O Réu

A carta, recebida em Villa Cova, foi a primeira grande angustia que

alanceou o coração de Ladislau.

Correu á igreja, e d’ali a uma aldeia da serra, onde estava o vigario

sacramentando um enfermo. Leram a carta, e ambos inferiram que o matador

era Casimiro; justa inferencia dos termos d’ella.

—Matar!—disse o vigario consternado.—Matar!... Eu não cuidava isto de

Casimiro! Nem ao menos diz que matou defendendo sua vida, a vida de sua

mulher, e de sua filha!... Repara tu na serenidade com que elle diz: _D.

Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, e o seu creado está morto.

Este acontecimento deu-se á porta de minha casa ha cinco horas. O povo,

as authoridades, e a academia, indigitam-me como author do successo..._

Se não fosse elle o author, diria: _indigitam-me falsamente!_... E mais

abaixo: _Minha mulher tem estado attribulada, mas como appelei do seu

coração para a sua coragem, vejo-a reanimada e esperançosa de minha

absolvição em despeito do povo, da academia e das authoridades!_... De

que elle fia a sua absolvição, se as provas o condemnam a tal ponto que

tudo lhe é contra!... Ó meu Deus, meu Deus! que conta havemos de dar á

nossa consciencia de termos trabalhado para o casamento de Christina com

este malfadado!

Ladislau ouviu a mais larga exclamação do attribulado sacerdote, e disse

com pausa:

—Eu estou em crêr que Casimiro não matou.

—Ó homem, tu não intendes esta carta?

—Penso que intendi. Onde diz elle que matou?

—E onde diz elle que não matou?—retorquiu o padre.

—É verdade: não confessa nem nega. Diz que o apontam como matador. Isto é

differente. Eu leio no Evangelho que Jesus Christo, quando o arguiam...

—Calla-te meu irmão! esses confrontos são sacrilegos!—atalhou o

sacerdote, inflammado em zelo santo.

—A minha intenção era boa, Deus o sabe. Seja o que fôr, eu creio que

o meu compadre está innocente. Um homem, que mata, não escreve assim

com este socego. Aqui ha mysterio, e continuará a havel-o. As cartas

demoram-se; e, quer demorem quer não, amanhã vou para Coimbra e Peregrina

vai comigo. Desgraçada Christina!... E que terá elle penado? que fará

sósinha a pobre menina com sua filha?...

—Vai a Coimbra, Ladislau, vai!—disse o vigario—Se é criminoso,

amparemol-o; se não é, ajudemol-o a vencer as iniquidades do mundo,

querendo Deus que nós sejamos instrumentos de sua divina justiça. Eu

tambem iria, se podesse: escrever-lhe-hei as consolações da religião.

No dia proximo sahiram de Villa Cova Ladislau, Peregrina, e o menino, a

grandes jornadas para Coimbra. O lavrador levava todo o seu peculio, o

ouro de sua mulher, e alfaias de antiga prata, que havia em casa. Apearam

na estalagem, e foram d’alli á cadeia. Encontraram Casimiro sentado á

meza de jantar com a filha no collo, e Christina a um canto da salleta

aquecendo café n’um fogareiro.

—Não t’o disse eu?!—exclamou Christina, quando o chaveiro abriu a porta,

e deu entrada aos visitantes—Não veio carta, vieram elles!

As duas senhoras abraçadas fallavam em soluços. Ladislau rompeu tambem em

pranto desfeito. Casimiro, porém, sereno e com os braços abertos, dizia:

—O compadre tambem é dama?! Não rivalisemos com as nossas mulheres no seu

privilegio de chorar!... Conversemos como homens.

—Está innocente, meu amigo?—perguntou de sobresalto Ladislau.

—Que pressa!...—respondeu em ar de graça o prezo—Parece que o meu

compadre sahiu de casa com essa pergunta á flor dos beiços. Ora, diga-me:

se eu lhe responder que matei o desertor, e feri de morte o fidalgo, o

meu amigo retira-me a sua mão pura e generosa?

—Não. Casimiro só mataria um homem defendendo-se. Foi em defesa que o

matou?

