Amor de predestinação

A mulher ajoelhada á sombra do escuro arco, era Peregrina, irmã do

vigario.

Viera de longe para alli com seu irmão, sacerdote pobre, que devia a sua

ordenação ao bemfazer do padrinho, velho fidalgo de Pinhel. Em quanto

João se ordenava em Bragança, Peregrina vivera e educara-se sob o amparo

do padrinho de seu irmão, e querida das filhas do fidalgo, que a vestiam

de seus vestidos, e a sentavam entre si á meza.

Disse padre João a sua missa nova na capella do bemfeitor, e alli ficou

estimado como da familia, até que, por diligencias do fidalgo, recebeu a

apresentação na igreja de S. Julião da Serra.

Peregrina beijou a mão do velho caridoso, beijou o rosto de suas amigas

de infancia, e sahiu com o presbytero em demanda da vetusta igreja. Os

parochianos, posto que descontentes ao verem semblantes desconhecidos no

adro dos seus mortos, disseram:

«Assim é que vinha o pastor de Villa Cova com a irmã».

Era melancolico o presbyterio; as arvores ressequidas; o chão arido;

as penedias calvas; os tectos assentes em vigas; as paredes interiores

afumadas; os taboados movediços. Alli, as primaveras passariam

despresentidas, se não fosse o azulejar-se o céu, e os festões das

giestas na serra, e o calar-se o estridor das torrentes despenhadas dos

cerros das montanhas.

Peregrina, quando alli se viu, por um anoutecer de novembro, disse:

—Como isto é triste e feio!

Padre João olhou em redor de si, e respondeu:

—Irmã, este chão triste é que nos ha de dar o pão santo da independencia.

Bemdigamos o coração generoso dos nossos amigos, que me deram terra onde

lavrar com minhas proprias mãos o nosso sustento de cada dia. A casa

parece-nos agora triste, porque é noute. Ámanhã um raio de sol nos virá

alegrar estas paredes.

E, como assim fallasse, o vigario desceu ao adro, subiu sobre uma peanha

tosca, travou da corda que movia o sino unico do simulacro de torre, e

tangeu as nove badaladas de Ave-Marias. Os lavradores, que iam passando,

descobriram-se, pararam, oraram, benzeram-se, e seguiram seu caminho

murmurando:

—Os padres de Villa Cova faziam o mesmo. Quer Deus que todos os nossos

vigarios sejam bons e devotos.

Entretanto, Peregrina, rezada a oração final da sua prece da tarde,

alongou os olhos ás sombrias serras que avultavam para o lado de Pinhel,

e chorou. Eram saudades das filhas do bemfeitor, e do casal onde nascera,

e onde seus pais, caseiros do fidalgo, haviam morrido.

A irmã do vigario tinha 18 annos. Era dotada de abundantes graças,

compleição menos robusta que o ordinario das moças aldeãs, senhoril

talvez extraordinariamente, rica de negros cabellos, formosa de olhos,

doce e meiga no dizer, modestissima, parca em sorrisos, meditativa,

laboriosa, e muito dada á oração.

Costumava ella erguer-se ante-manhã, quando ouvia os passos do irmão no

sobrado visinho do seu quarto. O vigario madrugava assim para dizer missa

á hora em que os parochianos sahiam ás suas lavouras. Peregrina accendia

o lume, aconchegava o pucaro das brazas, cegava as couves, ia assistir

á missa do irmão, e vinha depois cosinhar o caldo que era a refeição

matinal do sacerdote e d’ella.

Uma grande parte do clero, que pastorêa almas, póde bem ser que me não

acceite a verosimilhança d’este caldo de couves. Espero que se desçam de

sua incredulidade, se eu lhes disser que a congrua e pé-de-altar de S.

Julião da Serra não davam para chá, n’aquelle tempo em que os direitos

da charopada chineza eram enormes, e os paladares eram genuinamente

portuguezes, lá d’aquellas serranias, se saboreavam de preferencia no

salutar cozimento de couves adubadas de saboroso unto. Ora eu, que

n’esta fidalga e franceza Lisboa tenho sido espectaculo de riso, pedindo

nos hoteis, e recommendando aos meus amigos o caldo verde, insisto

contumazmente em me expôr á mofa da gente culta, dando á estampa, n’este

logar e para meu duradouro opprobiro, o panegyrico do caldo verde, caldo

de meus avós, e de padre João e de sua irmã.

