O Vigario de S. Julião da Serra

Temos de voltar a Pinhel.

D. Sueiro de Aguilar pediu instantemente que se mandasse buscar á Guarda

sua prima Christina. Tergiversou, em quanto pôde, Ruy de Nellas; porém,

quando o fidalgo de Miranda annunciou que iria pessoalmente buscal-a, o

velho, entre lagrimas e gemidos, declarou tudo.

—E não está ainda morto o villão?—perguntou D. Sueiro, concluida a

narrativa.

—Morto, não: nem sei onde está.

—E póde meu tio Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo consentir que viva o cão

immundo! Um Gamboa deixar viver o raptor de sua filha!—replicou D.Sueiro.

—Que hei de eu fazer-lhe agora? é marido d’ella!...

—Antes viuva, antes perdida, antes morta!... Que ouvi eu! Christina,

amada por Alexandre de Aguilar, requestada e pedida, acha-se casada

com um sobrinho de carpinteiro! Ó tio! esta vergonha é insanavel!...

Quem dirá que minha bisavó foi casada com o primo carnal d’um avô de v.

ex.ª!?... Sinto, sinto amargamente dizer-lhe que não posso ser cunhado do

sobrinho do carpinteiro!

—Paciencia... murmurou Ruy—Deus me leve depressa. Estou farto das

affrontas dos nobres e dos plebeus. Elle roubou-me a filha, e tu Sueiro,

injurias a minha dôr! Que hei de eu fazer?

—Esmagar o verme!

—Valha-te Deus! não se esmagam assim homens! Os tempos são outros, meu

sobrinho. A plebe agora tem a força, e nós temos o direito.

—E a força! Vá lá um plebeu requestar irmã minha!... Não verá mais sol

nem lua! Juro-lh’o sobre...

D. Sueiro, como não visse á mão sobre que jurar, calou-se, e expediu um

grunhido, como usam os bravos, que parecem tirar a valentia da garganta.

E proseguiu:

—Já estarão casados?

—De certo estão ha tres dias.

—V. ex.ª deu o consentimento?

—Nem dei, nem deixei de dar... Callei-me, farto de ouvir as lastimas d’um

bom moço, que aqui veio...

—E houve sacerdote indigno que os recebesse sem licença legal e

canonicamente escripta?

—O sacerdote é meu afilhado, ordenado á minha custa, nomeado por minha

intervenção na igreja onde se receberam.

—Pasmo!... pois... ó sacrilegio da amisade! o crime inaudito! Padre João,

aquelle sarrafaçal de padre ousou sanctificar e legalisar o opprobio da

familia que lhe deu o pão, a sotaine, e a egreja! Qual vingança ha ahi de

tamanho crime!

Andava D. Sueiro de um lado a outro da sala, sacudindo os braços, em

mental soliloquio. Ruy amparava a cabeça entre as mãos, pozera os

cotovellos no peitoril da janella, e olhava, sem o ver, para um macisso

de murtas do jardim. As apostrophes irrisorias do sobrinho callaram-lhe

no animo, a ponto de o irarem contra o vigario de S. Julião. Monologando

comsigo, dizia:

—D. Sueiro tem razão. O padre, devendo ser o primeiro a embaraçar o

casamento, não só m’o mandou aconselhar como necessario, mas ainda por

cima me pediu e instou licença para casal-os. A ingratidão é flagrante! O

villão bandeou-se com o outro da sua estôfa. São uns pelos outros estes

filhos do nada! Se elle me fosse grato, restituia-me a minha filha, e

affugentava o raptor. Longe d’isso, agasalhou-o, sustentou-o, e recebeu-o

como se eu lh’o recommendasse!... Tem razão D. Sueiro! O padre merece

castigo! Não basta expulsal-o eu para sempre de minha casa: hei de

reduzil-o a viver da esmola da missa, se não poder caçar-lhe o exercicio

das ordens.

E continuou em voz alta:

—Dizes bem, meu sobrinho: o padre é um refalsado ingrato! Ha de ser

punido.

—E o troca tintas?

—Casimiro?

—Sim, o pêrro, o sobrinho do carpinteiro?

—Já disse que é tarde para o mandar castigar.

—Deixe-m’o por minha conta, tio Ruy. V. ex.ª não tem filho que lhe vingue

as cans; mas aqui está o braço indomavel do seu sobrinho.