—Vou responder-lhe; porém, requeiro á sua nobre alma um juramento antes

de me ouvir. Não lhe digo que me jure por seu pai, pela vida de sua

esposa ou filho: jure por sua honra.

—Jurei.

—Agora saiba que eu não matei, nem mandei matar.

—Oh meu amigo!—clamou com agitada vehemencia Ladislau.

—Não falle mais alto que eu, meu compadre, que póde ser ouvido. Não matei

nem mandei matar, nem folguei com a morte do assassino trazido para mim,

nem com os ferimentos de D. Alexandre. Houve um homem que me quiz salvar

dos dous inimigos, que me esperavam, e matou-os, no momento em que me

arrombavam as portas. O nome d’este homem irá commigo e com minha mulher

á sepultura: nunca m’o pergunte. A sociedade proclama-me assassino:

embora. Deus me defenderá e salvará. Aos interrogatorios nada respondo

que me absolva ou condemne. Veremos se o jury me vê provado assassino.

Agora, meu amigo, tem o sr. a sua honra de sentinella á sua lingua.

Tomemos café. São só duas as chavenas; mas tambem ha dous pires: as

chavenas para os hospedes; os pires para nós, Christina. Arranja lá isso.

Ladislau fitava nos olhos Casimiro, e murmurava:

—Que homem! que desgraçado tão digno d’outra sorte!

—Veja lá o que são as cousas! eu cuidei que meu compadre me estava

invejando esta paz de coração!—disse Casimiro.

Horas depois, sahiram duas senhoras a transferir a bagagem da estalagem

para a casa da Couraça dos Apostolos. Concordaram em viver juntas, nas

horas em que era vedado o ingresso no carcere.

O processo proseguiu seus termos, com desvantagem de Casimiro, sem

embargo de ser vigiado pelo primeiro advogado de Coimbra, que alcançára

procuração do réu, depois de muitas instancias suas e de Guilherme Lira.

D. Sueiro de Aguilar tinha descido a Coimbra, com comitiva de dois

lacaios, e dinheiro grosso para, consoante a sua phrase, _erguer, sendo

preciso, uma forca de ouro, onde perneasse o assassino de seu irmão_.

D. Alexandre erguera-se ao cabo de vinte dias, e composera as melênas

de modo, que o logar da extincta orelha ficasse coberto de lustrosas

espiraes. A orelha cancerára e cahira, deixando um orificio hediondo e

pustuloso. Guilherme Lira, quando acertava de o encontrar, dizia-lhe

sempre:

—Cuidado com a outra.

—A outra quê?—animou-se a perguntar D. Alexandre.

—A outra orelha, patife!

O epitheto gelou de neve as cavernas d’aquelle vil peito que esvasiava o

pus pelo esqualor do ouvido.

D. Sueiro accelerava o processo, e descia de sua prosapia regirando do

advogado para o escrivão, do procurador para o delegado, do juiz para os

influentes do jury.

N’uma d’essas suadas correrias, passando ao escurecer no bêco de D.

Sisenando, encontrou um academico, que lhe cingiu ao pescoço umas mãos,

que pareciam golilhas de ferro, e lhe jogou a catapulta da cabeça, tres

vezes, contra a hombreira do floreado granito da porta do palacio, onde

morreu apunhalada a irmã da rainha D. Leonor Telles. Depois, largando-o

atordoado, disse:

—Primeira admoestação!

E andou.

D. Sueiro, ao outro dia, escreveu a todos os governadores possiveis de

Coimbra. A policia fingiu que se mechia, e D. Sueiro não sahiu da cama.

O leitor já sabe que só Guilherme Lira podia tentar a destruição da

melhor pedra monumental de Coimbra com a cabeça de D. Sueiro de Aguilar

Vito etc.

Um homem sisudo da policia disse ao rico-homem de Miranda:

—O meu parecer é que v. ex.ª vá para sua casa. A meu vêr, o fidalgo traz

á perna a _sociedade da Manta_. Dê louvores a Deus em o não terem matado

como fizeram a um lente, ha dous mezes: e perdoará o atrevimento do

seu servo em o aconselhar. Em quanto a mim quem quebrou a cabeça de v.

ex.ª foi o Guilherme Lira! Mas vão lá prendêl-o, e, de mais a mais, sem

provas! Bem aviado estava eu! Elle bate-se com um regimento, e é capaz e

mais os seus trinta companheiros, de arrasar Coimbra.

