D. Eugenia escreveu o que dictava Brites:

«Minha sobrinha. Logo que esta receberes, sem demora de tempo, vai tu

mesma em pessoa pessoalmente...»

* * * * *

—Onde é que ella ha de ir levar a carta?—perguntou Brites.

—Ao quartel de cavalleria a Alcantara.

—Escreva, meu serafim:

«Vai ao quartel de cavalleria a Alcantara, e entrega o bilhete,

que vai dentro d’esta, á pessoa que lá diz por fóra...»

—Eu—interrompeu-se Brites atacada de modestia—não tenho muito geito para

notar cartas; mas o que a gente quer é que nos entendam.

—Vai muito bem—disse Eugenia.

—Pois ponha lá:

«Toma conta que a não vás entregar a outra pessoa; e da resposta que

houver escreve-me para Torres Novas. Sem mais enfado, tracta d’isto como

coisa de muita... de muita...»

* * * * *

—Ponha lá a menina uma palavra, que diga... sim... que diga que é cousa

de muita aquella.

—De muita consideração.

—Isso mesmo.

Eugenia sobrescritou á sr.ª Apollinaria dos Martyres, na calçada dos

Barbadinhos, n.º 21—quinto andar á esquerda.

A irmã de Ruy de Nellas abraçou-se na ama de sua mãi, e clamou:

—Cuidei que estava mais desamparada. Ha almas boas em toda a parte,

louvado seja o Altissimo!

—_Amen_—respondeu christãmente a sr.ª Brites, e foi á cosinha, onde o

bolieiro estava jantando para voltar com a caleça ao fim da tarde.

—Vm.ᶜᵉ faz-me o favor de entregar em Lisboa uma carta á minha sobrinha?

Aqui vae o nome e a rua. Se lhe não custa...—disse a velha.

—Não me custa nada, tia Brites; mas dobre-me a porção de vinho.

—Ahi vai, homem. Beba; mas não desatreme, nem me perca a minha cartinha.

—Fique certa, que de hoje a tres dias por estas horas, já está nas mãos

da dita supplicanta. Diz ella tudo pelo claro nas costas?

—Vai tudo pelo claro.

—Então, metta-m’a ahi no bolso da jaqueta, e carregue-me o copo.

Foi a carta entregue á sr. Apollinaria, e o bilhete ao alferes de

cavalleria, o qual, segundo veridicas informações da engommadeira da rua

dos Barbadinhos, chorou, e vasou as algibeiras nas mãos tolerantes da

sr.ª Apollinaria.

Escreveu o alferes uma longa carta a D. Eugenia. Principiava contando

a descarga de dous tiros inuteis que lhe déram. Disse não conhecer as

pessoas, que lhe atiraram, por virem rebuçadas, e estar ainda a limpar

a manhã. Contou que o não feriram; mas suppunha elle ter sido mais

certeiro na pontaria. Acrescentava que ia ser removido para Bragança, por

intrigas e influencia dos irmãos de Eugenia; e declarava-se, a final tão

desgraçado e desprovido de recursos, que não podia ir arrebatal-a das

mãos da sua cruel familia, sem desertar, e collocar-se na precisão de ir

perecer de miseria com ella em reino estrangeiro. Pedia-lhe, em summa de

tudo, animo, e esperança.

Leu Eugenia a carta com profundo desgosto.

«Não me terá elle amor?!»—disse ella entre si.

Viu-a chorar a devotada Brites, e pediu-lhe o favor de lhe ler a carta.

Quiz ouvil-a segunda e terceira vez. Consolidou as suas convicções com

uma pitada e disse:

—Esse rapaz, quem quer que elle seja, tem tino na cabeça, e pensa bem. A

menina por que chora?

—Nem sequer falla em vir vêr-me!...

—Pois se o pobre homem vai de marcha lá para cascos de rolhas, como quer

a fidalga que elle deserte ás bandeiras, e venha aqui? E depois? que

seria d’elle? e a sorte da minha flor do céu, era muito melhor!?...

Pudéram muito com D. Eugenia as razões de Brites, e mais ainda a promessa

de tomar a velha á sua conta a correspondencia segura entre Bragança e

Torres Novas.