—Não approvo—disse o velho—Estão casados. Já me não poupo á vergonha de

receber em minha casa a viuva do homem abjecto. É tarde para remedio. O

sangue já não lava a nodoa.

—Nodoa eterna!—acrescentou D. Sueiro de Aguilar.

—Seja o que Deus quizer!—Está visto que regeitas a esposa que pediste,

meu sobrinho. Ficaremos em paz; eu com ella, e tu com a tua dignidade

limpa. Mas olha que és injusto! Minha filha Guiomar está innocente no

delicto de Christina. Faz o que quizeres. Escolhe-a mais rica; mais

fidalga dificilmente a acharás em Portugal.

—Sei que é minha prima!—disse modestissimamente o fidalgo de Miranda,

e ficou alli, por não ter mais que dizer a tal respeito. Uma prima dos

Alarcões Parmas d’Eça não podia ser mais nada em materia genealogica. A

D. Guiomar, porém, entre as qualidades dignas de seu primo, sobrava-lhe a

de ser tôla, com uns longes de idiota.

O ajuntarem-se estes dous era preordenação, não direi do alto para

declinar a influencia divina de sobre as parvoiçadas que se fazem n’este

globo; mas, predestinação, isso era, se alguma ha n’esta cousa de

encontros e desencontros, que os poetas mirificamente explicam.

E tanto assim era que, n’aquelle mesmo dia, D. Sueiro, vindo de passeio

com D. Guiomar affectuosamente disse ao tio que, apezar de tudo, seria

seu genro, com a resalva de em sua casa nunca mais se proferir o nome de

Christina.

Concordes n’isto, afanaram-se logo em aviar os preparativos. D. Sueiro

d’Aguilar foi dispôr suas cousas a Miranda, e Ruy de Nellas enviou ao

Porto o feitor á compra do precioso enxoval.

Natural seria que o velho, contente e distrahido, perdoasse ao vigario

de S. Julião, ou esfriasse no ardor vingativo até esquecer o ingrato, e

desprezal-o fidalgamente.

Assim não foi. A natureza vai tão falsificada que já me quer parecer que

andamos a chamar natureza a tudo que é arte: arte, digo eu, synonimo de

manha, ardil, malicia e obra de satanaz.

Escreveu Ruy de Nellas ao seu procurador na Guarda, accusando o vigario

de S. Julião da Serra. Foi padre João chamado á camara ecclesiastica

para responder sobre o casamento irregular de Casimiro Bettencourt e D.

Christina de Nellas. Ingenuamente relatou o vigario que os casara com a

licença vocal do pai da contrahente. Redarguiram-lhe que era apocrifa a

licença, e d’alli sem averiguações o suspenderam do exercicio parochial.

Padre João, antes de recolher á vigararia para fazer entrega dos livros

á posse do novo pastor, foi a Pinhel, e serenamente bateu ao portão do

fidalgo.

Os creados receberam-o com má sombra, e um foi avisar o amo, e voltou

dizendo:

—O fidalgo não lhe falla. Vá-se o sr. padre em paz, que o amo, se o vê,

vai-lhe ao espinhaço.

—Diga ao sr. Ruy de Nellas que seu afilhado vem pedir-lhe perdão, e

explicar o seu procedimento.

O servo, vencido pela humildade, voltou ao amo, e trouxe esta resposta:

—Que lhe não perdôa, nem quer ouvir explicações.

—Um de vm.ᶜᵉˢ—replicou o manso vencedor do Evangelho—faz-me o favor de

lhe entregar uma carta?

—Entrego eu, disseram quasi todos.

—Volto já.

Sahiu o padre a escrever na primeira tenda que se lhe prestou. Dizia

assim a carta:

«Meu bom padrinho consentiu verbalmente que eu casasse a sr.ª

D. Christina com Casimiro?

«Consentiu.

«Meu padrinho requereu a suspensão das minhas funcções

parochiaes, allegando a irregularidade d’aquelle casamento?

«Requereu.

«Devia fazel-o?

«Cito perante Deus a consciencia de meu padrinho.

«Se procedi mal, peço perdão. Se procedi bem, Deus me ampare.

De v. ex.ª afilhado, capellão e servo.

