósinho e sem mais arma que um páu de choupa, no

momento em que elles tinham arrombado a porta de Casimiro

para o irem matar entre sua mulher e sua filhinha d’um anno.

Declaro mais que fui eu quem afugentou a companhia, postada

ás portas de Casimiro na intenção de o arrancar ás garras

da justiça; mas o meu amigo não quiz fugir, assegurando-me

que se havia de salvar sem pôr em risco a minha segurança. E

por tanto, resolvido a acabar com a vida, poucas horas antes

de me deixar matar, faço esta declaração, e peço a Casimiro

Bettancourt perdão de o ter infelicitado, quando cuidava que

o beneficiava com o meu zêlo guardador da sua preciosa vida.

Peço tambem perdão da inexplicavel fraqueza que me tolheu de

eu ter feito esta declaração desde o momento que o meu amigo

entrou no carcere. Eu sei que elle me perdoou; mas volto as

minhas supplicas para a esposa attribulada, que tantas vezes,

com um sorriso de amiga, devia execrar o causador das suas

calamidades! Faço esta declaração debaixo dos olhos de Deus,

e juro pela virtude de minha mãi que é verdade o que digo, e

será infame quem me não acreditar. Coimbra 19 de março de 1840.

_Guilherme de Noronha e Lira_».

D. Christina perdêra o alento nos braços de Peregrina. Muitos academicos

romperam de salto a teia, e vieram parar no meio da sala. O advogado

do réu, esquecido das praxes, foi abraçar o cliente, que parecia dar

levemente conta da agitação do auditorio, e applicava o ouvido aos

soluços da esposa. Os jurados limpavam as lagrimas, excepto um que

tinha recebido uns vinte mil réis de D. Alexandre. O fidalgo-autor

acachapara-se de modo, que parecia querer sumir-se debaixo da meza. O

seu advogado lia a declaração, e carecia de coragem para impugnar-lhe a

validade. O juiz dizia ao delegado:

—Deviamos esperar isto, ou cousa semelhante. Este homem, sem provar nada,

tinha provado a sua innocencia.

E o delegado confirmava:

—Eu espero a minha vez de abraçal-o!

O cidadão honesto da Couraça dos Apostolos ia a sahir, quando Casimiro,

que parecia absorto, disse:

—Sr. juiz, peço a v. ex.ª a graça de ordenar áquella testemunha, que se

demore um instante.

—Quer querellar!—bradou o patrono.

—Não quero querellar—acudiu Casimiro, desabotoando uma carteira, d’onde

tirou um papel, e accrescentou:

—Disse a testemunha que eu roubára as joias da familia de minha mulher. A

testemunha faltou á verdade. Peço licença para ler, e offerecer ao exame

das pessoas, que me escutam, a seguinte declaração de meu sogro «Ruy de

Nellas Gamboa de Barbedo, de Pinhel, declaro que minha filha Christina

Elisiaria não subtrahiu de minha casa valor algum, nem os seus proprios

vestidos e adresses, quando fugiu para casar com Casimiro Bettancourt.

E por isto ser verdade, mui espontaneamente, e com juramento aos Santos

Evangelhos o declaro agora e sempre. Pinhel 22 de abril de 1839. _Ruy de

Nellas_, etc.»

—Meu sogro está vivo para confirmar esta declaração.

—Confirmo!—bradou uma voz d’entre as turbas comprimidas na teia. E logo

um gentil ancião de veneraveis cans, e nobre aspeito, com as faces

arregoadas de lagrimas, entrou na clareira que a multidão lhe abria, e

chegou á beira de Casimiro, e repetiu com a voz quebrada de soluços:

—Confirmo! confirmo! honrado moço, meu filho amado!

E abraçou-se n’elle, e logo na filha, que se lhe lançou aos pés, e em

Ladislau e no padre, e na irmã, e em todos quantos vinham com olhos

humidos, porque alli quantos choravam, e choravam todos, elle adoptava

como amigos, como quinhoeiros da sua alegria!

Que momentos aquelles! Aquelle jubilo febril não matou, porque era santo,

porque a Providencia divina se comprazia em contemplal-o!

O Bem e o Mal: Romance · 第 45 / 54 题