Era chegado o momento de uma confidencia, que tem sido o balsamo de

piedade em coração de pais lacerados, pela ira e pela deshonra: não será

muito que o leitor, invocado a julgal-o O BEM E O MAL d’esta serie de

biographias, dê sua piedade á desventura culpada, assim como tem dado

suas bençãos á virtude sem nodoa. Ha crimes repulsivos; o engenho mais

abalisado, a philosophia mais bem fingida, sob capa de verdade, tenta

em balde mover-nos á compaixão do delinquente, em quanto o retalhar do

remorso o não fez delir com lagrimas o stygma que a moral lhe assignalou:

outros crimes, porém, são de si, e por vontade divina, sympathicos não

direi; mas, se a ré se pranteia, e se olha em seu seio, e exclama: «Ó

meu Deus! hei de eu espedaçar em respeito ao mundo este filho, que é

o meu amor e o meu opprobrio?... hei de eu abafar o grito da minha

consciencia e coração, para que o mundo me veja um rosto limpo, um rosto

lavado no sangue do meu filho?...» Quando a mulher assim falla a Deus,

a misericordia divina dá-lhe um anteparo contra as injurias do mundo; e

o mundo, se lhe adivinha as dôres, e o mimo d’aquella paixão, á qual só

falta um sacramento para ser santa, o mundo perdoa-lhe, embora a repulse

do contacto das almas candidas, das suas filhas, das suas esposas, das

suas irmãs, que Deus permitta não humilhem com maiores desprezos a

desgraçada que é mãi.

É, pois, chegado o momento da confidencia. Quem a recebe é a consternada

velha, que vira nascer a mãi d’aquella menina. Até áquelle momento,

Brites estivera longe de imaginar um erro n’aquelles amores: julgava-os

na sua maxima pureza. Descem lagrimas nas rugas dos oitenta annos,

lagrimas de bom agouro, que deixam mais livre o accesso á piedade.

Eugenia cuida que o revelar-se aos irmãos lhe dará um esposo, lhe será

redempção de ignominia.

—Não, minha infeliz senhora, não!—exclama a velha.

E conta-lhe tres identicas e desventurosas historias, que ella presenciou

em sessenta annos de serviço n’aquella familia: tres mulheres sepultadas

em conventos, onde nunca entrou raio de contricção nem conforto.

* * * * *

O alferes sabe em Bragança as agonias de Eugenia, e sente n’alma o

estylete excruciante da expiação. Nenhuma morte sustenta o parallello com

as flagellações de seis mezes, soffridas a tantas leguas de distancia.

Eugenia recebe o ar e a luz pela janella do seu quarto unicamente.

Teme-se da observação das creadas, que lhe espiam os passos, em

suspeitarem de Brites. A velhinha tudo provê e prevê; mas, a intervallos

quer morrer, antevendo as agonias da hora improrogavel, da hora em que

o grito de afflicção rompe atravez das mãos da vergonha, que tentam

suffocal-o.

Era no mez de dezembro de 1816.

O alferes lançou-se aos pés do general da provincia de Traz-os-Montes,

que demorava em Bragança n’essa occasião. Abre-lhe sua alma, em torrentes

de pranto. O velho general chora, e diz:

—Tenho rigorosas recommendações a seu respeito; mas vá, peça-me licença

para ir ver sua familia. Dou-lh’a por quinze dias. Vá, embora eu tenha de

soffrer.

O alferes vestiu habitos paisanos e desceu a Torres Novas. Alli vestiu-se

de mendigo, simulou uma paralisia de braços, e pediu gasalhado em

Recaldim. Trocou ligeiras palavras com Brites, e não viu Eugenia. Voltou

á albergaria do commendador algumas noutes. Os creados contemplavam-n’o,

e diziam:

—Tão novo e tolhido de braços!

As creadas accrescentavam:

—E não havia de ser feio!

Na noute de quinze de janeiro, por volta de onze horas, abriu-se a porta

da albergaria, entrou Brites com a face alagada de suor e lagrimas. O

alferes formou entre os braços com as dobras da capa de mendigo uma

caminha de farrapos, recebeu um menino, e sahiu. A duzentos passos estava

o leal camarada do official, com um cavallo á redea. O alferes cavalgou,

o auxiliar saltou á anca do cavallo, e partiram.

Em Torres Novas alimentaram o recemnascido. Proseguiram até Santarem,

onde foi baptisado sete dias depois. Alli veio uma ama do Cartaxo, e o

levou comsigo.

Estava a expirar a licença. O alferes entrou no quartel, á ultima hora, e

beijou as mãos do general, dizendo:

—Dei-lhe o nome de v. ex.ª. Ahi me fica a memoria da sua commiseração,

general!

* * * * *

D. Eugenia de Nellas, dous mezes depois d’estes successos, recebia uma

carta de seu irmão Vasco, participando-lhe que ia casar com uma titular

brazileira, agraciada pelo sr. D. João VI, e convidava sua irmã a

acompanhal-o á côrte do Rio de Janeiro.

D. Eugenia respondeu que queria viver e morrer no seu desterro de

Recaldim.

«Bem sei—replicou Vasco.—Bem sei...—Brevemente, se quizeres

salvar o amante, mudarás de resolução.»