—Então isto aqui é um sertão de selvagens!—bradou D. Soeiro—As leis...

—As leis estudam-se aqui—disse o cadimo aguazil—e o Guilherme Lira

sabe-as bem, que é quintanista de direito; mas o malvado despreza as

leis de papel, e tem lá umas de pau para seu uso, não digo bem: para uso

d’aquelles que as levam impressas nas costas. Em fim...

O homem da justiça encolheu os hombros, e despediu-se.

No dia seguinte, D. Sueiro foi para Miranda, e levava ainda uns parches

de alvaiade na testa, e uns pontos nos tegumentos sobrejacentes aos ossos

parietaes.

D. Alexandre ficou; porém, assim que o sol inclinava ao poente,

recolhia-se. Guilherme Lira entrava em casa todas as noutes, e

espreitava-o da janella. Cada noute, ao vêr-lhe a luz no quarto,

arrepellava-se. Dizia com picaresco chiste o feroz academico a Casimiro:

«a vida d’aquelle homem peza-me como um burro sobre o peito!»

E Bettancourt pedia-lhe encarecidamente que o deixasse, por ser um

estorvo nullo á sua liberdade.

Ruy de Nellas, conscio do successo, mandou chamar o vigario de S. Julião

da Serra, e informou-se. Padre João Ferreira relatou de cór o contheudo

da primeira carta de Casimiro, e mostrou duas linhas de outra de

Ladislau, que dizia: _Casimiro está innocente. Casimiro é victima da sua

honra. Nada mais te digo, porque só isto me é permittido dizer, e a ti

só, meu irmão._

—E tu crês na innocencia de Casimiro?

—Creio, meu padrinho, como creio que vivo.

—E elle deixa-se ir á revelia?

—Não posso, nem sei responder a v. ex.ª

—É preciso que eu o proteja. É preciso, que elle é marido de minha filha!

Os de Miranda não hão de levar a melhor.

—Que quer v. ex.ª que se faça?

—Que vás a Coimbra, e leves dinheiro para elle, e para a justiça.

—É desnecessario dinheiro. Meu cunhado foi prevenido.

—Deixal-o ir. O dinheiro que eu mando, é meu; quero que minha filha o

receba! Eu vou mandar o meu capellão substituir-te na igreja, e tu partes

já para Coimbra.

—Recebo as ordens de v. ex.ª

—Vamos ver quem vence!—continuou o fidalgo, apertando os alveolos, onde

os dentes ausentes não podiam rangir.—Os de Miranda, tem muita prôa?...

Deixa que eu vou abater-lh’a!... Vai, João, que lá irão umas cartas.

Se Casimiro ficar condemnado, tu ou teu cunhado vão para Lisboa, e

entreguem as cartas onde eu mandar. Lá está minha irmã, a condessa de

Asinhoso. Ha vinte e tres annos que não lhe escrevo: mas sei que ella

está morta por fazer as pazes commigo.

—Bom seria que estivessem feitas—disse respeitosamente o padre.

—É verdade; mas que queres? orgulho de parte a parte... E sabes tu porque

eu despresei minha irmã?

—Nunca v. ex.ª me deu a honra de m’o revelar.

—Pois eu t’o direi quando voltares. Foi um caso de honra, que os de

Miranda não costumam castigar. Lá tem em casa uma irmã do pai, que fugiu

do mosteiro de Lorvão, e deu escandalo. Lá a tem... e não põem crepe nas

pedras d’armas... E vinha cá D. Sueiro vituperar-me porque eu não mandava

matar Casimiro!... Olha quem!... Se eu tivesse tantos santos a pedir por

mim, como de vezes me tenho arrependido de lhe dar a minha morgada!...