N’aquella madrugada, em que Ladislau fôra celebrar o anniversario da

morte de seu tio, orando na igreja, Peregrina demorára-se a rezar, finda

a missa, porque seu irmão entrára no confessionario. Déra ella conta de

ajoelhar-se alli perto de si o moço, já quando o templo estava vazio.

Soffreou, em quanto pôde, sua curiosidade, que teimava em querer conhecer

o recolhido devoto. Não era costume seu voltar a cabeça a um lado ou

outro, quando fallava a Deus; porém, tanta força lhe fazia o animo para o

sitio onde estava o moço que, apesar de profanação, aventuro-me a suppor

que o coração lhe estava tirando para alli os olhos por uns filamentos

mysteriosos que, alguma vez, a anatomia ha de encontrar entre olhos e

coração.

Foi o raio de sol nascente, vertido pela fresta esguia da capella-mór,

que de todo em todo aliciou Peregrina a olhar. Um raio do sol do Senhor

a alumiar-lhes o escuro do templo para se verem! Donoso e sublime

confidente de duas almas carecidas uma da outra! Nunca tão auspiciosos

preludios de um amor começaram n’esta vida. São dous moços: ella

virgem, e formosa, e immaculada; elle gentil, puro, e alli ajoelhado em

consultação de seu destino. A que bemdita e predita hora se entreluzem as

duas almas, embebidas em Deus e subitamente encontradas no mesmo arco da

igreja, em que os esposos costumam receber as bençãos!

Ladislau tinha as mãos erguidas, quando encarou no rosto de Peregrina.

As mãos ficaram na postura fervorosa; mas a oração, cortada em meio,

olvidou-se-lhe. E ella, que entrepassava nos dedos as contas do seu

rozario, continuou a dizer as palavras santas, mas sem ouvil-as na

audição interior do espirito.

Ambos a um tempo acordaram da fixidez da sua contemplação, e córaram.

Ladislau baixou os olhos, e ella ergueu-os. Um parece que pedia contas á

terra d’uma delicia, que nunca lhe havia dado nem presagiado; outro ia

no ceu como a decifrar o enigma da sensação nunca experimentada.

Instantes depois, padre João appareceu á porta da sacristia, e mandou á

irmã que accendesse os castiçaes do altar-mór, emquanto elle se revestia

para ministrar a sagrada communhão á confessada. Ladislau, como ouvisse

as ordens do vigario a Peregrina, ergueu-se e disse:

—Eu vou, se o sr. vigario quer. Já sei este serviço, que era minha

obrigação, em tempo de meus tios, que Deus haja.

Padre João já conhecia o sobrinho do defuncto Praxedes, como primeiro

lavrador da freguezia, e moço de estudo e virtudes, segundo lhe disse o

regedor da parochia, e o gravissimo mordomo do orago confirmára.

Acceitou o vigario o serviço a que Ladislau se teria offerecido, ainda

mesmo que a presença de Peregrina o não movesse á delicadeza. Esta

delicadeza era instinctiva certamente, e ensinada pelo coração, a

fundamental de todos os ceremoniaes, que nas activissimas cidades os

meninos aprendem em livros, como se a cortezia com damas não fosse pagina

escripta no mais diamantino do peito desde que abrimos olhos para vel-as.

Accendeu Ladislau as velas, e proveu de agua o jarro da communhão,

emquanto o vigario se paramentava. Subiu o ostiario ao altar, abriu o

sacrario e tomou a particula da pyxide. Uma nuvem escura de trovoada

imminente entoldára o sol, e a capella-mór voltava á frouxa luz

crepuscular. O ministro, severissimo em todo o ritual de seu sagrado

encargo, como não fiasse da claridade de uma só vela a perfeita passagem

da hostia á lingua da commungante, acenou á irmã para que tomasse uma

vela do outro lado.

Ladislau tremeu quando a viu tão perto de si; mas assim mesmo, não

desatremou em desconcerto com a urbanidade: entregou-lhe o cirio, que

tinha e foi tomar outro da tocheira.