Decorreram alguns mezes. Instaura-se processo a Gomes Freire de Andrade.

São presos os cumplices da conspiração, e os suspeitos cumplices. O

alferes é chamado a Lisboa, e recolhido ao castello de S. Jorge, como

indiciado nos planos subversivos do general Freire de Andrade. São os

Lucenas que tramam a bem agourada perdição do alferes.

Eugenia é avisada do encarceramento do alferes.

A faca apontada ao peito da timida senhora é um dillema: se ella persiste

em ficar, o alferes morrerá; se vai para o Brazil, o réu absolvido.

Eugenia vai para o Brasil, o alferes, sem saber porque o accusam, nem

porque o absolvem, sahe do castello e entra nas fileiras.

Ruy de Nellas, acantoado sempre no seu solar de Pinhel recebera a

infausta nova da queda de sua irmã. Respondendo a Vasco, disse: «Não

tenho irmã, nunca me fallem n’essa mulher. Fizeram bem não me dizer o

nome do insultador de nossa familia, se é que elle tem nome.»

* * * * *

Saltemos a 1820. D. Eugenia é o assombro dos salões do Rio de Janeiro.

Reviçam-lhe todas as graças; a da melancolia realça-lh’as, melancolia que

dava a entender que o anjo, lembrado do céu, tinha saudades.

Vasco é-lhe odioso. A casa do irmão atormenta-a como um ergastulo. Perdeu

esperanças de voltar á patria, e aspira a ver no céu o esposo de sua alma.

De repente, como que as esperanças lhe morrem, e a querida dos fidalgos

brazilienses desce os olhos sobre a terra.

Vê um conde que fôra de Portugal com o principe regente, e a requesta de

joelhos. E vai ella, levanta com a sua mão o homem que ha de resgatal-a

do dominio do irmão, e sahe condessa de Asinhoso da casa abominada.

No redemoinho das festas, a condessa parece estar sempre em contemplação

d’um tumulo. E o marido mais a adora assim; e ella, de lhe ver o amor

atravez das lagrimas, enchuga-lh’as e pede a Deus um novo coração para

seu marido.

Nunca mais seus labios responderam a Vasco; e, ao terceiro dia de casada,

disse ao conde:

—Meu amigo, a presença de meu irmão n’esta casa é como a do algoz da

minha felicidade, e da tua, se posso dar-t’a.

O conde de Asinhoso ouvia sua mulher, e obedecia com jubilosa escravidão.

Gonçalo de Nellas havia morrido em 1819. D. Frederico Pain de Lucena

morreu em 1820, legando os seus bens ao sobrinho vivo; Vasco, em viagem

para a patria, morreu de febres.

A condessa enviuvou em 1833. Cuidou em liquidar os seus copiosos haveres,

e voltar a Portugal.

Uma delirante esperança vinha com ella. Rica, livre, com a alma inteira

no seu passado amor!

Desembarcou em Lisboa por junho de 1834. Reinava D. Pedro IV.

Mandou indagar do alferes de 1817 aos seus camaradas anteriores á scisão

politica. Responderam-lhe que tinha morrido na guerra.

Ergueu ella então as mãos e disse:

—Ó meu Deus: merecia eu tamanho castigo?!

Mandou ainda perguntar por um filho do militar que morrera. Ninguem deu

novas de tal filho. O espirito publico batia as azas ainda no ambiente de

fogo e ninguem curava saber onde podia existir o filho d’um official que

morrera rebelde.

Foi então que a condessa d’Asinhoso, aterrada da sua soledade, escreveu

a Ruy de Nellas, pedindo-lhe a sua estima, e uma filha que lhe fosse

companhia.

O irmão não lhe respondeu.

* * * * *

Esta é a historia triste da senhora cujo valimento Ruy de Nellas vai

pedir a favor de seu genro.

Qual é o valimento da condessa em Lisboa? É o prestigio da riqueza, e da

belleza ainda.

Quarenta e seis annos, com trinta de amarguras e ainda formosa! É que ha

mulheres de tamanha alma, que primeiro o fel da desgraça ha de enchel-a

antes que o corpo se alquebre.

Das masmorras de 1793 sahiam formosissimas mulheres para a Guilhotina.

A mulher de Luiz XVI tinha pequena alma, sonhára vinganças mesquinhas, e

por isso lhe encaneceram os cabellos n’uma hora.

Madame Roland, a scismadora de revoluções uteis, ia formosa no seu carro

de morte.

Carlota Corday illuminou-se de formosura mystica ao vêr-se espelhada no

aço do alfange.

O Bem e o Mal: Romance · 第 43 / 54 题