Apresento o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova.
Nasceu no termo de Pinhel em 1818. Seu pae, viuvo sem consolação, vestiu
o habito de frade mendicante no convento de Vinhaes. Assim cuidou elle
que dignamente honrava a memoria de sua santa mulher. Escolhera convento
pobre como penitencia, e deixara sua casa e filho unico sob a vigilancia
de um irmão clerigo, sujeito de clara fama e varão doutissimo.
N’aquella casa de Villa Cova, que dera o appellido a dez gerações de
honrados lavradores, floreceram, na passagem de cinco seculos, padres de
muito saber, uns famigerados na oratoria, outros grandes cazuistas, e
alguns bastantemente notaveis por sua virtude sem lettras, e nenhum por
lettras sem virtudes.
O educador de Ladislau sobre ser virtuoso, era grande letrado; a sua
sciencia, porém atrazára-se dous seculos na historia do espirito humano.
Padre Praxedes de Villa Cova sabia de cór Aristoteles e Platão.
Philosophia, physica, historia natural, grammatica, logica, metaphysica,
poetica, meteorologia, politica, e mais um centenar de sciencias todas
lh’as ensinaram os dous sabios de Stagira e Athenas. Na opinião d’elle, a
intelligencia do homem, depois de Platão e Aristoteles, envelhecera, ou
fingira remoçar-se com atavios de ouropel e pechisbeques, sem quilate na
experimentada mão de um sabio.
Era padre Praxedes copiosamente lido em livros portuguezes anteriores
ao seculo XVII, e possuia os melhores nas suas ponderosas estantes
de castanho. Da epocha dos Senhores Reis D. João V e D. José I já
pouquissimos volumes, e esses mesmos entremados do ouro puro dos
classicos, se honravam de prender-lhe a attenção.
Foi, desde menino, Ladislau encaminhado por esta, em parte, errada vereda
da sabedoria util e verdadeira.
Começou a escrever como caligraphicamente se escrevia ha dous seculos:
lettra garrafal, com as hastes a prumo, longas e enfeitadas com mui
engenhosos quadrados, mórmente as maiusculas. Era a escripta de
padre Praxedes, tal qual a que seu tio avô, sabio fallecido em 1707,
transmittira a um padre Heliodoro, seu filho, e este ao avô de Ladislau,
e o avô ao filho, que vinha a ser o tio paterno d’este padre Praxedes.
De modo que, n’aquella familia, o «traslado» da escripta em 1830 era
fielmente copiado do de 1680. Em tudo mais como na escripta.
Está situada a casa dos Militões de Villa Cova nas faldas de uma serra
chamada a _Castra_. Affirma documentalmente o padre que o chamar-se
Castra o sitio, vem de ter estado alli presidio romano, ha vinte seculos;
e quer elle que sobre as ruinas d’aquella atalaia dos senhores do mundo
esteja cimentada a modesta habitação dos Militões desde o seculo IX.
É a casa grossa de cantaria com dez janellas de peitoril sem vidraças,
quasi a roçarem nas proeminentes cornijas, assentadas em fortes cachorros
sem lavor. É largo e alto o portão de castanho, que abre sobre um
espaçoso quinteiro, intranzitavel na maior parte do anno, por causa das
gabellas de tojo e urze, que os pés do gado vão calcando e curtindo.
Do fundo do quinteiro, sobe larga escadaria a um pateo lageado com
guardas de pedra tão em bruto e sem visos de esquadria que parecem ter
alli ficado casualmente postas umas contra outras pelo revolutear aquoso
de algum diluvio.
Este exterior assim é triste, mais triste que a soledade das ruinas
de outras casas, que em redor existiam até ao começo d’este seculo,
e ás quaes os francezes acossados pegaram fogo, na sua ultima evasão
de Portugal. Do desastre da Povoa de Villa Cova salvou-se a casa dos
Militões, porque os incendiarios não acharam brecha por onde lançassem
o lume: o morro de pedra era incombustivel; as portadas de castanho tão
sómente a bala raza poderiam saltar dos seus enormes gonzos.
Os donos das ruinas não quizeram reedificar no sitio onde seus
antepassados tinham construido os pobres casalejos. Ajuizadamente
edificaram em terreno mais ao centro das suas leiras, visto que, em casa
de mais fertil torrão, já os avós dos actuaes tinham levado longe o
arroteamento e a cultura.
A casa dos Militões ficou, porém, solitaria, e tomou a si em bem dos
pobres o desmontar da terra deixada a monte.
As corpulentas arvores, que se abraçaram no declive da serra, mal
deixavam entrever a casa de Villa Cova. O vestigio unico de vida
n’aquelle fundão era o rolo de fumo que o vento rarefazia em apparencia
de nevoeirinhos sobre a copa do arvoredo, o qual, visto da cumiada da
Castra, semelhava uma mouta de arbustos.
Volviam mezes e mezes sem que pessoa estranha descesse a serra, em
demanda da casa dos Militões, excepto o viandante, que, surprehendido
pela noute, se guiava pela neblina de fumo, vista ao entardecer, ou pelo
convidativo cantar do gallo.