Forte brutalidade!... Cegaram-me as vaidades de reatar as duas casas dos

mais antigos ricos-homens da Beira e Traz-os-Montes!... Emfim... o que eu

não consinto é que da casa de Miranda vão matadores professos assassinar

o marido de minha filha... São horas... Aqui tens um conto de réis em

ouro. Parte, João; e escreve a dizer o que se passar. Dá muitos beijos a

minha afilhada, e diz a minha filha... que lhe perdôo!

O vigario ajoelhou diante de Ruy de Nellas, e clamou:

—Deixe correr as minhas lagrimas de alegria sobre as suas mãos, meu

nobre, meu virtuoso padrinho!

—Não fiques agora ahi a chorar, homem!—Disse o velho, erguendo-o.—Aqui

estou eu tambem...—proseguiu, enxugando os olhos.—Vai, que são horas.

A apparição do vigario na saleta da cadeia foi saudada com um brado de

alegria. Cercaram-n’o todos, e beijaram-n’o todos.

—Eu só dou beijos em creanças,—disse elle em tremores de exultação.—Sr.ª

D. Christina deixe-me dar á sua filha os beijos do avô.

—Fallou com o meu papá!—exclamou ella.—Está muito zangado contra o meu

pobre Casimiro?

—Isso está, minha senhora! zangadissimo, feroz!

—Cuida que foi elle quem...—E reteve-se, relanceando os olhos ao marido,

que a observava.

—Não sei o que elle cuida...—volveu o padre. A ira do fidalgo subiu ao

ponto culminante d’elle mandar ao sr. Casimiro um conto de réis para o

custeio das suas despezas judiciarias. É onde póde chegar a ferocidade

humana!

—O sr. Ruy perdoou-me?—perguntou Casimiro mais recolhido que expansivo.

—Se isto não é perdoar... A mim não me encarregou de lhe notificar o

perdão; mas á sr.ª D. Christina manda dizer que está perdoada. Aqui teem

o dinheiro, que é ouro, e rasga-me a algibeira da sotaina.

Christina fez um gesto, significando ao padre que entregasse o dinheiro

ao marido; Casimiro fez outro gesto, indicando Ladislau.

—Então que resolvem?—disse o padre.

—Resolve minha mulher,—disse Casimiro—que esse dinheiro passe ao poder

do nosso mordomo, o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova, em cujo

cargo hemos por bem nomeal-o para lhe fazermos honra. Assim deve formular

as suas nomeações quem tem, como eu, guarda de official á porta.

Ladislau, sorrindo, respondeu:

—A não servir de mais, deixem-me ser mordomo. Eu guardo o dinheiro, e

darei contas.

Relatou o padre a sua chamada a Pinhel, e o sentir do fidalgo, com a

promessa das cartas para Lisboa, caso o exito do processo fosse funesto

em primeira instancia. Acrescentou que Ruy de Nellas tinha muita

confiança no valimento de sua irmã, na capital, a sr.ª condessa de

Asinhoso.

—É a primeira vez que ouço fallar n’essa irmã do sr. Ruy!—disse

Casimiro.—Nunca me fallaste em tua tia, Christina.

—Porque a tinha esquecido—respondeu a senhora.—Eu e minhas irmãs mais

novas ainda ha poucos annos soubemos que tinhamos em Lisboa uma tia.

Ignoro as desintelligencias que se deram entre ella e o papá, muito antes

de eu nascer. O certo é que em nossa casa nunca se fallou em tal tia, e

diante do papá seria perigoso fallar. Muito me espanta agora que elle

queira escrever-lhe! Vejo que meu pai está mudado!

—Sabe que desavença de familia foi essa, padre João?—perguntou

Bettancourt.

—Não, senhor. Ninguem o sabe em Pinhel. Apenas sei que em Lisboa viveu

desde menina a irmã do sr. Ruy de Nellas, em companhia de um grande

fidalgo seu tio, e mais os dous irmãos filhos segundos. Tambem sei que

estes irmãos lá morreram, e que a sr.ª casou com o conde de Asinhoso. É o

que eu sei d’um clerigo velho de Pinhel, que a viu em menina, e me disse

ser ella vinte annos mais nova que o morgado. Deve hoje ter, portanto, a

sr.ª condessa quarenta e seis.

Sobre este incidente exhauriu-se aqui a pratica, em que Bettancourt,

de condição scismadora em cousas mysteriosas, mostrava estar muito

entretido.

