F. França Amado, Editor

1909

Póde o racionalismo alinhar argumentos para annular o despotismo da

auctoridade pessoal e nos persuadir de que os unicos poderes legitimos,

na direcção individual ou collectiva dos homens, são a consciencia e a

verdade, reveladas e illuminadas pelo pensamento, pela logica, por um

exame intimo, completamente alheio á consideração e interferencia das

qualidades e da attracção ou repulsão d'aquelles que nos cercam,

presentes aos nossos sentimentos, em contacto immediato ou na imaginação

e recordação historica. Póde mesmo no rigor da deducção levar-nos a

confessar que assim deve ser, quando o espirito attingir uma maioridade

authentica, uma independencia etherea. Mas a realidade das cousas,

perseverante, na placida e indulgente ironia em que docemente escarnece

da firmeza dos conceitos e das presumpções da razão, continua a

deixar-se levar mais pela seducção das pessoas do que pela exactidão e

belleza dos systemas. Afasta do caminho abstracções, ainda as mais bem

fundadas, não desiste de ordenar que os homens se guiem por influencias

humanas e lhes obedeçam, preterindo por esse modo e sem cessar as

determinações e instancias de syllogismos, que facilmente atraiçoamos a

cada passo, convencidos todavia da perfeita bondade e rectidão do nosso

proceder.

Por certo, uma força occulta nos conduz; e, pela energia e tenacidade,

deverá ser tão legitima como os mandados da razão. Dir-se-ia que, para

se tornar efficaz, a doutrina, sobretudo a doutrina moral, carece de

personificação consentanea e de exemplo. Porventura, nem a sublimidade

christã teria conseguido triumphar se Jesus, pobre, flagellado,

paciente, a não houvesse santificado, immolando-lhe o sangue perante as

multidões e o vulgo, se, pelos actos mais do que pelas palavras, não

houvesse dado testemunho, até ao martyrio e morte ignominiosa, da plena

consubstanciação do corpo e do espirito arrebatados n'uma unica

aspiração. Uma mysteriosa e vaga lei psychologica quererá talvez que a

verdade só seja verdade quando se mostrou em fórma palpavel, e só possa

dominar dominando-nos pela capacidade e fascinação dos homens nos quaes

transitoriamente encarnar.

D'essa tendencia á confiança e abdicação na auctoridade estranha não

encontrei melhor exemplo, em toda a minha vida, do que a preponderancia

de José Estevão em Aveiro entre os homens da sua geração e entre

aquelles que immediatamente lhe succederam.

Quando comecei a sentir conscientemente o que em volta de mim se

passava, já tinha morrido José Estevão. Mas que profundo e absoluto

imperio não o vi exercer?!... Que largo e indisputado reinado! A sua

vontade era a sentença ultima; o seu julgamento a suprema justiça. O que

queria elle? O que desejava? Como apreciava os factos e as

intenções?!... Em tudo, nas cousas pequeninas como nas grandes, não se

podia ir alem, fossem quaes fossem os caprichos em jogo, sem averiguar

primeiro do conselho e mandados de José Estevão, irrevogaveis. A tutela

era perfeita. Esse homem, que se batera pela liberdade, deixára-nos

escravos do seu proprio dominio; escravidão voluntaria, sem embargo, no

fundo um despotismo. Nem sequer era prudente aventurar juizos sobre o

caracter dos contemporaneos com quem elle tratára; estavam julgados, e

seriam bons ou maus, conforme nos seus olhos se houvessem reflectido.

«José Estevão dizia...», «José Estevão queria...»; chegadas a esse

ponto, as discussões rematavam. A lembrança das suas palavras, dos seus

gestos e attitudes e do seu proceder dirimiam pleitos que a mais avisada

ponderação não lograva solver. Os motivos d'auctoridade prevaleciam

sobre toda e qualquer outra tentativa d'explicação. A amizade, que o

rodeára de tão grandes dedicações emquanto andou no mundo, redobrava

d'affecto depois que elle d'aqui partira; e constantemente o resurgia

das cinzas para o interrogar e seguir. Belleza e bondade, rectidão e

injustiça, até o aspecto comico das cousas, tudo elle havia apontado e

regrado d'uma vez para sempre, pela imposição do seu pensamento, pelo

calor de iras sagradas, e não raro pela rutilencia e agudeza dos

gracejos. A voz baixava ao pronunciar-se-lhe o nome; se alguem invocava

aquella sombra e ella voltava no seu esplendor d'eterna gloria,

emudeciam, por uma insinuação profunda de respeito e carinho, quantos

entreviram a apparição.

Viveu-se assim em Aveiro durante prolongados annos, n'este temor e

veneração ultra-tumular d'uma magestosa figura, sob a soberania d'uma

alma nobre entre as mais nobres. N'esta sujeição se vive ainda. E oxalá

em igual obediencia os vindouros possam viver no correr dos seculos!

Que armas constituiram e constituem aquella força sobrenatural? Por que

extraordinario conjuncto de faculdades e sentimentos, por que impulsos e

indefectivel vehemencia d'elevação se divinisou aquelle homem?

Eis o que n'estas paginas procuro analysar, antecipadamente certo de que

nunca me será dado desfiar, fio a fio, as prisões que nos subjugaram.

Por muito feliz me tenho se algumas tiver destrinçado; sem falsa

modestia o confesso, e tambem sem corar da propria insufficiencia, tão

ardua se me afigura a empreza. Ha invariavelmente no genio qualquer

cousa essencial e irreductivel, d'uma integridade invulneravel,

inaccessivel ao exame, e resultando em que, depois de percorrermos um

largo circulo de observações, ao fim, fatigados da louca obsessão de

aprehender sempre illudida, temos de renunciar ao esforço improficuo e

render-nos a um derradeiro poder, revelando-se-nos só para ser adorado e

nunca perscrutado--o encanto.

I

José Estevão · 第 7 / 23 题