Em dias santificados, a familia fiava dos cães de gado a guarda da casa,
e ia ouvir missa á igreja parochial, um quarto de legua distante. Desde
tempos immemoriaes era a freguezia pastoreada por clerigo da casa de
Villa Cova. Este clerigo que, no discurso de tres seculos, parecia sempre
o mesmo, tinha sempre comsigo uma irmã, que, no traje, no dizer, e no
sentir, era a mesma irmã do padre do seculo XV.
Depois da missa, o pastor acompanhava os seus a Villa Cova, onde pasava
o dia; e á noute, entoadas as preces das Ave-Maria, lá transmontava o
serro, que o separava da sua igreja, abordoando-se d’um cerquinho, que
diziam ter trezentos ou mais annos de uso—tradição fundada na certeza de
outras muitas.
Este era ainda em 1830 o viver d’aquella patriarchal familia.
Ladislau Tiberio Militão estudava n’este tempo a grammatica de
Aristoteles. Frei Braz, seu pai, morreu n’aquelle anno; e no seguinte, o
tio, que parochiava. Ficou reduzida sua familia ao padre, que o ensinava,
e á tia Sebastiana, que, por morte do tio, voltára da igreja á casa, onde
uma serie de onze antecessoras tinha voltado com o lucto no coração e a
vida por um fio.
Apenas fallecido o pastor, foi padre Praxedes nomeado interinamente para
a vigararia de S. Julião da Serra. Não havia outro clerigo na familia,
nem outro administrador para a lavoura. Quiz o padre declinar a pesada
herança; mas, mal o souberam, os parochianos acudiram em rogos e lagrimas
a Villa Cova, pedindo ao virtuoso irmão do defuncto vigario que os não
desamparasse. Praxedes arrendou os bens, e transferiu-se á residencia
parochial com irmã e sobrinho, esperando ainda que algum clerigo pobre
das cercanias lhe tirasse dos hombros o cargo, e lhe libertasse o tempo
necessario ao ensino de Ladislau.
Malograda a esperança, e nomeado pelo governo, o parocho trasladou a
sua livraria, como quem já tinha ao certo que seus derradeiros annos,
muitos ou poucos, alli seriam vividos ao pé da sepultura dos seus onze
antepassados.
Na casa do presbyterio, continuou a educação litteraria de Ladislau.
Vivia o mocinho entre seus tios; não conhecia rapaz da sua idade com
que entretivesse as horas feriadas, ou conversasse em materia de
estudo. Mui naturalmente lhe pendeu o animo a umas tristezas que nem
viço e contentamentos de primeiros annos podiam desassombrar. Isto não
faria especie ao vigario nem á senhora Sebastiana. Era aquella soturna
melancolia a norma commum do viver d’esta familia. Muita quietação,
silencio tumular, um moverem-se de phantasmas, perpassando uns por outros
com glacial taciturnidade.
Estava ainda gravado no animo de todos o lance funereo da viuvez de
Braz. A mãe de Ladislau morrera como quem passa de um tumulo para outro.
Nem mesmo, depois que sahira o esquife, os gemidos se ouviram longo
tempo. E o viuvo, quasi sem declarar seus intentos, sahiu, ao terceiro
dia, de casa, foi orar sobre a lagea de sua mulher, e d’alli se partiu,
a pé, caminho de Vinhaes. Aqui, bateu á porta do mosteiro, que se lhe
abriu como casa de infelizes, e lá ficou. Tudo assim na vida ordinaria,
modelado por este extraordinario succedimento!
Ladislau contou os dezoito annos da sua idade, sem sentir abrir-se-lhe o
coração a alguma poesia: nem sequer á poesia da natureza!
As graças campestres das Georgicas de Virgilio sabia traduzil-as em
termos frios, rigorosamente grammaticaes, irreprehensiveis em sã e
fradesca latinidade; porém, no interno da sua alma, nenhum enlevo o
transportava da euphonia do verso para a formosura dos prados, das fontes
e do luar das suas noutes solitarias. Dormia-lhe o coração; ninguem á
volta de si proferira aquella palavra, que é bastante a despertal-o
para as alegres alvoradas do primeiro dia de amor, amor sem mulher, sem
esperança, sem emblema, amor em competencia com o ideal do amor dos
serafins.
Como se padre Praxedes premeditasse amortalhar este mancebo, já morto
antes de haver experimentado o palpitar estranho da vida, que estremece
em confusos desejos, uma vez, acabando de traduzir com Ladislau alguns
capitulos da «Cidade de Deus», de Santo Agostinho, fallou assim ao moço
de dezoito annos, sem uma só primavera:
—Ladislau, pensava eu esta noute, e muitas noutes hei vellado a pensar
que, d’aqui a pouco, voltarás á casa onde nasceste, deixando teu mestre
debaixo da pedra onde esperam o grande dia todos os nossos. Pensei com
tristeza que não virá tão cedo de nossa casa o padre guardador d’este
rebanho que os nossos antepassados acceitaram como de Deus, e vieram,
no atravessar de tantos annos, passando o cajado uns a outros. Agora é
que se acabou este legado de serviços, desvelos, e caridades aos nossos
irmãos... Quão grata seria a Deus que o não regeitassemos! Não estás tu
aqui tão bem inclinado á virtude, e aproveitado na sciencia das cousas
santas?!... Queres tu ser padre, Ladislau?