O patrono de Casimiro, sabendo que o sogro do seu cliente o protegia em

Lisboa, e quasi seguro da condemnação do réu no tribunal conimbricense,

inredou o processo de modo que, no caso de se provar o crime em jury,

houvesse direito a pedir um recurso por nullidades, sem ser ouvido o

tribunal da segunda instancia. A lei organisadora dos processos em

Portugal, paiz de mais leis que tem o universo é uma corda bamba que se

presta a saltos maravilhosos sob o pé d’um habil volatim. «Vai o processo

para Lisboa, dizia o jurisconsulto, e lá, se o braço fôr forte, os autos

vem arremessados á cara do juiz, e o juiz dá alvará de soltura ao preso.»

Este salvador intento do causidico foi revelado a Casimiro, com grande

alegria, pelo vigario. E o preso respondeu:

—Não quero! diga-lhe que não quero! Ha-de ser a lei, sem coacção, sem

torcedura, sem vexame de poderosos, que me destrancará aquellas portas.

Mas que digam ser dolorosa a experiencia: não importa. Quero experimentar

até que ponto um réu innocente póde ser torturado. Hei de ir de

condemnação em condemnação, até poder dizer: «Acuda-me a justiça divina,

que a dos homens é infame!»

—Mas—atalhou o padre—se as provas são taes que a lei tem de forçosamente

o reconhecer criminoso?

—Não são tal! As provas permittem que as destrua o ardil d’um habil

jurisconsulto. É isto certo?

—É.

—Pois bem: eu quero que a lei as anniquile, e não a trapaça: que este

acto se cumpra á luz do sol, á luz de todas as consciencias, que me

condemnam. Que faz que as influencias poderosas me libertem, se o mundo

ha de dizer: «salvaram-no as influencias! o ferrete de homicida lá o tem

na testa!» Não quero, sr. padre João! Agradeça ao compadecido patrono:

mas avise-o de que eu serei no tribunal o interprete mais severo da lei

contra mim.

O advogado, quando tal ouviu, pasmou e disse:

—É um doudo maior da marca, este homem! Creia que irá da cadeia para a

enfermaria dos alienados!

E proseguiu:

—É vergonha fazer-lhe eu uma pergunta, sr. padre João: Casimiro

Bettancourt, matou um homem e espancou o outro?

O padre não respondeu. E o advogado repetiu:

—Matou ou não?... Pois o senhor cala-se a esta pergunta?

—Calo, sim, sr. doutor. Não posso responder.

—Está claro! Outro doudo!... Que esquisita familia é esta! Já fiz a mesma

pergunta á mulher do preso: silencio! Interroguei Ladislau Tiberio:

silencio... O sr. padre João Ferreira...

—Silencio!—atalhou o vigario.

—Nem a mim, que sou seu advogado—tornou com azedume o doutor—ha uma

pessoa que me diga matou ou não!...

—Ha—disse um academico que entrava.

—És tu?—perguntou o advogado a Guilherme Lira.

—Sou eu. Casimiro Bettancourt não matou. Tu vaes advogar a causa do homem

mais honrado e innocente do mundo!

—Posso dar-te como testemunha, Lira?

—Da sua honra e innocencia? podes; mas não me cites, que eu... ouve-me...

eu hei de tirar Casimiro da forca.

—Santo Deus!—exclamou o vigario, lavado de subito suor.—Da forca! Pois é

caso de sentença ultima?

—Se a sentença ultima é inapplicavel n’este caso,—disse o advogado—não

sei onde está no codigo penal o crime condigno! Mas não se falla aqui em

forca... pensemos...

—Não pensemos...—interrompeu Lira—Deixa correr o tempo que pensa por nós.

Padre João foi contar a Casimiro o que ouvira em casa do lettrado,

citando o nome de Lira.

O academico recolheu-se, voltou a face, e o sentido apparentemente, sobre

outro assumpto, e disse em sua mente:

—Que intenta fazer aquelle desgraçado?

Pergunta que o leitor se digna fazer-me e espera a resposta.

O Bem e o Mal: Romance · 第 38 / 54 题