Em verdade lhes digo, meus sensiveis leitores, que eu desejava ter assim

um painel, para serem dous os papeis da minha estimação. O que já possuo

é uma menina lagrimosa, que está dando de comer ao seu cão moribundo,

que não vê o alimento mas ainda a vê a ella, e parece despedir-se a

chorar. O outro quadro queria eu que fosse o vigario de S. Julião da

Serra pendido á fronte humilde da christã; d’um lado, Peregrina com o

rosto banhado do escarlate da flamma, que ella quer affastar de si,

adivinhando que os olhos do moço a estão contemplando; do outro lado,

Ladislau, involuntario, captivo, alheado de si, sem poder desfital-a. Eis

aqui as minhas quatro figuras todas absorvidas em amor de Deus. O padre

está enlevado na suprema magestade do seu ministerio: a penitente está-se

identificando a divindade do corpo e sangue de Jesus; Ladislau, em seu

silencioso spasmo, está psalmeando o hymo de graça que o primeiro homem

deu ao Senhor, no instante de ver inclinado a si um seio amparador de

mulher. E ella, Peregrina? De ti, purpureada virgem, só podem sentir teus

extasis, e contar-no’l-os as tuas iguaes n’este mundo, as que tiveram

simultaneamente a intuição do amor e a visão do primeiro homem amado.

Todos, pois, enlevados em aspirar divino: o sacerdote e a commungante

pela consciencia, os outros pelo coração, aberto em perfumes que queimam

a Deus o mais selecto e fino bago do seu incenso.

Findo o acto sacramental, o padre subiu os dous degraus do altar, cerrou

o sacrario, ajoelhou, e voltou á sacristia. Ladislau ficou em pé, rente

com o tocheiro de castanho tosco, d’onde tirara o cirio. Peregrina foi

depor a sua vela sobre a credencia, desceu ao fundo da igreja saudando os

quatro altares lateraes, e sahiu do adro, e logo entrou na vigairaria.

Ladislau, viu-a desapparecer, e disse de sua consciencia para Deus: «Não

tornarei a vel-a?»

Assomou o pastor no limiar da sacristia, e disse a Ladislau, que ia

sahindo:

—Desejo tel-o em minha companhia algum pouquinho tempo, sr. Ladislau. Se

não vai com pressa, tenha a bondade de esperar, que eu faço oração, e vou

já.

—Espero no adro o tempo que o sr. reverendo vigario quizer.

—Por que ha de ser no adro e não em casa?—tornou padre João.—Entre na

residencia, que a porta do sobrado está aberta.

Ladislau esperou no adro, e, emquanto esperava, tinha os olhos na

janellinha da saleta, em que seu tio costumava estar nas noites quentes,

esperando os freguezes, que voltavam das ceifas, e a todos fallava,

mandando-os sentar nos troços brutos de pedra, que alli tinham ficado

d’uma casa incendiada pelos francezes.

Assim contemplativo, viu elle chegar á janella a irmã do vigario, e

esconder-se, apenas o encarou, surprehendida.

Que instantes aquelles para ambos! Que ceus e ceus, vistos á lus d’um

relampago! Que extensos poemas de lagrimas costuma a saudade fazer depois

com as reminiscencias de uns momentos tão fugitivos!

Sahiu o vigario do templo, fechou a porta, e disse:

—Estava o sr. Ladislau a recordar-se de seus tios?... Não admira, que

eu mesmo, sem os ter conhecido, lhes respeito a memoria, pelos grandes

louvores que ouço dar ás suas virtudes. Basta ver o que este bom povo é,

para se avaliar as excellencias de quem assim o educou. O espirito dos

dous ultimos e defuntos vigarios de S. Julião da Serra está ainda com o

seu rebanho. Facil me ha de ser a mim, homem sem virtude nem experiencia,

pastoreal-o. Mais tenho que aprender que ensinar.

E, no sentido d’estas humildes palavras, foi dizendo outras, que se

insinuavam ao coração do moço já captivo do conciliador semblante do

sacerdote; e assim entraram na casinha parochial.

—Peregrina—disse o padre á irmã que os vira subir, e, sem saber por que,

se alvoroçara—olha que temos hospede; vê lá como te saes; não queiras que

o nosso convidado nos julgue forretas. Almoço de abbade rico, ouviste?