—Quero, meu tio—disse o moço com inalterado semblante, como se fosse
convidado a traduzir a «Carta aos Pisões» ou as «Lamentações de Jeremias».
—Sentes em ti vocação ao sacerdocio?—reperguntou o padre com alegre
sombra.
—Sinto, sim senhor; porque não hei de sentir?—disse Ladislau.
—Não tens pensado em outro futuro, meu sobrinho?
—Outro futuro!?—perguntou o moço como alheado na estranheza da
insistencia.
—Sim: outro futuro... Pensaste alguma vez em te casares?
—Não senhor.
—Nem te pende para a vida de esposo e pai a inclinação de teu animo?
—Nem tenho cogitado n’isso.
—Pois pensa, sobrinho, pensa, que esta vida de padre tem grandes alegrias
e grandes amarguras, como todas as vidas, todas as vocações. Se queres
a paz, que me tens visto no rosto, entra na trilha de meus passos; os
dissabores de dentro, esses, que são muitos, Deus te afaste o calix
d’elles; mas se t’o der, acceita-o, que a remuneração é infallivel:
acceita-o, meu sobrinho, que o descanço, vindo apoz a batalha, é
ineffavel como o jubilo dos Santos. Ora pois: pensarás um anno;
consultarás o teu espirito; e, em cada amanhecer, pedirás ao divino
Espirito Santo que te allumie.
Antes de findado o anno, padre Praxedes deu a alma ao Senhor; e
Sebastiana, que vivia para sepultar o ultimo vigario de S. João da Serra,
lá ficou na campa mais proxima, adormecendo-se a beneplacito de Deus,
como quem cumpriu sua missão.
Ladislau voltou á casa de Villa Cova com a sua livraria, e as supremas
palavras do tio moribundo, que tinham sido estas:
—Espera um anno mais, o conselho do Espirito Santo. Se o teu coração
estiver desatado de paixões, que prendem á terra, dá-o a Deus; se não,
meu sobrinho, sê um bom marido e bom pai, que esta virtude é por si
tambem um sublime sacerdocio. A vida solitaria, que tens vivido, se
poderes continual-a, filho, não a troques pelo mundo. Sacerdote, marido,
ou simples homem, sem mais obrigações que as communs com os outros
homens, além das que o decalogo te manda, foge, quanto poderes, da vida
que traz comsigo o esquecimento da morte. Ladislau, a sciencia é um
grandissimo mundo povoado de espirituaes amigos; os teus livros encerram,
cada um, sua alma, que te falla como amiga. N’este, acharás um desgraçado
contricto, que te conta os seus infortunios com o bispo de Hippona, ou
o fundador da nossa Arrabida[1]. Outro, como o thesouro de Kempis, se
te desentranha em balsamos para quantas feridas a dôr do ermo ou os
desenganos do mundo te abrirem no seio. Nos livros apprendi a fugir ao
mal sem o experimentar. Confessor quarenta annos, vi as angustias, que
vão por esse mundo, tantas, que não cabiam lá, e transbordavam até ao
nosso escondrijo. Recolhe-te a ti; não deixes os teus campos; affaz-te a
amar estas serras, onde o pé do impio não chegou ainda. Olha tu com que
serenidade eu fio meu remedio e salvação da divina misericordia: aqui
tens, na morte, um exemplo das vantagens da vida, que eu tive. É isto,
filho; é este acabar sem remorso nem temor, consolando-me de ter sido tão
moderado em meus desejos, que nem se quer peço a Deus que me dispense
mais um dia de existencia.
Estas e poucas mais foram as ultimas palavras do presbytero.
Ladislau Tiberio viveu um anno esperando o conselho do Espirito Santo.
Os chorosos parochianos de S. Julião da Serra, quando viram suas
consciencias em guarda de um sacerdote moço, que viera de longe
pastoreal-os, foram ter com Ladislau, representados pelos lavradores mais
abastados da freguezia.
—Que querem de mim?—perguntava o moço—que hei de eu fazer-lhes?
—Seu tio, que Deus haja—respondeu o mais respeitado—nos disse que talvez
o sr. Ladislau tomasse ordens para ser o nosso vigario.
—Pois sim; mas é cedo ainda, meus amigos. Deixai-me esperar o dia
destinado á minha decisão.
O dia chegou: era o anniversario da morte do padre Praxedes.
Ladislau, na manhã d’aquelle dia, foi orar ao templo, e ajoelhou sobre a
campa dos sacerdotes seus antepassados.
Raiava a aurora, quando entrou á egreja.
E enxergou um vulto, orando no arco da capella-mór.
Mais tarde, como o sol coasse pela estreita fresta lateral um raio de luz
sobre o vulto ajoelhado, Ladislau reconheceu uma mulher.