_João._»

Ruy leu a carta com arremesso, e releu-a com brandura. A sua consciencia

estava deante de Deus. O juiz era inexoravel, e o velho supersticioso,

talvez. Tremia, e queria fugir de si proprio. Carregava-lhe no peito a

mão ferrea da justiça divina, e abafava-o. Ruy chamou o creado, e mandou

entrar o padre. O padre, porém, entregára a carta, e sahira caminho de

Villa Cova.

Deixemos o delinquente a resolver-se no inferno que se abriu com a mão

iniqua, e sigamos o homem de animo inteiro, o humilde triumphante.

Chegou a Villa Cova de rosto alegre, e disse:

—Certamente, Ladislau, não te enganaste com as palavras de meu padrinho,

respeito ao casamento da filha?

—Não me enganei; foram estas: _casem_; _mas que eu os não veja mais_.

Porque m’o perguntas?

—Fui suspenso de vigario, a requerimento do sr. Ruy de Nellas.

—Mas estás em paz comtigo e com os teus deveres.

—Estou.

—Então descança na tua casa, meu irmão. Fica ao pé de tua irmã. Villa

Cova, sem padre, está como viuva saudosa e inconsolavel. Os teus

parochianos já te amavam: paga-lhes o amor ficando entre elles. Virá

outro vigario enviado pelo governo; e tu serás o enviado de Deus.

Ambos são necessarios. E tu para mim, e em minha casa, és o cumulo de

felicidade.

—Ficarei e trabalharei—respondeu padre João.

No dia seguinte, chegou á residencia de S. Julião da Serra outro pastor.

D’ahi a curto espaço, estava o adro a transbordar de povo. A noticia

chegou aos campos, e os agricultores ergueram mão da sáfra, e accorreram

ao presbyterio.

Feita a entrega de livros e utensilios da igreja, padre João sahiu ao

adro, e disse:

—«Meus amigos, como no pouco tempo, que vos parochiei, não houve espaço

de mostrar meus vicios, saio de entre vós sem deixar má nota, escandalo,

ou desamor. Como fostes rebanho de um pastor santo, que me antecedeu,

achei-vos doceis, bons e virtuosos. Edifiquei-me entre vós, e aprendi a

crer na influencia de um bom parocho. Creio que a vontade do Altissimo é

que os vossos pastores no futuro não destruam as boas obras dos passados.

Elles semearam; vós sois o fructo, e de vós hão de fructear mais

gerações. E, por isso, é fé minha que o vigario novo terá o espirito dos

antigos. Sêde com elle o que fostes comigo. Ficai com Deus.»

Os ouvintes abraçaram-o em tropel, debulhados em lagrimas; e elle,

ensopando com as suas a manga da batina, encostou-se ao hombro de

Ladislau, e caminhou para Villa Cova.

Á mesma hora, Ruy de Nellas, humilhado pela consciencia na batalha com o

orgulho, escrevia ao procurador, mandando-o que fosse ao paço episcopal e

encarecidamente solicitasse o pôr pedra sobre o processo contra o padre

vigario de S. Julião da Serra, e levantar-se a suspensão. E desculpava a

mudança de seu animo, com ter-se lembrado que déra verbalmente a licença,

e o padre, em virtude d’isso, procedera regularmente. Encarecia em termos

afflictos os seus escrupulos e remorsos, pedindo a maxima brevidade no

levantamento da suspensão, e retirada do novo vigario.

Ora vejam que alavanca de ferro a prostrar um soberbo, foi a humillima

carta de padre João! Estas victorias dá-as o Evangelho; e as bandeiras

triumphaes são estas. Que é vencer Cezar a Pompeu, ou Scipião a

Annibal? Que é Roma armada avassalar o mundo? Que é Napoleão devastando

reinos e homens á frente de milhões de escravos? Dobrar o orgulho de

um homem, quando se lhe pede perdão d’um inventado aggravo, isso sim

é que é vencer. Qual philosopho, antes do divino Christo, ensinou a

citar ao tribunal do juiz supremo a consciencia d’um mau, e fazêl-o ahi

accusar-se, dobrar-se, condemnar-se, e reparar o ruim feito, a affronta,

a injustiça?

Alguns dias passados, padre João Ferreira era restituido á posse da

igreja, visto que ulteriores informações abonaram a regularidade do

matrimonio accusado indevidamente.