A moça não respondeu. Affastou da fogueira o caldo que fervia, lançou

alguns ovos á certã, e, tão depressa os cosinhou, foi á modesta arca do

seu fragal tirar a melhor toalha, e os garfos de ferro ainda lusidios em

primeiro uso.

Peregrina, posto o almoço na mesa, sentou-se no seu logar de costume, que

era um banquinho tosco achegado do escano. A mesa, construida de uma só

taboa afumada, engonçava n’aquelle adorno da lareira, talvez tão antigo

como a vigairaria de S. Julião da Serra.

Quando a moça se assentou, disse Ladislau:

—Aquelle banco era o logar de minha tia, que Deus tem!

E ficou contemplativo.

—E eu—disse padre João—estou no logar de seu tio, e o sr. Ladislau vem

sentar-se no logar que era seu.

Estava já na meza a travessa de barro vidrado com a fritada de ovos e

farinha triga. O vigario sorriu-se, e disse:

—Na meza de seu tio havia um prato e um talher para cada pessoa?

Ladislau, que não sabia o significado da palavra «talher», respondeu:

—Comiamos todos do mesmo prato; e na minha casa de Villa Cova, tanto meu

pae como meus tios comiamos á mesma meza dos creados e jornaleiros.

—Como ha trezentos annos—ajuntou o padre—como os patriarchas idumeos

com os seus servos e escravos. O sr. Ladislau ainda não viu, á luz da

civilisação, a grande distancia a que está dos seus criados. Vive, por em

quanto, na fé de que senhor e servo são homens filhos do mesmo pai, um

favorecido, outro desfavorecido pelo acaso do nascimento... O sr. não lê

as gazetas?—perguntou o vigario abruptamente.

—Não leio, nem as vi nunca—respondeu o moço—Ouvi dizer a meu tio que um

padre, d’aqui tres leguas, quando acertava de encontrar-se com elle na

feira de Pinhel, lhe mostrava gazetas.

—Pois—tornou o padre—as gazetas são uns papeis escriptos em letra

redonda, creados e sustentados para demonstrarem que todos os homens

tem direitos eguaes. Muito me admira que seus avós e o senhor tenham

praticado a egualdade sem terem lido as gazetas! Provavelmente em casa

dos Militões de Villa Cova lia-se o Evangelho de Jesus Nazareno.

—Lia, sim, senhor.

—Só assim pode explicar-se a virtude sem a doutrinação das gazetas. Dizem

que ellas são o baluarte da liberdade, da egualdade, e da fraternidade;

e eu estou em defender que o sermão da montanha, prégado pelo filho de

Deus ha mil e oitocentos annos, e o sermão da natureza, que sem cessar se

está ouvindo, bastam para fazer um homem irmão e amigo do outro homem,

por amor de Deus, que é pai de todos.

Posto que não excedesse os vinte e oito annos, o vigario, no pausado e

reflectido do seu dizer, competia com os cincoenta annos de algum egresso

d’aquelle tempo.

As faculdades d’este bem-fadado ministro da verdade tinham amadurado

antes da sasão propria. Costuma ser a desgraça quem antecipa, com a

precoce experiencia, a reflexão; porém observa-se que o juizo—o que

commummente se chama _siso_—proveniente das lições do infortunio, é um

recolhimento melancolico, mysantropo, deshumano ás vezes, e quasi sempre

intolerante. Em exemplos d’esses, que os ha em grande copia, acerto seria

arguirmos ao enojo das chimeras d’esta vida o que attribuimos á reflexão.

A madureza do vigario não era apressada pela desventura, nem triste, nem

intolerante. A indole, o habito da soledade, o estudo, a clara vista

da alma com que entrava no secreto e desconhecido do coração alheio,

explicam o ar grave, monacal, e discordante de seus annos. Não obstante,

o geito com que dizia as suas satyras ás gazetas dava mostras de espirito

faceto ou _humoristico_, segundo agora francezmente se diz.