O povo da freguezia exorbitou da sua costumada prudencia, saltando

por cima das admonendas do seu vigario. Os mais enthusiastas fizeram

fogueiras como em noute de S. João, e correram a freguezia com esturdias

instrumentaes, e foguetes de lagrimas. Cotizaram-se seis lavradores

abastados para celebrarem o successo, n’um aprazado domingo, mandando

fabricar um balão na Guarda, e comprar na botica os ingredientes

para a ascensão, com grande copia de girandolas e quantas invenções

pyrotechnicas se achassem na Guarda e Vizeu afóra a musica de Pinhel. O

vigario empenhou rogos e authoridade em demovêl-os; porém, como os visse

inquebraveis no intento, chamou elle artificiosamente a si o dinheiro

destinado ás festivas despezas, obrigando-se a fiscalisal-o do melhor

modo.

Chegou o domingo aprasado. Logo de madrugada os lavradores foram á

residencia do vigario a tomar conta dos objectos que deviam ter chegado

no sabbado. Padre João mostrou-lhes uma arca de pinho, e disse:

—O balão, que ha de chegar ao céu, já ali está n’aquella arca.

Os lavradores quizeram vêl-o mas o padre differiu para as onze horas

desencaixotar o balão que havia de chegar ao céu.

—E os foguetes?—perguntaram elles.

—Tambem chegam logo, e hão de ser todos de lagrimas.

—E a musica?

—Vem tambem; e ha de ser musica de anjos.

Os parochianos encararam-se mutuamente e murmuraram:

—Anda aqui marosca!...

No fim da missa do dia, por volta de onze horas, o vigario assomou no

arco da igreja, tirou de entre os colchetes da batina um papel, onde

eram inscriptos os nomes de doze velhos pobres e doentes da freguezia. Á

proporção que os ia chamando, os velhinhos sahiam de entre a multidão e

collocavam-se em frente do vigario.

Chamado o duodecimo, que subiu amparado por dous netos, o padre mandou

conduzir da sachristia para o arco da egreja a arca de pinho, que os

lavradores tinham visto na casa parochial. Abriu elle a caixa, e foi

tirando e repartindo por cada um dos doze pobres uma roupa inteira de

pantalona, colete, e véstia de saragoça. Os velhos recebiam com mãos

tremulas a esmola, e murmuravam palavras de benção, e alimpavam os olhos

turvos de lagrimas para verem o seu remedio do proximo inverno. Finda a

repartição, o vigario, procurando com os olhos os lavradores cotisados

para a funcção, disse-lhes:

—Aqui está, meus amigos, o balão que chega ao céu; ali tendes no rosto

d’aquelles anciãos invalidos e doentes, as lagrimas, que são lagrimas de

graças ao Senhor e de gratidão a vós. Haveis de confessar que as lagrimas

dos foguetes são menos brilhantes e consoladoras. Quanto á musica,

dir-vos-hei, meus bons amigos, que os anjos do céu assistem com suas

musicas a esta vossa festa. Se fiscalizei mal os vossos trinta e seis mil

réis, accuzai-me para eu vol-os repôr.

Disse, e logo um, e todos os lavradores lhe foram beijar a mão; e os

pobres, a não serem retirados brandamente, iriam beijar-lhe os pés.

Ao meio dia em ponto, no sobrado da residencia, estava posta uma mesa

com treze pratos. Na cabeceira sentou-se o vigario, e os doze pobres já

lavados e vestidos, lateralmente. O jantar viera cosinhado de Villa Cova:

o bodo aos pobresinhos fôra devoção de Peregrina.

Ladislau e sua mulher serviram os convivas, um de cada lado, já partindo

em pequeninos bocados a ração de cada pobre, já ministrando-os á bôcca

do mais intrevado que se não servia de suas mãos.

Em redor da meza, de pé, silenciosos, e com que arrobados n’aquelle

espectaculo santo, estavam os principaes lavradores da freguezia. Por

vezes, uma ou outra voz, mal desabafada das lagrimas, murmurava:

—Louvado seja o Senhor!

E, cada lavrador enxugava os olhos.

Concluido o jantar, ergueu-se o sacerdote, e deu graças a Deus, em voz

alta; e, ao sahir da meza, proferiu estas palavras:

—Louvemos o Altissimo porque nos deu coração para sentirmos as alegrias

da caridade. Esta virtude, que commove até aos prantos consoladores é a

sombra dos contentamentos da bemaventurança. Meus amigos, a vossa festa

acabou; mas eu espero em Deus que haveis de vêl-a continuada no céu.

O Bem e o Mal: Romance · 第 27 / 54 题