Dos estudos do seminario passára o presbytero á capellania do padrinho de

Pinhel, fidalgo, como se disse, intractavel desde 1834, retrahido ao seu

quarto, em lucta permanente com os achaques da alma egualmente dolorosos

que os do corpo. A gota, o rheumatismo, a sciatica impacientavam-no tanto

ou menos que o desmancho das cousas politicas. Ruy de Nellas Gamboa de

Barbedo, que assim se chamava o gothico solarengo de Pinhel, se alguma

vez chamava padre João Ferreira ao seu quarto, era para lhe perguntar

pela quinquagesima vez:

—Que me dizes a isto, padre João?

—A isto?

—Sim, á queda do rei legitimo?

—É um facto consummado—dizia o padre.

—É uma usurpação consummada!—replicava o fidalgo, e sibillava um agudo

ai, levando a mão ao artelho esquerdo, cuja dor só podia comparar-se á do

artelho direito.

E como o afilhado não pudésse restaurar ao throno usurpado o senhor

legitimo á vontade do padrinho, Ruy voltava-lhe as costas, e o padre

sahia melancolico a encerrar-se no seu quarto com os seus poucos livros,

ou ia leccionar em primeiras letras as filhas do fidalgo, a segunda das

quaes principiara o alphabeto aos dezeseis annos, Deus sabe com que

repugnancia.

Demorei-me accintemente n’estas dispensaveis explicações para dar tempo

a que os tres convivas almoçassem e conversassem. _Conversassem_, é

menos exacto. Quem fallou sempre foi o vigario, e é de presumir que o

auditorio o attendesse escassamente. Ladislau, se alguma cousa escutava,

era o poema interior, os hymnos descompassados, mas sublimes, que soavam

dentro em seu coração. Estranhas musicas deviam de ser aquellas para o

moço surprehendido, na alva do seu primeiro dia de amor, por enchentes de

luz desconhecida! O amor, que vem procurado, como sensação necessaria á

felicidade da vida, perde dous terços da sua embriagante doçura; porém,

o amor inesperado, impetuoso e fulminante, esse é um abrir-se o céu a

verter no peito do homem todas as delicias puras que não correm perigo

de impestarem-se em contacto com as da terra. Era d’esta especie o

sentimento de Ladislau, nascido na hora em que elle ia confirmar sobre a

sepultura de seu tio o pacto de ser sacerdote, abjurar as desconhecidas

allianças do coração com o mundo, e acceitar as que atam o coração ao

mundo com o laço da caridade evangelica.

Ora, aquelle poema interior, se alguem podia decifral-o, era Peregrina.

A mulher innocente e admiravelmente dotada do sexto sentido, que recebe

as impressões não classificadas na ordem physica nem moral. Adivinha

quem a ama, antes que lh’o digam. Parece que o ar se lhe povoa de

espiritos amigos, que giram entre ella e os olhos de quem, a fito ou de

revez, a requesta. Aquelle diaphano veu de escarlate que lhe purpurea

o rosto, não é sangue como dizem os materiaes definidores de tudo: a

mimosa susceptibilidade de cutis, chamada pudor, não pode ser sangue; em

quanto a mim, é o sombreado das azas iriadas dos espiritos que voejam no

ambiente da mulher immaculada, ou então reflexo das coroas de rosas, com

que o deus festivo dos amores a infeita, cioso de ter nos seus altares o

pouco d’este mundo que merece e desculpa a idolatria.

Posto que este dizer tenha um sabor mythologico, pagão, e, sobretudo,

antiquissimo, ha-de o leitor conceder que o seu servo romancista, tal

qual vês, se desgarre do caminho trilhado á moderna, para não dizer

sempre que os seus personagens estavam arrobados, extaticos, ou, o que é

peior, perdidos de amor.

Os meus personagens, Ladislau e Peregrina, não estavam arrobados nem

extaticos, porque ambos confessam que comeram da travessa vidrada a sua

porção de ovos, e tomaram cada qual o seu caldo-verde (palavra indigna

de tão levantado assumpto!)

Perdidos tambem não estavam; porque o perder-se ou transverter-se o

coração é quasi sempre a prova real de não ter sido o primeiro nem o

melhor um certo amor com que os alienados se desculpam.

O amor, que não perde nem desvaira, esse é que é o amor.

Eil-o ahi, pois, profundo, sereno e bello como o oceano em calmaria.

O Bem e o Mal: Romance · 第 14 / 54 题